Já que falei de espelho: a fruta madura do corpo.

Essa coisa de blog que demanda certa constância de postagem e, consequentemente, de tempo e de assunto, é complicada… mas comprometi-me e cá estou, pra falar sobre um assunto que tem me perpassado nas últimas semanas.

Alguns acontecimentos me fizeram pensar em uma série de coisas que achei pesadas demais pra discutir aqui, mas identifiquei um pano de fundo geral interessante: o envelhecimento e a consciência do envelhecer. Pode parecer um assunto muito pretensioso pra mim, considerando que nem vinte anos eu completei ainda (e tenho poucos dias pra afirmar isso, então o faço com alegria), mas declaro desde já que falo desse lugar específico, o de pessoa de vinte anos que convive e observa sensações de pessoas de idades diversas e que, bem ou mal, experimenta o amadurecimento físico do corpo e a construção de uma memória de quase duas décadas.

A primeira coisa que vem na minha cabeça é a frase comum: “envelhecer é uma merda”. E por que envelhecer é uma merda?

Esse post não pretende ser um discurso do tipo “envelhecer é lindo, porque você fica super sábio, além do que a juventude é um estado de espírito… faça tai chi!”. O que eu quero observar aqui é esse lado orgânico que há em envelhecer, o corpo novo que amadurece e vai apodrecendo até deixar de viver, mas sem perder o caráter de matéria orgânica que carrega sempre em si uma possibilidade de vida.

Eu posso sentir isso na minha pele, a constante mudança de textura ao longo da última década. Há algo de muito fascinante em se perceber como um corpo orgânico, um organismo biológico, que funciona e se transmuta incontavelmente sem nem ligar se você está gostando ou não. Reparem no quanto a gente fica horroroso quando tem 13 anos. Todo mundo é feio quando tem 13 anos! O cabelo fica seco, a cara fica espinhenta e muito provavelmente o sorriso fica metálico.

Hoje minha avó acordou reclamando da dor de mais uma varize que estourou na perna dela. Minha mãe parece não sossegar enquanto não fizer a operação plástica para tirar as bolsas sob os olhos. Colágeno. Hidratante. Quadriderm.

Eu sempre fui perebenta. A minha pele absurdamente sensível manifesta sentimentos. Meus pais se separaram quando eu tinha 6 anos e estourou tudo quanto foi dermatite na pobre criancinha tristonha. O quão fantástico é isso? Ok, nem tanto assim, lembrando dos dias que eu correria em círculos fugindo do dermatologista no melhor estilho Tom e Jerry.

Mas voltando ao assunto, envelhecer é essencialmente estranho e desagradável, sim. Muito por conta dos padrões de beleza opressores que vigem, certamente, mas existe também o fator identitário do espelho: “essa daí não sou eu”.

O problema da auto-imagem devastador. Um dia minha mãe acordou e tinham bolsas sob os olhos dela, que não existiram durante todo o tempo anterior em que ela se olhava no espelho para se identificar. A questão é que gente se vê muito pouco (mesmo a minha mãe, que adora um espelho), tanto no espelho físico quanto no psíquico. E existe esse desejo desesperado de saber “quem eu sou”, de montar essa resposta, de reinventá-la cotidianamente. E olhar no espelho e ver que meu quem eu sou, que eu arduamente monto no salão de beleza e no perfil do orkut, e descobrir que ele tem bolsas sob os olhos é absolutamente terrível: é estranho. E como lidar com alteridade em si? É de endoidecer qualquer um. Porque a gente não tem consciência do corpo enquanto um indivíduo orgânico, comparável em processo a uma fruta. O corpo tem um significado precioso pra gente, e essa banhazinha que aquece o meu útero pode pôr abaixo tudo o que eu invento para ser e mostrar que sou.

Esse texto é mais uma descarga de impressões do que um texto que tenha início, meio e fim. O fato é que as representações do corpo amalucando tudo quanto é gente ao meu redor e fazendo com que essa gente queira que eu me amaluqueça também tem me deixado intrigada.

