“Aquilo ali é homem ou mulher?”

Hoje, depois de duas faltas consecutivas (por bons motivos), fui ao curso de Mídia e Gêneros Sexuais que estou fazendo no IACS, coisa que me dá uma imensa preguiça só pelo deslocamento do Gragoatá. Felizmente, minha movimentação foi bastante recompensadora, a tal ponto que não sei se esse texto vai fazer muito sentido, já que as idéias ainda estão dançando na minha cabeça e a formulação de qualquer coisa concreta só vai se dar enquanto digito. Vamos lá.

Discutimos em sala um texto de uma colunista da Época, Eliane Brum, e voltei caminhando do IACS satisfeita com a convicção de que eu não precisava ser heterossexual. PÃ PÃÃÃÃÃ!!! Não, não estou declarando publicamente uma novíssima orientação sexual, para espanto dos meus amigos, meus leitores desconhecidos e meu maravilhoso namorado. A questão é justamente essa: pra que essa necessidade tão forte de classificar e rotular?

A colunista adota uma perspectiva bem relativizante em relação a isso, bem como o fazem Carla e Michele… pelo menos à primeira vista. O casal nega o rótulo de “homossexual” por acreditar numa realidade muito mais complexta em termos de sexualidade humana, onde não existem apenas homens que gostam de mulheres e vice-versa, homens que gostam de homens e mulheres que gostam de mulheres. Diz Carla: “existem mil e um ordenadores e arranjos possíveis no campo da sexualidade e, principalmente, uma infinidade de arranjos possíveis para um casal”. Eliane Brum, por sua vez, finaliza o texto de forma muito interessante, depondo que “cheguei a conclusão de que essa definição diz muito pouco sobre a complexidade do que somos. Está na hora de criar nomes mais fluidos, acho eu. Se alguém me perguntar se sou homo ou hetero, vou dizer: ‘Sou uma mulher às vezes masculina, às vezes feminina, que gosta de homens às vezes femininos, às vezes masculinos’ “.

Pois muito bem, tudo muito bacana e progressista. Tenho certeza que só até aí já teve um monte de gente fazendo careta e reafirmando para si mesmo uma série de posicionamentos sobre o assunto. Acontece que, pra mim, as pequenas caretinhas que fiz enquanto lia o texto foram provocadas pelo fato de que, o tempo todo, são utilizadas as categorias “homem” e “mulher”, “masculino” e “feminino”. O próprio casal afirma: “Somos mulheres e entendemos que, na vida, se é homem ou mulher. Para depois, a partir das determinações discursivas da época em que se vive, assim como a partir das marcas infantis, e assim como dos ‘bons encontros’ na vida, cada um vai se referenciando a partir do masculino ou do feminino enquanto posição psíquica”. Está delimitado: na relação, Carla é a ‘mulherzinha’, que gosta de bolsas e sapatos, é delicada e se sente atraída pelo “masculino”. Já Michele ocupa a posição de homem na relação, ou, como define ela mesma, a de “mulher masculina”. Eliane Brum deixa claro: “entendendo tanto o feminino quanto o masculino nas definições tradicionais inscritas na cultura”.

É aí que mora o perigo: relativiza-se o rótulo de “homossexual” e “heterossexual” por não darem conta da realidade. Mas a realidade fica coberta facilmente com os rótulos propostos de “homem masculino”, “homem feminino”, “mulher masculina” e “mulher feminina”? Quanto mais a sigla do movimento gay – atualmente LGBTTTS – vai ter que aumentar para que se consiga entender que não cabe rotular a sexualidade humana? A necessidade de enquadramento do desejo e do comportamento é extremamente opressora. É necessário responder à pergunta, e a resposta tem duas grandes possibilidades semânticas: Homem ou Mulher. O máximo do máximo do progresso que temos aqui é algum entrecruzamento nesses dois campos, mas o número de possibilidades é limitado e preciso. A resposta ainda é necessária. Para os outros, e, por isso, para si mesmo. Se chega um homem de cabelo comprido e gestos leves, o ambiente se perturba, as pessoas ficam inquietas. Se surge uma menina de roupas largas e de cabelo bagunçado, ninguém sossega enquanto não ficar declarado em que bloco classificativo colocar… “aquilo”. Isso só no nível da aparência, do comportamento mais superficial. Imagina rotular desejos? Vou me alongar ainda mais se me aprofundar aqui.

Mais tarde, nesse mesmo dia, assisti à uma aula de Psicologia da Educação. Mesmo sendo incoerente e não tendo lido o texto, não pude deixar de associar todo esse bololô de questões ao modelo de aprendizagem do Piaget, às fórmulas de auto-regulação do indivíduo. O que é necessário aqui é a passagem da heteronomia à autonomia: o sujeito precisa parar de se submeter às ordens dos outros – nesse caso à demanda opressora por uma classificação sexual – para a autonomia, à liberdade de transitar pelas possibilidades que de seu interesse forem, com formulações éticas próprias do que cabe ou não cabe a ele mesmo.

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13 respostas em ““Aquilo ali é homem ou mulher?”

  1. Queria te dizer não, mas você virou pós-moderna.

    Ou seria pós-moderninha do IACS?

