Ser jovem versus Ser jovem.

Não é só fim de período que é uma loucura; o início também pode ser bem confuso. É verdade que, à medida que o tempo vai passando, eu vou ficando com mais e mais coisas pra fazer… lembro de ficar na UFF à tarde no primeiro período brincando de andar de bicicleta de jeitos bobos e coisas assim. Mas agora… eu só tô fazendo quatro matérias e já não tô conseguindo dormir decentemente. É engraçado quando eu paro e penso na quantidade de responsabilidades que eu tomei pra mim e que me vão sendo atribuídas com só 20 anos.

Cena:
Saio da faculdade às 22h num dia de semana, depois de ter passado o dia inteiro de aula em reunião e etcétera. Passo pela Cantareira (praça onde se concentram os barzinhos universitários) lotada desviando do vendedor de churrasquinho e do bando de universitários que conversam em pé com copos de cerveja na mão.

Qual a primeira coisa que me vem à cabeça? “Credo, como essa gente aguenta estar aqui? Quero estar dormindo na minha caminha urgentemente, por favor!”. Essa resposta me assusta um pouquinho. Alguma coisa me diz que eu deveria ter energia pra ser uma daquelas pessoas de copo na mão. Ou melhor: que eu não gastasse tanta energia em aula e reunião, que eu deveria estar concentrada em socializar com a galera, relaxar, dançar uns rock… Pensamento final: “É… estou ficando velha”.

Velha! Eu tenho vinte anos e às vezes sinto uma terrível falta de paciência pra gente que fica bebendo cerveja às duas horas de uma tarde de segunda feira. Todavia, eu tenho vinte anos. Eu quero tomar uma cerveja numa tarde de semana, matar uma aulinha, socializar com a galera. Entretaaaanto, eu tenho vinte anos! Tenho que mexer o meu traseirinho pra aprender alguma coisa, participar de algum movimento, aproveitar o ethos* revolucionário da idade. Contuuuuudo, tenho vinte anos!!!!!!!!! Tenho que me formar logo, preciso dar um jeito nessa vida, parar de depender de mamãe, partir pra ação profissional, pegar as rédeas da minha vida e dar início efetivo aos meus planos!

*

Na minha confusão de não resolver meu horário, tem grandes chances de eu perder uma matéria brilhante que está sendo oferecida no IACS: Corpo, subjetividades e tecnologias. “Ãihn, que pós-modernice!”. Ok, galere, a pós-modernidade é tão ignorável que a gente nem precisa pensar sobre ela, né? [Desculpa a observação mal-criada, mas é que alguns comentários deixam a gente na defensiva. Mas isso é outra história.] Pois bem, apresentando o curso, a professora tocou na ferida: as contradições de ser jovem na contemporaneidade. Dá pra gente pensar em uma oposição fundamental:

1) Jovem, invista no seu futuro! Estude, se aprimore, faça intercâmbio, estágio, cursinhos e o diabo! Transforme-se em um protótipo de adulto-de-sucesso!

X

2) Jovem, aproveite a vida! Divirta-se, saia com os amigos, pegue geral, se apaixone, desapaixone, vá pra night celebrar a vida e a beleza! Deixe de lado compromissos sérios, tarefas pesadas, coisa de gente velha e quadrada. Se joga, querido, enquanto ainda é tempo!

Então… assim eu fico loca! Ok? Porque, se no 1, eu sinto que estou desperdiçando minha juventude e, se no 2, eu também estou! O problema é que, nesses tempos enlouquecedores, ser jovem é só o que há de bom nessa vida. A juventude é tão supervalorizada que, se você não pode ser jovem, meu bem, deve parecer jovem. E aí que querem tudo ao mesmo tempo de você! Que consuma os produtos necessários ao empreendedor junior E que consuma os produtos da galera vida loka. Aproveita esse metabolismo acelerado, baby! Que ele não dura muito não! E essa cara de garoto bonitinho, aproveita pra pegar muita mulher! Que depois que ele tiver todo enrugado e sua esposa já tiver te largado, você só arruma outra com dinheiro! Só que, pra ter dinheiro… ah, você devia ter se concentrado mais nos estudos.
E por aí a roda gira.

