Não é apenas o fim ou Erika Mader no espelho.

Na próxima sexta feira, 12 de junho, dia dos namorados e forca do feriado de Corpus Christi (alguém me explica isso?), estréia nos cinemas o filme Apenas o Fim, com aquele cara do Z.É. que não é o Adnet nem o Caruso e a sobrinha da Malu Mader. Quem me chamou atenção pra isso foi meu verde amigo Erick, que ficou muito interessado na película por ter se identificado bastante com o personagem do Gregório Duvivier.

Pois bem, lá fui eu ver o trailer. O que vem a seguir é uma opinião sobre um filme não visto, que será revisitada depois que eu o fizer, já que também fiquei curiosíssima. Gregório e Mader Jr vivem um casal universitário de classe “média” alta (uma produção PUC Rio!) que passa por uma crise no relacionamento, já que ela aparentemente está indo pra algum lugar longe dele. Até aí tudo bem, justifica-se o romance água com açúcar a estrear no Valentine’s Day brasileiro. A questão que quero centralizar aqui é a representação cômica, pra não dizer trágica, da parcelinha da população conhecida por variantes do rótulo “cult bacaninha”. A juventude alternativa burguesa se apresenta no filme em seu caráter pretensamente profundo e verdadeiramente raso. A patricinha pucquiana namora o nerd bonitinho de camisa los-hermânica e diálogos não menos los-hermânicos se passam, como:
– Falar sobre amor é muito clichê.
– Eu acho que falar que falar sobre amor é muito clichê é que é muito clichê.

Foto de álbum do amor alternativo no orkut?

As personagens do Gregório e da Érika Mader (cuja atuação já no trailer me dá arrepios) são assustadores retratos de gente que eu vejo todo dia perambulando pelos prédios do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da UFF. Esses óculos de abelha e essa produção de quem acorda três horas antes da aula só pra se arrumar não me engana um segundo: é Erika Mader quem me faz olhar pra mim mesma no espelho todo dia de manhã quando chego na faculdade e achar que tem alguma coisa errada comigo porque eu não depilo a perna todo dia e meu cabelo está todo desgrenhado. É Gregório Duvivier que toma café e filosofa com os amigos sobre astrologia e HQ’s enquanto fumam seus cigarros e exibem seu vastíssimo conhecimento. Érikas e Gregórios também são meus amigos, também me divertem e também me consolam e filosofam comigo enquanto eu tomo café. Eu também escuto Los Hermanos.

E é aí que mora o horror: será Apenas o Fim nós no espelho? Quero crer que não, pensando nas singularidades das pessoas que conheço e gosto nos meios universitários uffianos, lembrando que consigo ainda me incomodar com o fato de olhar pra tanta gente “diferente” e conseguir ver tanta repetição. Mas devo admitir que sim: há repetição, e quanta repetição. Outro dia um colega disse em alto e bom som: “somos todos burgueses!” e não conseguimos escapar da Melissinha vermelha, dos óculos de abelha, da camisa de flanela xadrez e do maldito linguajar intelectualóide. É difícil lutar contra uma seringa que te injeta desejos na veia como fossem necessidades vitais. É difícil não ser Erika e Gregório; a estética do alternativo é muito atraente e é fácil se deixar rotular por ela, porque “eu sou de humanas mesmo e me amarro num Radiohead”. Mas o buraco é bem mais embaixo. Usemos os óculos escuros que forem, a camisa xadrez que vier… o essencial é manter o profundo, o crítico, a transgressão. Eu não quero ser Erika Mader.

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10 respostas em “Não é apenas o fim ou Erika Mader no espelho.

  1. isso galera, vamo geral saindo do armário! quem é o próximo Gregório ou Érika?

  2. (aí vai um texo gigante, sory)

    Quando eu li esse texto eu estava tomando café, usando uma blusa xadrez, com um livro do Drummond do meu lado, daí eu pensei: pera aí isso é comigo?
    Porque eu vi esse trailer também, mas não achei que era comigo. Preferi me restringir a uma crítica óbvia e mais confortável: Produção da PUC, mentalidade da PUC, oras. E nem me importei em generalizar, ou em ser preconceituosa, até porque quando se trata da PUC eu sou preconceituosa mesmo (e sei que corro uns riscos com isso). Pelo trailer, só consegui concluir que o filme deve ser uma merdinha, mais uma produção que deprecia os jovens, que nos reduz a estereótipos bestas.

