Crítica: XXY

Como prometido, o post sobre XXY.

Um casal argentino tem um bebê que nasce com ambos os órgãos genitais femininos e masculinos e decide se mudar para uma cidade pequena no Uruguai para que a criança possa crescer livre da discriminação. A história do filme começa quando uma amiga de infância da mãe de Alex e seu marido, cirurgião plástico, vão visitar a família, com o objetivo de convencer o pai de Alex da importância de uma cirurgia de definição de sexo no momento em que sua sexualidade começava a “definir-se”.

A chegada do casal coincide com o momento em que, por decisão própria, Alex para de tomar os remédios que, até então, faziam com que o feminino predominasse na sua constituição corporal. Assim, a indefinição fica acentuada no momento em que os adultos discutem o destino d@ jovem (o pai de Alex agradeceria se ele pudesse usar @ como artigo definido) acerca da pergunta principal da película. Não, não é sobre por qual predominância escolher, feminino ou masculino. A questão é: Há necessidade de definir? Nas palavras de Alex: “E se não houver escolha a ser feita?”

O casal de amigos traz consigo seu filho, Álvaro, que se envolve sexualmente e afetivamente com Alex. Álvaro é a alegoria perfeita para a visão do expectador em relação a Alex. Ao chegar na casa, ele se depara com um ser estranho, chegando ao bizarro. Há fotos sombrias de Alex pela casa, bonecas deformadas no seu quarto e, de quebra, o primeiro diálogo que eles tem é sobre punheta. O garoto se assusta, desconversa, tenta se afastar, mas após o choque inicial, Alex vai se humanizando , se fragilizando e, principalmente, tornando-se encantadora pra ele. Assim também é pra quem assiste o filme: a empatia pela protagonista vai crescendo cada vez mais. Ela deixa de se tornar uma aberração pra se tornar uma adolescente (quase) comum: assustada, cheia de dúvidas. A descoberta da sexualidade por Alex não difere muito do processo doido pelo qual todo mundo passa, mas o nível de tensão chega aos píncaros por ela ser vista pela sociedade como um monstro, por ela sentir isso.

Achei o filme perfeito, no sentido de preciso. Espero que o que eu disse tenha sido o suficiente pra aguçar a vontade de vocês de assisti-lo, porque, além de ser o único jeito com que vocês vão conseguir me entender realmente, vale muito a pena como obra cinematográfica. O elenco é absurdo, e a interpretação da linda Inés Efron (Alex) é um show a parte. O Ricardo Darín (pai), mais famosinho do elenco, também manda muito bem.

Espanando o local.

É difícil manter um blog nos dias de hoje… porque, ao que parece, um bom blog demanda uma pessoa com algum tempo disponível e, principalmente, muita sagacidade pra pensar sempre numa coisa interessante pra escrever. Não sou uma dessas pessoas. Vai ver que é por isso que o Twitter tá fazendo sucesso. Você diz qualquer besteira quase toda hora, aparece na página inicial de todo mundo e, de um jeito ou de outro, todo mundo lê.

Essa semana eu assisti XXY, que eu já tava interessada em ver há um tempo, desde que peguei um pedacinho no Telecine Cult. Pretendo fazer um post sobre o filme, mas ainda não sei exatamente o que dizer, e nem tive tempo pra pensar muito, além do que agora estou escrevendo com mojito, frozen, nacho, quesadilhas e jalapeños nas idéias…

Então, só pra passar um espanador do blog:

– Estou participando de um concurso de blogueiras que a Lola (do Escreva, Lola, escreva) está promovendo, cujo tema é feminismo. Além do blog da Lola ser muito muito maneiro – sendo inclusive um dos que mencionei a cima, em relação a sagacidade e qualidade -, é uma boa maneira de conhecer blogs bem interessantes já tendo a seleção de alguns posts de referência. Isso não é um “blá blá blá, vote em mim”, até porque o post pelo qual eu fui indicada não é exaaaatamente sobre feminismo, então não tenho grandes aspirações competitivas. Mas se você achar interessante e puder me ajudar a não perder muito feio, agradeço! 😀

O Dono do Corpo

Minha mãe sempre fez um bom trabalho me mantendo uma criança saudável: fiz uns meses de ballet, alguns anos de capoeira, natação, vôlei de quadra, vôlei de praia… Quando a coisa começou a ficar por minha conta, comecei a parar. O tempo foi ficando escasso e o dinheiro, nem se fale. Voltei a fazer capoeira por um tempinho no último ano do colégio, mas aí mesmo é o que o tempo não dava (muito mais pelo peso na consciência do que pelo estudo efetivo pro vestibular). Com a licença da dicotomia grosseira, os primeiros anos de faculdade exercitaram bem o espírito e pareceram atrofiar e corpo. Muita conversa, leitura, pensamento e pouco movimento. Isso começou a me incomodar crescentemente. Eu via no meu próprio corpo uma possibilidade inexplorada, fora o tal de dor pra lá, dor pra cá.
Vou tentar falar aqui sobre uma coisa que não é verbal. Talvez um bom mote pra minha poesia que anda em coma. É sobre o que eu sinto com o meu corpo quando ouço um berimbau, um pandeiro, uma mixagem eletrônica, um bandoneon… O que é que dança tem? E quando eu falo em dança, falo no mover-se do corpo de uma forma bem ampla, com música ou sem. Quando a gente toma uma consciência diferente do corpo, quando parece que ele é mais do que você mesmo, mais que um aparelho que serve pra você existir. Quando se inicia uma conversa com ele, conhecendo o que ele tem pra mostrar, o que costuma ser sempre surpreendente, sempre só uma amostra das possibilidades infinitas de expressão.