Bom, chegar a essa brilhante constatação não resolve muito o meu problema. Não quero ser empreendedora junior nem virar várias noites só tomando cerveja e café, mas ainda preciso conciliar estudo, trabalho, movimento estudantil (esse nem anda tomando muito tempo, infelizmente) e outras cositas más pra fazer com que amanhã eu faça algumas coisas que desejo com namoro, amigos, tranquilidade e un poquito de vida loca, por favor. Alguém me ajuda? =)


*Desculpa pelo academicismo, gente. Ainda faço um post sobre isso.

Todo mundo tem um grande medo.

Todo mundo tem um grande medo. Medo de morrer, de não ser amado, de perder, de ser caluniado… sei lá. O meu grande medo é não conseguir ser realmente útil. Não me lembro bem quando, mas parece que já vem de muito tempo essa minha necessidade de empregar a minha vida em alguma coisa que seja minimamente significativa nesse mundo enlouquecido. Pensei, pensei, e resolvi ser professora. Provavelmente porque, do que testemunhei nesse pouco tempo de vida, foram professores (no âmbito das profissões) que vi tocarem mais profundamente corações e mentes de pessoas, contribuindo de verdade pra que elas se desenvolvessem autonomamente. Cara, eu conheci professores incríveis. A tal ponto que talvez eu tenha escolhido essa empreitada numa tentativa meio torta de reproduzir essas histórias, “manter a chama viva”, hehe. Mas ao passo que a minha graduação vai se aproximando perigosamente do seu fim e os devaneios e anseios ameaçam virar realidade palpável… aí, meu amigo, eu fico tensa. E os melhores professores passam de inspiração a um retrato daquilo que eu posso não conseguir ser, não conseguir fazer.
A verdade é que eu sempre acreditei na minha capacidade pra fazer as coisas, quando eu quero mesmo. Mas, diferentemente da minha mãe que acha que tudo que eu fizer na vida com dedicação vai ser o máximo, eu enxergo percalços. E que percalços! Eu tenho me imaginado entrando na sala de aula pela primeira vez… e até eu me tornar a Miss G do Escritores da Liberdade, muitas águas vão rolar. Todos os professores adoram contar como é difícil no começo, como eles chegavam em casa chorando todo dia e pensando em desistir, como eles ainda hoje têm medo de aluno. Opa, ponto pra mim! Eu já tenho medo de todos os meus futuros alunos!Como é que eu, Bárbara Araújo Machado, com essa cara de Zé Ruela, vou conseguir? Porque eu quero muito. A coisa que eu mais odeio nessa vida é fazer as coisas mal feitas (entendam bem: fazer as coisas que importam mal feitas, porque de resto, hehe, não tem problema não). Até eu me tornar a Miss G., a Marisol, o Zé Cláudio e cia., eu vou ficar muito bolada. Vou chorar, vou me descabelar, vou ser infeliz e vou querer morrer.

Ok, aham, eu sei que as coisas não funcionam assim. Não é uma linha ascendente em cujo topo está escrito “parabéns, agora você é uma professora revolucionária bacana e amada!”. Mas, pô, estamos aqui falando sobre um Grande Medo. E grandes medos nem são racionais. Eu sei que eu vou ter dias ruins e dias incríveis. Mas olhando pro Panteão dos professores… Querido gênio da lâmpada, eu quero ser foda assim também! Quero que os meus alunos sintam isso que eu senti, que eu sinto tantas vezes, quando parece que toda a esperança foi pro lixo. Porque educação é isso, cara. É esperança, porque é a visão de possibilidade de transformação das coisas. E eu me acho super expert em Educação, aliás. Só li dois livrinhos do Paulo Freire e assisti àlgumas aulas na FEUFF, mas sou aluna há 20 anos, sempre atenta aos trâmites, processos, dinâmicas.

Foi só depois que eu entrei na faculdade de história que eu aprendi o que diabos história é – ou melhor, o conceito bonitinho para o que deveria ser: o estudo das mudanças no tempo (“,etereologia?”). Ouvi dizer que História é o seguinte: o conhecimento sobre as transformações que a humanidade engendrou ao longo do tempo. E sabe o que isso me faz sentir? Esperança. Importante distinguir: esperança aqui não é do verbo esperar-aguardar. É do verbo acreditar-agir. Possibilidade de mudança.