    E de fato o filme (aparentemente) faz isso. Mas…pois é, até que ponto nós mesmos não nos rendemos (e apreciamos) o estereótipo? E até que ponto nossos ideais não se limitam apenas ao mundo das idéias nunca de fato se concretizando nas escolhas?
    Eu tenho muito medo dessas perguntas. E tenho mais medo de não ter as respostas.

    Eu também não quero ser Erika Mader, e você sabe que tenho um histórico que pode me puxar muito a isso (o sotaque de patricinha e as condições que me levaram ao mesmo não negam). Eu não quero ver meus ideais se esvaecendo em atos incoerentes, não quero ser hipócrita.
    E acho que somos hipócritas constantemente nesse meio em que interagimos. Porque é um meio muito propício a isso, o ambiente cult-bacaninha-universitário nos envolve de tal maneira que em um descuido nos esquecemos que há todo um mundo que não funciona assim, com todos essa (suposta) liberdade, cultura e transgressão. Mas acho que caímos na hipocrisia, muito mais por uma ingenuidade, por uma carência de auto-crítica para com nós mesmos, do que por uma vontade superficial de caber em um estereótipo. Seja como for, isso não nos priva da culpa.

    Mas são textos assim que revigoram essa capacidade de nos analisar e corrigir alguns erros. Gostei do novo blog! E quero tatuar essa última frase: “… o essencial é manter o profundo, o crítico, a transgressão. Eu não quero ser Erika Mader.” :B

    PS: Ta ligada que a Erika Mader faz história na PUC, né?

  3. Que tapa na cara, hein minha amiga?

    Até que ponto nos afetamos com isso tudo? Sinto em dizer, mas somos sim um estereótipo. Sabemos que somos diferentes, mas nossos deleites clássicos e prosaicos fazem parte sim de um ideal muitas vezes burguês e meramente estético. E a culpa é nossa?

    Eu não sei, Como disse antes no meu blog eu me identifiquei logo de cara com o rapaz do filme. Primeiro, obviamente, por ter acabado de terminar um relacionamento e em segundo pelo estereótipo criado em cima do rapaz. Sinto em dizer, mas quatro dos diálogos presentes no trailer foram quase idênticos a momentos já vividos em relacionamentos anteriores meus.

    No entanto, além disso, a pulga atrás da orelha fica no ideal burguês e “cult-bacaninha” que está estampado em nosso cotidiano no ICHF e que por preconceito teimamos em não ver. Acho que por medo do espelho social. Meus pais, ao contrário, adorariam constatar isso.

    Por outra lado, eu não sou fake. Tento ser o mais original possível em minhas idéias e a minha vida toda nadei contra amare. Mas será que nadei mesmo? Será que não sou mais entre tantos por ai que vivem com suas roupas xadrez, bebem café de madrugada para ler e conversam em francês consigo mesmo no espelho de manhã?

    Sim e não. Somos diferentes, mas não escapamos do gosto de classe. Estamos inseridos em uma classe e mesmo que tenhamos consciência de uma classe diferente, o gosto de classe é variável como diria o Bourdieu.

    E o que seremos de nós? Estereótipos? Acredito que não. Nosso gosto pode ser sugestionado, mas nosso consumo é diferente. Basta olharmos para o espelho de vez em quando e fazermos uma autocrítica.

    Próximas considerações só depois que assistirmos o filme.

    ….é. Tenso.