Esse sábado, eu e Tito fomos tentar comprar ingressos pra assistir o Café de los Maestros no Vivo Rio. Explicando mal, isso é como uma versão argentina do Buena Vista Social Club, ou seja, um documentário sobre mestres tangueros, que se reuniram agora para sair em turnê. Acabamos dando mole e não conseguindo comprar, mas a questão é que esse filme é uma boa dica pra pensar sobre o que estou falando – e mais: pra sentir o que não estou conseguindo dizer. Quando saímos de uma sessão dele, decidimos dançar juntos. E, meses depois, estamos fazendo isso! Até uma aulinha de tango iniciante a gente fez. Alguns amigos já me sacanearam, até eu mesmo brinco pensando como vamos reacender a paixão no nosso relacionamento quando estivermos mais velhos se já estamos fazendo dança de salão agora. Mas o fato é que dançar me faz conversar com um aspecto diferente de mim, que não sei dizer porque, tem alguma coisa de universal, de autônomo… é o “dono do corpo”, como diz aquele texto do Muniz Sodré sobre samba que eu deveria ter lido esse semestre, mas não li.

E é diferente de sentir música, de envolver-se, de emocionar-se com ela. Dançar é uma outra emoção. E me parece o tipo de experiência a se destacar enquanto uma capacidade que nos faz humanos, que pertence a todos, que todo mundo devia explorar no detalhe, que nem faz com os polegares opositores e com a imaginação. Dançar, de verdade, como se isso fosse a coisa mais fundamental, dançar em conversa com o corpo.



Wilson Moreira cantando e eu, privilegiada, sambando.

Eu sinto o dono do corpo no jogo de capoeira, que aliás é uma coisa que mexe comigo de um jeito que eu não ouso entender. Eu vi o dono do corpo enquanto esperávamos a bilheteria do Vivo Rio abrir, quando um grupo praticava Kung Fu e, não fosse o Tito me esclarecer, eu juraria que era um grupo de dança performática ou algo assim. É o dono do corpo que faz a gente no mínimo batucar e mexer os ombros pra lá e pra cá quando ouve uma melodia. Todo mundo conhece. Mas e conversar com ele, enxergar o que ele pode mostrar? Experimente. De novo e de novo.

Anima Mundi: a arte de assassinar bichinhos

Hoje acabei furando o combinado de ir no Samba do Trabalhador com a rapêize da turma da Dialética da Carioquice (pasmem: uma matéria que fiz esse semestre!) pra ir ao Anima Mundi, que começou esse fim de semana no Rio e deve estar em São Paulo a partir do dia 22. Engraçado é que o Anima Mundi parece ser um evento muito maior aqui do que lá; fico me perguntando o porquê disso. Não sei exatamente como funciona a vida paulistana, mas a minha idéia genérica (e certamente envolta por um preconceitinho carioca) me faz pensar que esse tipo de evento deveria fazer muito sucesso lá. Vai saber!

Em todo o caso, assisti às sessões 1 e 2 dos Curtas competitivos e me amarrei bastante em alguns. É engraçado que eu tenho uma relação muito particular com animações: eu assisto que nem criança. E não pensem que isso significa outra coisa senão que desenho pra mim é assunto sério.

Ano passado eu levei meus primos pra assistir uma sessão infantil, que ficou contrastando muito na minha cabeça hoje, enquanto assistia os curtas censurados para maiores de 14 anos. Eu ficava pensando “ahh, talvez isso seja um troço que criança não entende”. Agrotóxicos, imigração ilegal, animaizinhos fofos assassinados a torto e a direito. Parece que nos filmes ‘pra adulto’, os autores tem mais liberdade, porque pegam as possibilidade infinitas da animação pra falar de coisas de um campo semântico que, normalmente, o desenho não dá conta. Senti uma coisa muito de arte mesmo. Uns filmes que eu nem me envolvia muito, mas respeitava pela técnica super sinistra e a temática abordada.

Mas a verdade é que, a despeito de eu ser totalmente leiga em “Animação”, tenho duas décadas de experiência em desenho animado. E é por isso que me interessa particularmente muito mais ver um filme envolvente do que um muito artístico que não me diz nada. Até porque, sendo mais acadêmica do que estou fazendo até agora, arte só é arte enquanto veículo de comunicação, enquanto significante. E assim como eu gostei muito de alguns infantis muito maneiros no ano passado, esse ano gostei de como alguns curtas usam de modo muito eficaz a elasticidade na fronteira entre o “mundo adulto” e o “mundo infantil”, usando desde de metáforas e alegorias sofisticadas até humor direto e cruel.