Miss G. que me aguarde… ou que me guarde, sei lá. O medo é grande, mas a esperança é maior. E ela não morre, mané! Tentam, tentam, e ela não morre. Acaba sempre vindo um professor (lato sensu, por favor) pra me mostrar que  ainda tá rolando. Tem sempre muita coisa em jogo pra se jogar.

Desabafo provocado por “Terra Fria”

Com os primeiros passos do bloguinho acabou vindo também a neura de ter que mantê-lo atualizado. Fico no dilema ente escrever qualquer coisa mais ou menos ou escrever só quando eu tenho realmente alguma coisa relevante pra dizer. O objetivo é pender pra segunda opção, mas muitas vezes eu acabo não conseguindo concatenar as idéias suficientemente bem pra escrever sobre alguma coisa que acho que deva ser dita ou então me enrolo toda nessa vida e perco o fio da meada. Mas vamos tentando que a coisa tem sido bacana até aqui.
Eu tinha jurado pra mim que não faria outro post sobre filme, mas pô… dessa vez não vai ter como. O destino acabou me fazendo assistir hoje Terra Fria, com a Charlize Theron. Minhas amigas sabem o quanto fiquei (ficamos) bolada(s), nos vários sentidos que essa estimada gíria adquiriu. Então eu preciso desesperadamente falar sobre esse filme! Mas isso nem será uma crítica. É mais um desabafo mesmo.

O filme é uma adaptação de um livro que conta a história da primeira ação coletiva por assédio sexual iniciada por uma mulher, Lois Jensen (no filme, Josey Aimes), contra uma grande impresa mineradora. Eu tô aqui lendo uma ou outra crítica sobre o filme, mas só dessa vez vou deixar um pouco de lado os dados pra falar só do que vi. Esse foi um daqueles filmes que eu me emocionei mais do que o comum, me fazendo pensar se eu não tava chorando além da conta por algum motivo externo.

Assédio sexual, cara. Estupro. Discriminação, violência simbólica, física, e tudo o mais que existe de truculento nesse mundo eu vi naquela telinha hoje. A despeito de toda a trama histórica super interessante, essa não é uma daquelas histórias que te faz pensar sobriamente no lado social das coisas. É um troço que mexe com as entranhas.

Na cena imediatamente depois que a personagem da Charlize foi sexualmente agredida, ela caminhava em direção ao agressor no meio de vários funcionários da impresa. E eu fiquei tipo criança em show de fantoche, falando pra ela o que fazer. Não pude pensar em mas nada a não ser enfiar uma lâmina ultra afiada no pescoço daquele infeliz. Naquela cena eu era ela. E não tem nada de mais amargo do que ser a mulher depois do estupro.

Voltei pra casa depois do filme caminhando, conversando com a Flora. Não sei, mas naquele momento falamos com muito certeza que a maior violência possível  contra um ser humano é o estupro. É uma violação de tudo, do seu corpo, da sua alma, sua ética… não sei, não sei. Só pensar que isso acontece com uma pessoa me dá uma multiplicidade de nós na garganta que não dá nem pra dizer. Isso acontece, cara, isso acontece. E ainda tem gente que tem o despautério de dizer que a mulher que provoca! Cara, sinceramente! No estado que eu tô agora, cai toda a argumentação e a vontade que eu tenho é de dar um socão na cara de um infeliz desse.

Aí a gente pensa que essa “gente que fala essas coisas” está do outro lado da divisória, lá, onde estão os conservadores da ultra direitona do mal. É, pessoal… acontece que o machismo inconsequente está muito mais entranhado nas pessoas do que se imagina. Ele ri entre amigos esquerdistas num corredor de faculdade pública. E como ri. Ele caminha nas cabeças pouco reflexivas nas opiniões tão carregadas de certeza de tanta mulher que passeia por essa minha cidade. “Essa mulher com essa sainha desse tamanho… depois não sabe porque as coisas acontecem!” – tá aí. Tantas vezes em vozes amigas.