  4. gregório duvivier me irrita. o personagem do gregório duvivier me irrita. erika mader me irrita. a personage da erika mader me irrita. los hermanos me irrita (nada pessoal).

    nossa, hoje eu acordei com ódio no coração…

  5. eu admito, eu quero ser a erika mader.

    sei lá, todo estereótipo parte das semelhanças de um determinado grupo de pessoas, o negócio pega nas diferenças.
    mesmo o patinho que viu diálogos identicos aos que ele já teve no filme, provavelmente vai torcer o nariz pra alguma coisa que o tal gregório fizer/gostar/falar no filme.
    um estereótipo só serve pra definir alguns gostos e opniões, mas podem existir disparates tão grandes quanto o de vc e da erika mader.

    mas a verdade é que o cult bacaninha já é passado, o negócio agora é cult escrotinho.

  6. Eu uso minha melissinha vermelha com muito espírito crítico.
    Acho q vc achou o seu tom na escrita, afinal. Adorei esse lugar. Tenho que admitir o quanto isso aqui é bem mais pertinente que as nossas poesias sofredoras, quer dizer as minhas sofredoras, pq as suas são felizes.
    volta pra mim?
    saudade

  7. (Achei o blog pelo Ablogogia, perdão pela intrusão)

    O texto me lembrou um pensamento meio terrível que me acometeu ao observar uma vez algumas meninas bem pequenas, que então interpretavam os seus gestos, posturas, experimentavam os seus corpos de uma maneira que me foi assustadoramente familiar. Não apenas elas todas se assemelhavam tanto entre si, mas elas me pareciam quase idênticas às mulheres da minha própria idade, e talvez das mulheres que serão talvez daqui a quinze anos. E com certeza elas me pareceram encenar a mesma coreografia de feminilidade que eu já havia visto nas meninas que eu conheci quinze anos atrás. Pensei algo terrível comigo mesmo, pensei que o mundo inteiro era somente uma galeria modesta de uns dez tipos diferentes, sempre se repetindo. Um deles pode ser a Erika Mader, ou outra qualquer. Mas, ao mesmo tempo, como não saber quanta coisa se passa aos pés dos tipos se movendo? Coisas novas, talvez aquilo justamente que faça alguns tipos serem menos insuportáveis a nós. Com certeza não é simples saber o que em nós, em nossos amigos, é mesmo diferente, não é velho sob o sol. E provavelmente é inútil saber. Talvez a única medida que precisemos pra ganhar mais vida seja nos tornarmos mais intolerantes com aquilo que , típico ou não, em nossa vida não nos faz querer com urgência uma mais vida.

  8. O problema não tá na melissinha vermelha e muito menos no livro do Drummond na mesa da colega aí de cima.
    Acho que o exercício ético é exatamente esse que vc fez, o de analisarmos nossas práticas. Reduzir o que pensamos e fazemos ao jeito que nos vestimos, ao que ouvimos e/ou lemos e etc afins é um erro GIGANTESCO.
    Tá na hora da gente analisar mais como a gt se posiciona nesse mundo e principalmente perante o outro.

    abraço!

  9. Ahhh, na bora vocês são tudo um bando de gente mimada e frustrada. Vocês acabam sendo iguais a todos que querem ser diferentes, é só não deixar certas coisas cobrirem o que são realmente e deixar rolar pô, se nãoquer ser igual a fulana ótimo, não tem como você ser ela porque você é você e se nãoquer mesmo então supera e para de sofrer. Vocês sofrem demais tentando lutar contra vocês mesmos. Ela e ele são estilos, pontos de referencia por tanto segue quem quer, quem se adapta.
    E só pra citar… Los Hermanos é musica de qualidade, escute com a mente aberta e entenda, vai haver pelo menos uma musica deles que vai te descrever. Se não sentir nada.. ah, desculpe mas então a incapacidade de entender musica boa é que nem braço, tem gente que não tem!

  10. hahahahaha legal que a Talita aqui também não te entendeu e tentou falar de entender. Ninguém quer ou precisa seguir ninguém. Por mais que você queira se identificar, seguir e viver artificialmente em uma letra de música ou em uma personagem…você não é isso. Segue o gsoto de classe, sim e parar para pensar sobre até que ponto somos diferentes do que vendem ser nosso gosto de classe é crítico e saudável. Não se conformar faz parte. Agora não se conformar pelo que não se é pode ser definidio como complicado…ou querer ser customizado em um mundo de marcas.

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