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Trans.

3 fev

Eu não sou uma grande fã de quadrinhos (essa provavelmente é uma maneira muito ruim de começar esse texto, mas vamos lá). Não sendo uma grande fã, não deveria fazer essa de comparação, já que nunca li e nem sei realmente do que se trata Watchmen, embora tenha visto o filme e tenha ouvido falar bastante bem da graphic novel.  Mas falo nela porque me veio à mente a alegoria de um super-herói invisível, uma espécie de personagem icônica que salva o dia, mas que o povo rejeita e acusa, por algum motivo.

Esse texto, com esse início desviante, pretende ser um texto sobre transgêneros e, mais particularmente, sobre uma pessoa que cruzou o meu caminho hoje. Eu tive que lidar diretamente, pela primeira vez, com o preconceito contra transgêneros, e senti isso profundamente – o nó no peito ainda está aqui. Há anos eu me apresento como feminista e militante do movimento LGBT, mas nunca tinha experimentado tão de perto a completa falta de aceitação e mesmo de entendimento das pessoas em relação a transgêneros. Homofobia e machismo é algo muito cotidiano pra mim, e mesmo sobre a questão trans eu já pensei bastante. Mas hoje eu percebi que a nossa sociedade confere aos transgêneros um poder especial: faz deles escandalosamente evidentes e, ao mesmo tempo, os invisibiliza. Ser um “homem vestido de mulher”, apresentar-se como mulher e mostrar um documento com nome masculino com a marca indelével do “sexo: M”, atrai olhares curiosos, questionadores, censores. Você passa e as pessoas riem, cochicham, apontam. As pessoas te humilham. Algumas pessoas até te assassinam. Só que, ao mesmo tempo, ninguém parece querer ver os transgêneros, encará-los de frente, reconhecer a sua existência no mundo e principalmente, a existência de seus direitos enquanto pessoas que fazem parte da sociedade.

Isso porque ser um transexual, pra maioria esmagadora das pessoas, é simplesmente anormal. E eu não tô falando só dos machistas xiitas militante, mas de gente “comum”, da moça da limpeza, do trocador de ônibus, do seu colega de trabalho. Eles simplesmente não conseguem olhar para um trans e ver uma pessoa, porque têm uma necessidade desesperada de classificá-lo sob o rótulo “homem” ou “mulher” (geralmente colocam sob “traveco” ou “viado”, que aparentemente não é nem uma coisa nem outra).

Hoje eu tive um grande problema porque uma trans se apresentou pra mim como mulher e, pra mim, isso basta. Me aconselharam a dizer que eu me enganei, que não percebi que “na verdade era homem”, que eu não vi o “sexo: M” no documento. Mas eu vi sim, e deixei que a pessoa fizesse tudo o que é permitido a uma mulher fazer. Porque pra mim, assim como pra ela, ela é, sim, mulher. Eu comprei uma briga perdida, porque não só pra aquelas pessoas “comuns”, mas também para o Sistema, o que importa no fim das contas é o “sexo: M”, a classificação biológica brutal. Recentemente a Argentina aprovou uma lei que permite a mudança da identidade de gênero nos documentos oficiais conforme a auto-identificação do indivíduo. No Brasil, ainda está em tramitação um projeto  de 2007, relativo à mudança de nome, mas não há nenhuma discussão substancial sobre identidade de gênero.

Enfim, o que parece é que ninguém tá realmente a fim de fazer uma discussão séria sobre transgêneros no Brasil, sobre possibilidades plurais de identidade de gênero, sobre nada disso. Mesmo na militância, o assunto é marginal. Na academia, o gênero tá lá confinado no seu guetinho, imagine se acrescido do prefixo trans-. Ninguém quer encarar, no sentindo de ficar cara a cara, olho no olho, com uma pessoa trans (uma pessoa, poxa, esqueçam o prefixo!). Encarar frente a frente ninguém quer, mas fazer piadas pelas costas é um prato cheio. Tô de saco cheio dessa história de medo do “diferente”, de transformar esse medo em risinhos, escárnio, humilhação. Vocês não percebem a falácia? O “diferente” é gente, é humano, o diferente é igual!

Para saber mais:

- Dia 29 de janeiro foi Dia da Visibilidade Trans. As Blogueiras Feministas organizaram uma blogagem coletiva sobre o tema, vale a conferida.

- Meu crossdresser e cartunista preferido, Laerte Coutinho (ou Sônia Cateruni), fala sobre o episódio em que foi impedido de usar o banheiro feminino num restaurante no Rio.

