A ideia de Revolução em Jogos Vorazes: tem, mas acabou

CONTÉM SPOILERS, claro.

the-hunger-games-catching-fireResolvi ler os livros da série Jogos Vorazes por conta da surpresa provocada pelo segundo filme, Catching Fire (Jogos Vorazes – Em Chamas). Assisti o primeiro muito despretensiosamente e curti, mas terminei o segundo de queixo caído, por causa da sequência final que revela que uma revolução contra o sistema instituído estava em curso. Aí eu falei: “PÉRA, esse filme que a juventude tá toda curtindo e lendo os livros fala sobre revolução? A revolução tá mainstream em Hollywood?? MAS GENT” e fui ler a saga, curiosa.

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Por que mulheres negras não vencem o The Voice US?

Ellen Oléria.

Ellen Oléria.

Eu me amarro em reality shows, mas os realities de música são, de longe, meus favoritos. Acompanhei avidamente todas as temporadas de Fama e as primeiras de American Idol, entre outros. Mas foi The Voice que realmente me fisgou. Entre outros motivos, porque o formato era muito mais respeitoso com os/as artistas participantes, sem aquelas edições com o propósito de tirar um sarro da cara de pessoas que tivessem um desempenho ruim ou que fossem consideradas “estranhas”, como era muito comum no American Idol, por exemplo.

[O The Voice Brasil, que nunca posso renegar por ter me apresentado a DIVA MÁXIMA Ellen Oléria, não acompanho por motivos de: Carlinhos Brown. Why so insuportável?]

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Um armário pra chamar de meu.

Eu nunca imaginei que escreveria esse texto. Nem nunca imaginei que sairia de um armário. Sequer suspeitei que existia um armário do qual eu pudesse sair. Hoje eu finalmente enxerguei o armário. Mais que isso: eu passei a enxergar qual era a coisa que me impedia de reconhecer a existência do armário, compreendi o que vendava meus olhos: bifobia. Era isso, a bifobia me escondeu meu próprio armário.

Dia 23 de setembro foi dia da visibilidade bissexual e eu li alguns textos de ativistas esclarecendo que bissexuais não são pessoas indecisas ou confusas, como muita gente julga. Pois eu estou – tenho estado há vários anos – muito confusa. Mas hoje eu entendi que não é a bissexualidade que confunde as pessoas bi. O que nos confunde é a bifobia. O que nos deixa perdidos é a invisibilização social dessa forma de sexualidade, que é um produto da bifobia. Continuar lendo

Uma ode ao ressentimento & a obra-prima da interseccionalidade: Mandume [Emicida e cia.]

Hoje tive a felicidade de participar de um debate sobre intolerância religiosa no colégio onde trabalho (CPII *faz coração com a mão*) e me encontrei na situação de ter que ponderar sobre uma questão um tanto quanto espinhosa. O debate foi de altíssimo nível e acabou, em determinado momento, tornando-se focado na questão racial, a partir de quando passamos a falar sobre representatividade, protagonismo, espaços exclusivos, apropriação cultural, etc. Nesse contexto, fiz uma fala tentando compreender porque há espaços de cultura e política negros onde pessoas brancas não são bem vindas, chegando eventualmente a serem expulsas com algum nível de agressividade. Além da questão do protagonismo das pessoas negras no movimento negro e da importância de se respeitar os espaços exclusivos, ponderei que, por mais que possamos nos sentir chateados e ofendidos ao sermos retirados de tais espaços, não podemos exigir amabilidade, cuidado e delicadeza dessas pessoas. A experiência do racismo e do alijamento da maioria esmagadora dos espaços é uma experiência muito dolorosa. Da mesma maneira, ver os poucos espaços sociais que são considerados como seus, quando os quais você se identifica, sendo preenchidos (e tantas vezes dominados) por pessoas que já podem transitar por todos os outros espaços sociais que a você são interditos pode ser igualmente doloroso e, em alguma medida, revoltante.

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Por que mulher é “cozinheira” e homem é “chef”?

Meu relacionamento com o mundo da cozinha é relativamente recente. Eu sempre gostei muito de comer, mas minha família nunca foi particularmente interessada em cozinhar. Essa história de “comida da vovó”, “comida da mamãe” nunca fez muito sentido pra mim, já que lá em casa fazer comida era muito mais uma questão de necessidade, de sobrevivência, do que qualquer outra coisa. Assim, a tríade carne moída, arroz e feijão reinou na minha infância e adolescência e eu basicamente não aprendi a cozinhar de verdade.

rita

Rita Lobo, diva máxima.

Enquanto eu crescia, acabei adotando uma política de sempre responder “sim” para quando alguém me perguntava “você gosta de comer x?” porque, com frequência, eu nunca tinha experimentado x. Assim acabei me tornando uma dessas pessoas conhecidas por comer de tudo.

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A memória da minha avó e os grossos lençóis da ditadura militar.

Hoje é aniversário de um golpe. Um acontecimento que freou um processo de ampliação da democracia no nosso país (a despeito do que alguns dizem). É difícil não pensar “Como seria se…?”.

Hoje tomei café da manhã com minha avó. Comentei algo sobre a exposição sobre os 50 anos do golpe que está rolando no CCBB-RJ e ela disse, como quem busca a resposta para uma pergunta, que gostaria de ir. Respondi que, pra ela, seria difícil; é muito tempo em pé (ela tem 84 anos e alguns problemas de saúde característicos da velhice que a impedem de fazer certas coisas). Ela lamentou, e se pôs a contar uma história.

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A culpa não é das mulheres. A culpa é sua.

“Eu não mereço ser estuprada”.

A frase apareceu nos últimos dias nas redes sociais, em postagens de mulheres horrorizadas com o resultado da pesquisa realizada pelo IPEA.

“Eu não mereço ser estuprada”.

Fotos com rostos sérios de mulheres; de uma seriedade doída e corajosa, condizente com o teor da frase.

Pensei se talvez eu devesse fazer o mesmo, me juntar ao protesto, fazer ecoar a resposta coletiva. Mas eu não quero só dizer “eu não mereço”.

a culpa não é das mulheres.

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