Crítica: Para Wong Foo: Obrigada por tudo (1995)

Aí vai mais uma adaptação de um trabalho que eu fiz esse semestre. Tentei evitar spoilers. Aproveitem!

Como é comum no campo da comédia, o filme Para Wong Foo: Obrigada por tudo é um palco de estereótipos. O trio de protagonistas é composto por uma drag queen branca de família rica, que faz o estilo lady recatada (Vida Boheme – Patrick Swazy), por uma negra irritadiça bem na linha “no-you-didn’t!” (Noxeema Jackson – Wesley Snipes) e por uma latina espevitada, sexualizada e abusadinha (Chi Chi Rodriguez – John Leguizamo). O cenário do filme é o estereótipo da pequena cidade do interior dos Estados Unidos, povoada por seus hillbillies (caipiras) típicos. O xerife Dollard, que persegue as meninas ao longo do filme, é, por sua vez, o retrato do policial sulista machista e ineficiente, em meio a colegas corruptos cuja atividade principal é consumir aqueles donuts horrosos.

Esse filme, a despeito de ser cativante, engraçado e aparentemente leve, dá muito o que falar. Eu escolhi por me concentrar, para a surpresa de todos, na forma com que ele trabalha com as “fronteiras” entre os gêneros e suas oscilações. Uma explicitação disso se dá no diálogo entre as protagonistas no começo da sua jornada de carro pelos EUA, quando a Noxeema define e difere  travesti (“quando um homem hétero coloca um vestido e tem um toque sensual”), transexual (“quando um homem é uma mulher presa num corpo de homem e faz a operaçãozinha”) e drag queen ( “quando um homem gay tem senso de moda demais para um gênero só”). A drag é colocada como ponto máximo a ser atingido pela jovem Chi Chi através de um processo de aprendizado de delicadez, afeto e bom gosto. Essa imagem da drag “feminilizada”, contudo, se contrasta no desenrolar do filme com momentos em que a demanda por força física e coragem, geralmente dada por conflitos homens violentos, são associadas obrigatoriamente a uma imagem maculina. Essas duas regiões simbólicas são muito bem delimitadas no filme e, a despeito do tema pretensamente gay, elas não se misturam. Quando a drag toma chá com as amigas, revoluciona seu guarda roupa ou se apaixona, ela é feminina. Mas quando enfrenta garotos agressivos e defende as amigas (frágeis, já que mulheres) dos maridos violentos, ela é homem. A peruca da drag tem que cair pra que ela possa exercer determinados papéis.

Esse filme é matéria prima pra discussão, isso sim. Não toquei nem na questão racial, que está pautada o tempo todo, só que talvez mais implicitamente. Ele levanta uma porção de questões a olhos atentos, mas não problematiza efetivamente os papéis sociais atribuídos ao feminino e ao masculino. E nem se propõe a isso. Mas que dá pra fazer pensar, dá. Além de fazer rir à beça.

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