Consciência Negra

22 nov

O guest post sobre o dia da consciência negra aqui no Ou Barbárie sai com um pequeno atraso porque eu deixei o pedido muito pra cima da hora. Mesmo assim, meu amigo Rael Fizson conseguiu rapidamente escrever esse texto forte, emocionante e, sobretudo, importante . O Rael é professor de História do estado do Rio, mestrando em História pela UFF, flamenguista e namorado da Lalá, psicanalista e minha BFF. Vamos ao texto!

*

Ao contrário do que diz nosso senso comum, nem todos em nosso país são descendentes de africanos. Com o fim do comércio atlântico e o fim legal da escravidão, vieram medidas que proibiam a entrada de africanos (mesmo que livres!) e estimulavam a entrada de imigrantes europeus em solo brasileiro.  Durante o século XX, o desenvolvimento industrial, urbano, imigrações e migrações, tornaram o Brasil em muitíssimos aspectos completamente diferente dos séculos anteriores. Hoje encontramos muitas famílias que diferem do tipo ideal brasileiro inventado em meados do século XIX, mas consagrado por Gilberto Freire (a famosa mistura entre o negro, o índio e o europeu).

Ministro Joaquim Barbosa

Muita coisa mudou. Entretanto, uma das permanências históricas que podemos traçar com segurança é a relação entre classe social e cor de pele. Óbvio que, na prática, há sempre grupos e indivíduos que garantem a exceção. Podemos citar hoje um Pelé, um Joaquim Barbosa (ministro do STF). Lá no século, XIX, o maior comerciante luso-brasileiro de escravos era o rico e poderoso Francisco Felix de Souza, pardo e escravo até os 17 anos. Seja como for, o que interessa é que, para além das exceções que confirmam a regra, o que valia para o passado vale para os dias de hoje: a relação, o estereótipo, preto-pobre e rico-branco permanece. O “racismo científico” já não existe, mas o racismo, puro e simples, ainda está aí.

Falemos do racismo que até o início do século XX tinha o status de “científico”. Pois era a ciência que acreditava e difundia certas visões dos seres humanos divididos em raça, cada qual com suas características e devidamente hierarquizados: o branco no topo e o negro na base. Portanto, mesmo que nem todos os negros fossem escravos lá no passado (e nem todos eram) e nem todos sejam pobres nos dias de hoje, todos ficaram e ficam estigmatizados. Percebam a coloração das pessoas que trabalham num canteiro de obras qualquer e compare com a das pessoas que freqüentam um restaurante no Leblon. Logo se estabelece a tal relação entre cor e classe social. Condoleezza Rice (Secretaria de Estado americana no Governo Bush Jr., negra e conservadora, como só pode ser um alto funcionário daquele fatídico governo) teve a seguinte percepção da sociedade brasileira – um pouco esquematizada e superficial demais, eu sei, mas vale a pena:

 “Durante a visita eu me surpreendi com a divisão racial no Brasil. Os brasileiros sempre sustentaram que não têm problema racial. Pareceu-me que nos serviços braçais ficam os africanos (com a pele escura); nos serviços, os mulatos (birraciais); e os funcionários do governo têm ascendência europeia/portuguesa. O Brasil foi o país mais parecido com os Estados Unidos na sua composição étnica, mas parece ter tirado pouco proveito da revolução pelos direitos civis que mudou a face da política e da sociedade americanas.”

Consciência é “conhecimento”, é a “capacidade que o homem tem de conhecer valores e mandamentos morais e aplicá-los nas diferentes situações”. Portanto, creio que seria correto afirmar que ter “consciência negra” é ter conhecimento da história do negro no Brasil, da história das relações raciais em nosso país, das condições que essa parte da população brasileira esta submetida em nossos dias e aplicar tais conhecimentos para atingir o objetivo que qualquer pessoa com pensamento humanista tem: a libertação moral e material de homens e mulheres, a justiça social, econômica e política.

Os grandes jornais cariocas parecem ter ignorado solenemente o “Dia da Consciência Negra”. Olhando alguns sites, as referências são pouquíssimas e, de modo geral, são a festas, a shows, a “representantes da cultura negra”. Vemos na cobertura de nossa grande mídia duas tendências que representam bem certa visão difundida sobre o tema:

1) O racismo não é um problema no Brasil, politicamente não há o que se comentar. Por isso parece haver um grande silêncio sobre o “Dia da Consciência Negra” em geral e sobre a temática do negro no passado e no presente. Para que falar disso, né? Seria dividir o Brasil entre negros e brancos. Seria estimular uma divisão que não existe no Brasil, apenas nos EUA e na África do Sul, correto?