Isentar-se da cultura não dá, mas talvez o corpo que eu queira ter é o corpo tátil, que sente a si mesmo e ao outro corpo. Que, uma vez novo, vai tornando-se maduro, suculento, e o tempo faz apodrecer e cair na terra, morto.

A fruta morta na terra é vida. Da semente nasce a floresta. Eu sempre quis ser isso depois de morta, uma possibilidade de vida. E dispenso a vida eterna oferecida pelas grandes religiões; o corpo orgânico já é vida renovável.

E quem sabe essa história não entra na moda daqui a pouco? Com essa história eco-capitalismo aí…

Anúncios

2 respostas em “Já que falei de espelho: a fruta madura do corpo.

  1. Por não concordar com metade do que é dito nos outros textos (e concordar com a metade), acabei não comentando, mas dessa vez resolvi comentar. Por preguiça mesmo, o ato de não comentar.

    Sobre o corpo… claro que muito do que eu vou dizer é mais fácil para mim, porque eu sou homem, e não tenho algumas das pressões que as mulheres tem, mas claro que as pressões se dão em ambos os sexos, em níveis de força variados.

    De qualquer modo, de uns tempos para cá a grande questão que me atormentava, que era sobre o autoconhecimento, está diminuindo, e muito. Aceitar-se e se produzir menos é uma saída. Um milhao de maquiagens, um milhao de roupas diferentes… É claro que os símbolos importam, mas eles não podem superar a simbologia que você dá. Você dá as notas, os acessórios só te seguem. (Quando digo você, não estou me refirindo a você Bárbara, mas a você geral)

    Quando os símbolos que você carrega montam você e não o contrário, fica difícil saber o que está por trás da carapaça. Tanto para os outros quanto para você mesmo. Inclusive gestos, atitudes… Tudo isso precisa ser o que você é. E por mais clichê e óbvio que isso possa parecer, é como eu digo: o óbvio só é óbvio quando dito. Nesse caso, ouvido também, do zero, como se nunca tivesse ouvido.

    Aceitar-se enquanto ser pensante e saber e aceitar o que é também ajuda. A reconstrução faz parte do processo de autoconhecimento e vice-versa. Posso dizer que os números me assustam, mas não me assuto comigo nem minhas mudanças. Reparo que tenho dois fios de cabelo branco do lado esquerdo da cabeça, mas reparo mais num conhecimento do que numa preocupação.

    Não tenho medo da velhice, nem tenho pressa. Aprendi nos últimos tempos que não preciso de pressa, nem de calma total. Da calma eu já sabia. Da pressa, não preciso ter pressa de conhecer as coisas, de me formar, de ter um emprego (ao menos que a vida me imponha isso, mas será outro tipo de pressa, entende? Uma pressa conjuntural, e não uma pressa voluntária). Não preciso ter pressa de escrever meu livro, ele está recomeçando e eu não tenho escrito quase nada, em verdade. Não preciso ter pressa de amar mais, me basta meu amor infinito menor que o infinito que ele pode chegar.

    Tudo me basta, e o que está por vir me basta, e querer mais que o que me basta, me basta. Entende? Não há pressa. Não há o tempo da natureza, nem o dos homens: há o tempo diacrônico (aulas de geohistória pra que te quero), relacionando matéria e consciência. Temos de ter consciência de que a vida não chega, nem passou. Ela é o presente. Não tenho essa consciencia sempre, em pleno sentido, o tempo inteiro, só em alguns momentos. Quando o tenho, tenho a dimensão do absurdo de existir. Absurdo porque todos os véus se vão, e a fração de segundo basta para liquefazer-se em vida.

    Escrevi tudo meio ensaisticamente, sem nem revisar. Desculpa qualquer erro, mas acho que a ideia é essa aí. (eu gosto de conversar essas coisas é ao vivo…)

  2. Caramba, o comentário do zacca é de botar medo em qualquer um, me recuso a ler.
    O que eu queria dizer é somplesmente:
    1. lidar com a alteridade em si mesmo é de enlouquecer qualquer um!!!
    2. um corpo que sinta a si e o outro é um caminho que eu acho q tb procuro
    3. é, nós estamos ficando velhas…
    4. Vc bem podia me responder às vzs. Abriu mão de mim?
    te amo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s