Um bom exemplo de todo esse meu lenga-lenga que temo que não faça sentido nenhum pra quem não viu os mesmos curtas que eu é o filme que eu sortudamente achei no youtube, Il Naturalista. Acho que, entre os meus amigos, foi o campeão do dia:

Heteronormatividade na capa da Men’s Health

Só pra registar, aos que têm me perguntado, eu fui ver Apenas o Fim afinal de contas e saí do cinema bastante satisfeita com meu post baseado só no trailer. O longa não foge muito do que eu achava; é um filme (cult-)bacaninha, que merecia estar numa mostra universitária da PUC, de repente levar alguma premiação… na verdade é interessante que uma produção mais barata assim tenha conseguido uma distribuição maneira (obrigada Marcelo Adnet?) e comovido ao som de “Pois é” dos Losermanos um número razoável de jovens que se viram no espelho da Erika e do Gregório, como não podia ter deixado de ser o meu caso e o do Erick. Erick esse que está nesse momento no Piauí, dando uma de arqueólogo! Beijo da gorda pra ele.

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As férias vão chegando homeopaticamente mas algum aprendizado ainda persiste na minha cabeça. Fiz meu trabalho final do curso de Mídia e Gênero (aparentemente a única matéria que existiu na faculdade segundo esse blog) sobre a capa da revista Men’s Health de junho, e enquanto eu escrevia o trabalho, ia pensando em postá-lo aqui. Naturalmente, postar o trabalho na íntegra aqui ficaria algo muito chato e inilível (= impossível de ler). Então vou tentar dar uma traduzida/diminuída; espero que não fique muito tosco.

(Clique pra ver os detalhes)
O ponto central basicamente é que a publicidade (e encarei a capa da revista como um veículo publicitário) funciona também como um modo de ensinar as pessoas a ser. Nesse caso específico, a ‘pedagogia’ do marketing quer nos ensinar como sermos homens ou mulheres, traçando comportamentos, interesses e sentimentos apropriados para cada perfil delimitado. Quando se tem isso em mente, a gente começa a observar claramente isso em tudo quanto é comercial o tempo inteiro. Faça o teste. Vai desde a-menina-brinca-de-casinha e o-menino-brinca-de-carrinho até as formas mais sofisticadas de indicar masculinidades e feminilidades específicas.

A Men’s Health, por sua vez, ensina uma masculinidade muito particular, voltada para homens heterossexuais de classe média – não é pra qualquer homem ser o cara musculoso da foto. Pra começar, o subtítulo da revista – “viver melhor é fácil” ecoa nas chamadas dos artigos, garantindo ao leitor que a chave para o domínio de todas as atividades necessárias para uma vida saudável está dentro da revista, onde tudo é simplificado e facilitado. São tais como: “Comida para ficar sarado: músculos em tempo recorde!”. A saúde oferecida pela revista está sempre ligada ao padrão de beleza dominante do homem “sarado” e ao sexo, revestido por uma estética da masculinidade hegemônica, na qual o ato sexual é o objetivo fundamental e todo o resto (“estresse”, “deprê”, etc.) é mero obstáculo. A revista, procurando sempre facilitar a vida saudável de seus leitores, oferece então “173 truques para ter mais sexo e menos chatice”.

Mas o que chama atenção logo de cara e já resume toda a pedagogia publicitária da Men’s Health é a foto da capa. Um homem “sarado” e muito sorridente segura uma mulher quase nua, como uma cara bem menos à vontade (se fosse America’s Next Top Model, tinha vazado), como seguraria um objeto que se orgulha de possuir, tipo um troféu ou peixão que pegou no rio. Ele cobre os seios da mulher com força, reafirmando a idéia de posse, enquanto ela voluntariamente tira a calcinha, como quem diz: “Compre a Men’s Health e vire um macho sarado que eu transo com você!”. Fica claro que esse cara da capa é o símbolo do que o leitor chegará a ser se adquirir as fórmulas práticas e eficazes da revista. A mulher, por sua vez, funciona como acessório na cena; indispensável, no entanto, para reforçar a heterossexualidade do homem/ideal da Men’s Health.

É nessa brincadeir que se vincula a “saúde do homem” – men’s health – à heterossexualidade obrigatoriamente. Isto é, o que não é heterossexual, o que não é normativo, é desvio, é doença, é problema psiquiátrico ou clínico.

Assustador, não? E esse é só o começo do susto. É só ficar na fila do mercado ou esperando o ônibus ao lado da banca que eu vou me impressionando cada vez mais. Olho vivo e faro fino pra certas coisas não é paranóia, é indignação e crítica. A gente mesmo tem que fazer.

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Tem um texto muito legal que eu usei pra fazer o trabalho em que o autor analisa a VIP. Vale a pena fazer uma leitura dinâmica quando não houver mais nada pra fazer na internet, mesmo que você pule toda a parte de teoria antropológica (como eu meio que fiz, hihi).