2) Falar de negro no Brasil é falar apenas de cultura (em seu sentido mais estrito, claro). Portanto, o Dia da Consciência Negra, para o status quo brasileiro, não é dia de reflexão, de conhecimento sobre o negro. Não é dia de Consciência. É dia de música e de acarajé. Isso me lembra aquela velha história: negro só pode ser artistas ou esportistas. Por que projetos sociais não buscam nas favelas engenheiros, médicos, arquitetos, historiadores, físicos? Absolutamente nada contra artistas e esportistas… mas o foco quase que absoluto nessas duas áreas expõe um pressuposto implícito de que pobre/negro só é capaz de se desenvolver se for para música ou para o esporte. Afinal, o “sangue africano” é propício ao swing, a improvisação, ao ritmo, ao gingado… não à disciplina, à racionalidade, não é mesmo?

Ter “consciência negra” é ter consciência da contribuição dos indivíduos de cor negra, na maior parte da história do Brasil sob os grilhões da escravidão, deram a este país. É ter consciência de que vivemos numa sociedade de classes e branca onde o dominado é, na maioria das vezes, pobre e preto. Onde essa dominação se dá também ao nível ideológico através de certa “ideologia do branqueamento” que ensinou ao negro, como já disse Malcolm X, a odiar seu cabelo, odiar sua pele, odiar seu nariz… a se odiar como pessoa, como negro! É ter consciência de que em nossa sociedade de classes a cor da pele exerce papel fundamental na hierarquização. A cor da pele impede ou garante a aquisição de determinado emprego, a cor da pele aumenta ou diminui as chances de ser parado numa blitz, de ser suspeito de um crime. “Só quem é cego não vê”.

Imagem de divulgação do Dia da Consciência Negra em Olinda - PE. Arte: Anizio Silva/Pref.Olinda

Aproveitemos o Dia da Consciência Negra para lembrar que o Brasil não é uma “Democracia Racial”, o racismo existe e há uma intrínseca relação entre classe social e cor de pele. Para se atingir objetivos como a distribuição de qualidade de vida e de poder é inaceitável deixarmos essa perspectiva de lado.

Vale citar duas pequenas frases/refrões que são grandes contribuições a temática, de Marcelo Yuka – músico, letrista e um dos grandes cronistas da sociedade carioca da década de 1990:

“Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” & “A carne mais barata do mercado é a carne negra“.

Dia dos professores.

15 out

Dia dos professores. Um dia para lembrarmos de todos os mestres que marcaram nossas vidas, aqueles que realmente fizeram a diferença na nossa formação. Pessoas incríveis, maravilhosas, questionadoras, pessoas que nos fazem refletir criticamente sobre coisas que jamais tínhamos pensado. Hoje é dia de agradecer, abraçar e prestar homenagens a esses professores, e também a categoria de professor, em geral. Afinal, a educação é talvez a coisa mais fundamental da nossa sociedade. É a educação que forma as gerações futuras, é através dela que se engendra a possibilidade de um futuro melhor do que esse presente que, convenhamos, não está nada bacana.

Dia do professor. Todo mundo concorda que a educação é a coisa mais importante do mundo. E o professor aparece como o grande protagonista nessa história. Você é professor? Parabéns. Parabéns pelos serviços fundamentais prestados à sociedade.

Ih… Peraí. Não entendi. Como é que pode ser consenso que a educação é a coisa mais importante, mais maravilhosa, mais fundamental dentre todas as coisas e, ao mesmo tempo, a educação ser tratada assim? Não entendi. Vai ver que o professor tem que ser um mártir. Professor tem que ser super-herói, afinal é ele que vai resgatar a nossa sociedade do caos com os super poderes da educação. E pra acrescentar ainda mais honra a essa equação, ele é um super herói marginalizado! Ele salva a vida e o mundo sem nenhum reconhecimento (além dos parabéns no dia 15 e das declarações no horário político de como educação é tudo), ganhando um salário irrisório, sem condições dignas de trabalho, sem infra-estrutura… E, é claro, sem respeito aos seus direitos políticos e – pasmem! - aos seus direitos humanos. Professor que quer condição digna de trabalho é agraciado com bomba de efeito moral. Professor que quer uma educação pública de qualidade e que, por isso, se nega a permitir a mercantilização da educação, é recompensado com perseguição política, violência psicológica e, se tiver sorte, violência física também.



