O Dono do Corpo

Minha mãe sempre fez um bom trabalho me mantendo uma criança saudável: fiz uns meses de ballet, alguns anos de capoeira, natação, vôlei de quadra, vôlei de praia… Quando a coisa começou a ficar por minha conta, comecei a parar. O tempo foi ficando escasso e o dinheiro, nem se fale. Voltei a fazer capoeira por um tempinho no último ano do colégio, mas aí mesmo é o que o tempo não dava (muito mais pelo peso na consciência do que pelo estudo efetivo pro vestibular). Com a licença da dicotomia grosseira, os primeiros anos de faculdade exercitaram bem o espírito e pareceram atrofiar e corpo. Muita conversa, leitura, pensamento e pouco movimento. Isso começou a me incomodar crescentemente. Eu via no meu próprio corpo uma possibilidade inexplorada, fora o tal de dor pra lá, dor pra cá.
Vou tentar falar aqui sobre uma coisa que não é verbal. Talvez um bom mote pra minha poesia que anda em coma. É sobre o que eu sinto com o meu corpo quando ouço um berimbau, um pandeiro, uma mixagem eletrônica, um bandoneon… O que é que dança tem? E quando eu falo em dança, falo no mover-se do corpo de uma forma bem ampla, com música ou sem. Quando a gente toma uma consciência diferente do corpo, quando parece que ele é mais do que você mesmo, mais que um aparelho que serve pra você existir. Quando se inicia uma conversa com ele, conhecendo o que ele tem pra mostrar, o que costuma ser sempre surpreendente, sempre só uma amostra das possibilidades infinitas de expressão.

Esse sábado, eu e Tito fomos tentar comprar ingressos pra assistir o Café de los Maestros no Vivo Rio. Explicando mal, isso é como uma versão argentina do Buena Vista Social Club, ou seja, um documentário sobre mestres tangueros, que se reuniram agora para sair em turnê. Acabamos dando mole e não conseguindo comprar, mas a questão é que esse filme é uma boa dica pra pensar sobre o que estou falando – e mais: pra sentir o que não estou conseguindo dizer. Quando saímos de uma sessão dele, decidimos dançar juntos. E, meses depois, estamos fazendo isso! Até uma aulinha de tango iniciante a gente fez. Alguns amigos já me sacanearam, até eu mesmo brinco pensando como vamos reacender a paixão no nosso relacionamento quando estivermos mais velhos se já estamos fazendo dança de salão agora. Mas o fato é que dançar me faz conversar com um aspecto diferente de mim, que não sei dizer porque, tem alguma coisa de universal, de autônomo… é o “dono do corpo”, como diz aquele texto do Muniz Sodré sobre samba que eu deveria ter lido esse semestre, mas não li.

E é diferente de sentir música, de envolver-se, de emocionar-se com ela. Dançar é uma outra emoção. E me parece o tipo de experiência a se destacar enquanto uma capacidade que nos faz humanos, que pertence a todos, que todo mundo devia explorar no detalhe, que nem faz com os polegares opositores e com a imaginação. Dançar, de verdade, como se isso fosse a coisa mais fundamental, dançar em conversa com o corpo.



Wilson Moreira cantando e eu, privilegiada, sambando.

Eu sinto o dono do corpo no jogo de capoeira, que aliás é uma coisa que mexe comigo de um jeito que eu não ouso entender. Eu vi o dono do corpo enquanto esperávamos a bilheteria do Vivo Rio abrir, quando um grupo praticava Kung Fu e, não fosse o Tito me esclarecer, eu juraria que era um grupo de dança performática ou algo assim. É o dono do corpo que faz a gente no mínimo batucar e mexer os ombros pra lá e pra cá quando ouve uma melodia. Todo mundo conhece. Mas e conversar com ele, enxergar o que ele pode mostrar? Experimente. De novo e de novo.
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2 respostas em “O Dono do Corpo

  1. A dança liberta o corpo. E ao libertarmos o corpo a alma pode fluir naturalmente. Dança. A forma dionisiaca de entendermos a vibração de nosso espírito, de nossos desejos de nosso bem estar. Dançar em mania ritmica e simplesmente se deixar levar pelas vibrações musicais que libertam o corpo. Libertar o corpo ajuda a libertar os pensamentos e deixar a alma livre para o que desejamos.

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