E é por essas e muitas outras que não dá pra parar de ser chata não. “Feminista sem senso de humor é foda”, mas é um tanto de piada sem graça nesse mundo… pensa só. É nas coisas mais inocentes e mais naturalizadas que a gente acaba reproduzindo as besteiras. E elas tem dimensões enormes…

Ah, sei lá. Ainda estou muito bolada. Acabei de ver um filme, comi um lanche com suco de uva com a Flora e vim direto pra cá, digitar desembestadamente. O filme vale muito, muito a pena. E a história a Lois também. Depois do processo, diferentemente do final bonito do filme, ela acabou se tornando uma pessoa bastante reclusa e cheia de problemas de saúde, já que o estresse pós-traumático acabou com o sistema imonológico dela. Ela disse numa entrevista à Minnesota Women’s Press:

“Existem algumas mudanças que eu gostaria de ver. Se nós pudéssemos conseguir mudanças que protejam as mulheres no sistema jurídico, isso ajudaria a todo mundo. As proteções que surgem acabam sendo derrubadas. As mulheres simplesmente apanham por tentar fazer a coisa certa e por defenderem a si ou a outros.”

Um detalhe mórbido: tente procurar “estupro” no google. E 90% dos resultados da primeira página são do tipo “cenas de estupro aqui!!!!”, “vídeos de estupro escolar” e “conto erótico: estupro não, dei porque quis!”.

Tô sem estômago pra falar mais.

Agradecimentos e umas palavras sobre Diferença x Igualdade.

Puxa, mas que surpresa, eu… eu nem preparei um discurso!

É com muita, muita satisfação que eu anuncio que consegui  um segundo lugar no Concurso de Blogueiras promovido pela Lola! Não é legal, não é legaaaal? Mãe, pinta o oscár de prateado que ele é meu! Tá que segundo lugar é coisa de vascaíno/botafoguense, mas nesse caso específico é mó coisa bacana, já que esse blog tem poucos meses de vida e ainda tá começando a se entender enquanto sítio virtual. Eu queria agradecer à minha mãe, que me apoiou sempre durante essas duas décadas; à toda minha família, que reforça cotidianamente meu feminismo e esquerdismo querendo ou não; ao meu namorado, que me atura falando desse feminismo e desse esquerdismo e, de quebra, ainda dialoga comigo; aos meus amigos, que votaram de computadores diferentes e aos que esqueceram de votar; à rapêize que conheceu o blog através do concurso (e, principalmente, a que gostou, hehe); às blogueiras geniais que eu conheci e que agora preenchem meu tempo vazio nesse mundo de bytes com leituras que me dão muito o que pensar [Juro que já tô no fim, não toca a música ainda!]; à Raquel, que me deu aula semestre passado e que rendeu muito do que eu tenho escrito por aqui eeeeee finalmente e obviamente, à Lola, por ter feito esse concurso super bacana, ajudado a criar novas redes virtuais de blogueira/os e ainda ter posto um link pro Ou Barbárie no Blogroll dela.

(aliás, eu só aprendi o que é “blogroll” com esse concurso! é aquela listinha de blogs ali na coluna do lado, tá, gente?)

Quero aproveitar o tópico pra falar um pouco mais sobre o assunto do post que concorreu. Recebi comentários interessantes ao longo do concurso, que me fizeram querer trabalhar um pouco mais aquelas idéias por aqui. Vamos lá.

Quando se coloca uma idéia de uma fluidez maior em vez de dois extremos bem definidos – masculino x feminino – isso é um pouco assustador. É assustador em primeiro lugar porque os respectivos papéis sociais parecem tão claros (e fixos) mal a gente abre os olhos! Menino-carrinho e menina-boneca. E se o menino gosta de boneca, meu amigo, então ele não é menino. É “mulherzinha”, “bichinha”, etc. A questão é: dois aparelhos reprodutivos diferenciados não podem determinar comportamento esperado. Só que dizer isso, ainda mais quando se fala em sexualidade, faz muita gente sair correndo e gritando (ou, pior, ficar xingando e agredindo). Mesmo essa idéia do binômio fisiológico homem x mulher é bastante recente, se a gente pensar em termos históricos. O Thomas Lacqueur diz que essa noção bussexuada que a gente tem hoje data do século XVIII, ficando ainda mais rígida no século XIX, quando a medicina pintava em cores de montro a figura da mulher. Antes disso, até mil seiscentos e muito, mesmo o corpo biológico era visto com alguma fluidez, sendo a diferença dada em grau . [Esse livro do Laqueur – Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud – tá traduzido pra português, mas eu nunca tive tempo de ler. Li uma porção de gente falando sobre ele só. E creio que valha a pena!]