    =)

  2. Acho que consigo até fazer uma música estilo Seu Jorge: "moderninha, moderninha, moderninha, moderninhaaaaaaaaa…" * balança a a cabeça*

    … Nem quero saber o que a galera lá pensa dos pansexuais.

  3. lembrou-me muito falcão,que é muito útil para pensar a questão levantada e um certo fenômeno presente no iacs (acho que vou passar as próximas duas horas no youtube vendo coisas dele):

    O homem nasce sem maldade em parte nenhuma do corpo
    O homem é lobo do homem
    Isso explica a viadagem congênita e a baitolagem adquirida!!!

    Sendo assim quem nunca queimou o anel quando menino,
    queimalo-a quando crescido!!
    e isso explica novamente a história da viadagem adquirida!!!

    refrão
    porque homem é homem,
    menino é menino,
    macaco é macaco e
    viado é viado
    homem é homem,
    menino é menino,
    politico é politico
    e baitola é baitola

    O individuio nasce, cresce
    e adentra ao mundo social e politico,
    filosófico e artístico
    Fica danado, letrado, inteligente e sabido

    conhece tudo, explica tudo
    e discute com bastante elegância
    os rumos da catilogência
    fica suave, delicado e aberto
    a novas experiências

    refrão

    nada de novo no front desse globalizado leso
    a saída é a retaguarda
    e isso explica a evolução da perobagem adquirida

    fica dificil um estudo,
    uma tese, uma análise
    dadores da ciência
    o homem inteligente dá ou dá pq é inteligente

    Falando sério, bem maneiro o texto. Espero que você continue com gás para escrever. Geralmente se desiste fácil dessas empreitadas.

    Abraços

  4. esse eu entendi!! e engraçado viu, porque eu sou uma das meninas que não são assim muuuito femininas.. e que na 5. série tinha cabelo curto e queria jogar bola.
    bom, mas o que mais me impressiona é que realmente é preciso que alguém seja estudioso e escreva trabalhos e artigos pra que se comece a ver as coisas desse jeito. você já pensava assim antes de ler os textos, mas muita gente só lendo ou nem assim pra começar a ver tudo de forma diferente. se aprende, não é uma coisa natural! estranho, né?

  5. Bárbara, fiquei feliz que a nossa aula rendeu esse texto tão bacana. Acredito que as nossas aflições são bem parecidas. E acho que aflige mais um monte de gente. Há quem diga que a rotulação é limitadora e opressora. Outros acreditam que é necessário nomear, sim (os militantes GLBTs, por exemplo), já que a nossa ordem de pensamento e conhecimento é baseada em significados e significantes.

    Pensando mais "progressivamente", estou totalmente de acordo com você. Mas não sei até que ponto isto é possível, no estado atual das coisas. Ao mesmo tempo que avançamos com relação às questões de sexualidade, questionamentos contrários e agressivos surgem aos montes.

    Enfim, não vou escrever um texto nos comentários do texto, hehe. Gostei muito, viu? Não só porque você escreve muito bem, mas como também articula as ideias de uma maneira invejável. Parabéns.

  6. ah, consegui comentar!
    yes mam, somos todos seres sexuais, acima de tudo, agree?

  7. Enfim acesso o blog de casa e posso comentar.

    Mas tá tarde e fiquei com preguiça.

    Gosto desse texto e acho que vc deveria ter começado a prosear mais tempo!

  8. assino embaixo.
    Gostaria de ler esse texto. Não querendo ser pós-moderna, mas já sendo, acho que a questão é romper com essas dicotomias que nos amarram. Lugar-comum, né? Mas tão difícil.
    Somos seres sexuais, apenas. É a conclusão a que cheguei após um trabalho sobre o comportamento sexual dos estudantes do ifcs q fiz ano passado.
    Homem e mulher tb são categorias temporais que adotamos como verdade intrínseca, não são. Não creio que exista comportamento masculino ou feminino, há comportamento. Adjetivos são sempre perigosos e essa questão é muito profunda. E para mim, muito cara.

  9. Interessante como essas mulheres – o casal – parecem tão 'esclarecidas' com relação a usar ou não termos potencialmente limitadores como homoafetivos ou heterossexuais.
    …mas, por outro lado, elas parecem usar e abusar de termos realmente Opressores como 'masculino' e 'feminino', não é…?
    E aí, me cabe perguntar: a aversão a usar o termo 'homoafetivo' foi fruto mesmo de uma consciência que rechaça os conceitos opressores? Ou será que há um pouco de 'homofobia' nisso tudo…? De se descobrir mesmo homoafetiva mas não querer ser vista desta forma…?

  10. Ainda penso que o a grande deficiência humana é não ter atingido um estágio onde "aquilo que se é" possa ser exercido com leveza e despreocupações. O ser humano em geral tem dificuldade em se assumir naturalmente. Se isto fosse natural não sofreria qualquer opressão e nem tampouco criaria "siglas" para se identificar perante o contexto geral.

  11. oi. rótulos a sociedade dá.. sapatão, viado, traveca…
    a gente se distingue dos demais.
    então usamos rótulos pra poder classificar tudo que sofremos pela separação..
    e separação existe, né?
    ou é tudo igual pra quem é ht e pra quem é homo?
    num é não..
    infelizmente

  12. Pingback: Transgeneration e transgêneros no Brasil: ninguém sabe, ninguém viu? « …ou barbárie.

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