Mas há ainda mais que esse primeiro nível de susto. Porque mesmo nós, os superesclarecidos (ham-ham) ficamos é super-confusos na hora de trabalhar com a idéia da diferença. Afinal, é na diferença que se estabelece muitas vezes a força dos movimentos sociais. Se não queremos só bater nas teclas feminista e gay, o movimento negro é o exemplo perfeito. Como pleitear a merecida igualdade através da afirmação da diferença? Somos negros e não brancos. Somos oprimidos, não opressores. Questão antiga, maleável e delicada: Como ser diferente e ser igual?

É aí que a grande Joan Scott entra na jogada, com uma colocação que faz a gente se sentir bobo de tão esclarecedora:

“o verdadeiro antônimo da igualdade é a desigualdade, não a diferença, e o da diferença é semelhança, não igualdade”

(Scott apud Ergas, 1995, p. 593)

Bonito de se ler. A diferença é essencial, não é nela que mora problema algum. O problema mesmo é quando se hierarquiza as diferenças, é aí que nasce a desigualdade. Assim, defender a igualdade não significa ir contra a diferença, muito pelo contrário. Significar defender direitos universais para pessoas plurais. E não há nada de incoerente nisso.

Crítica: Para Wong Foo: Obrigada por tudo (1995)

Aí vai mais uma adaptação de um trabalho que eu fiz esse semestre. Tentei evitar spoilers. Aproveitem!

Como é comum no campo da comédia, o filme Para Wong Foo: Obrigada por tudo é um palco de estereótipos. O trio de protagonistas é composto por uma drag queen branca de família rica, que faz o estilo lady recatada (Vida Boheme – Patrick Swazy), por uma negra irritadiça bem na linha “no-you-didn’t!” (Noxeema Jackson – Wesley Snipes) e por uma latina espevitada, sexualizada e abusadinha (Chi Chi Rodriguez – John Leguizamo). O cenário do filme é o estereótipo da pequena cidade do interior dos Estados Unidos, povoada por seus hillbillies (caipiras) típicos. O xerife Dollard, que persegue as meninas ao longo do filme, é, por sua vez, o retrato do policial sulista machista e ineficiente, em meio a colegas corruptos cuja atividade principal é consumir aqueles donuts horrosos.

Esse filme, a despeito de ser cativante, engraçado e aparentemente leve, dá muito o que falar. Eu escolhi por me concentrar, para a surpresa de todos, na forma com que ele trabalha com as “fronteiras” entre os gêneros e suas oscilações. Uma explicitação disso se dá no diálogo entre as protagonistas no começo da sua jornada de carro pelos EUA, quando a Noxeema define e difere  travesti (“quando um homem hétero coloca um vestido e tem um toque sensual”), transexual (“quando um homem é uma mulher presa num corpo de homem e faz a operaçãozinha”) e drag queen ( “quando um homem gay tem senso de moda demais para um gênero só”). A drag é colocada como ponto máximo a ser atingido pela jovem Chi Chi através de um processo de aprendizado de delicadez, afeto e bom gosto. Essa imagem da drag “feminilizada”, contudo, se contrasta no desenrolar do filme com momentos em que a demanda por força física e coragem, geralmente dada por conflitos homens violentos, são associadas obrigatoriamente a uma imagem maculina. Essas duas regiões simbólicas são muito bem delimitadas no filme e, a despeito do tema pretensamente gay, elas não se misturam. Quando a drag toma chá com as amigas, revoluciona seu guarda roupa ou se apaixona, ela é feminina. Mas quando enfrenta garotos agressivos e defende as amigas (frágeis, já que mulheres) dos maridos violentos, ela é homem. A peruca da drag tem que cair pra que ela possa exercer determinados papéis.

Esse filme é matéria prima pra discussão, isso sim. Não toquei nem na questão racial, que está pautada o tempo todo, só que talvez mais implicitamente. Ele levanta uma porção de questões a olhos atentos, mas não problematiza efetivamente os papéis sociais atribuídos ao feminino e ao masculino. E nem se propõe a isso. Mas que dá pra fazer pensar, dá. Além de fazer rir à beça.