Então, parabéns. Parabéns pra você que é professor e que luta. E não, professor não é pra ser mártir, não é pra ser super-herói, não é pra sacrificar sua vida em prol do Bem Maior. Professor é pra educar. E, numa sociedade em que a sua profissão representa uma ameaça direta ao sistema – e é por isso que eu a escolhi -, professor é pra lutar. Sim, porque ou você luta por mudanças, por condições dignas de trabalho e de vida, por uma educação que cumpra de fato seu papel social (e isso só é possível se ela for pública e de qualidade, na minha humilde opinião), ou você que muda de profissão. Ou ainda adota uma terceira via: se resignar, se amargurar com a sala de aula e se tornar essa sombra triste que tantos professores promissores acabaram condenados a ser.

E pra você que não é professor, fica o convite à reflexão e também – e principalmente – a ação. Professores sozinhos não fazem verão. A luta e a pressão tem que vir de toda a sociedade. Mas isso deveria ser fácil, se é consenso que a educação é a coisa mais importante do universo né? Deveria…

Pelo fim da violência contra quem não é o que você é.

21 set

Poucas coisas me emocionam tanto como casos de violência contra a mulher. Eu não sou gay, mas vejo nos olhos de meus amigos o mesmo sentimento. Compartilhamos esse horror, um medo profundo de ser violentado física ou sexualmente simplesmente pelo fato de ser. É até meio difícil falar sobre isso, mas é extremamente necessário. Vamos lá.

Na semana passada fiz uma aula de Krav Magá, um tipo de defesa pessoal associada ao treinamento do exército israelense (o que, como árdua defensora da Palestina me faz ser muito pouco simpática ao “esporte”), porque estava acompanhando uma amiga que treina já há seis anos. Estava lá eu, aprendendo a sair de um enforcamento ao mesmo tempo em que dava uma joelhada nos testículos do agressor (supondo que ele fosse ser homem), quando o professor comentou: “pra mulher é mais importante ainda saber fazer isso”. Com toda a boa intenção do mundo, o professor esclareceu um fato: você é uma vítima em potencial de agressão, muito mais do que seus colegas de treino, porque você é mulher. Pouco depois, assisti minha amiga treinando sair de uma posição em que um potencial estuprador estaria em cima dela. Agora me deparei com um artigo da revista Vírus Planetário sobre uma manifestação pelo fim da violência contra a mulher e essas imagens me vieram à cabeça. Eu não sei Krav Magá, e mesmo que soubesse, como a minha amiga mesmo diz, quero ver ter um estuprador em cima de você e conseguir ter frieza pra fazer os movimentos precisos como ela faz no treino. Eu não quero ter que ser faixa preta em Krav Magá pra poder caminhar pelas ruas e me sentir livre. Talvez seja difícil pra você, homem branco heterossexual de classe média, imaginar, mas nós andamos na rua, mesmo nos dias mais alegres e ensolarados, com uma vozinha no fundo do cérebro dizendo “Cuidado, ele pode ser um potencial agressor!”. Não é paranóia minha não, é sério. E, de quebra, se alguma coisa acontece, somos frequentemente culpabilizados. Quem mandou andar com essa saia? Quem mandou fazer esses trejeitos de bichinha? E quem diz isso não é só a turma dos homens brancos héteros não, também são mulheres, é o senso comum, é esse pensamento acrítico que não consegue ver o que está bem diante dos olhos.

Não podemos abrir mão da vontade de liberdade. Sorte de quem é faixa preta em Krav Magá, mas a questão estrutural é outra: é uma questão pedagógica. Existem agressores não simplesmente porque algumas pessoas são completamente malucas, mas porque o discurso social que culpabiliza a vítima, que subalterniza as mulheres, que odeia os gays é o discurso hegemônico. Temos que disputar essa hegemonia, temos que evitar que os pequenos de hoje se tornem os agressores de amanhã. Eu não quero abrir mão do sonho de liberdade.

Pra você que é do Rio, o Fórum Estadual de Combate à Violência Contra a Mulher convida a todas as interessadas para encontro, no próximo dia 06/10, às 18h, na CAMTRA-Casa da Mulher Trabalhadora, para organizar o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra Mulheres, a ser realizado em 25/11.

Transgeneration e transgêneros no Brasil: ninguém sabe, ninguém viu?

19 out

É difícil acreditar, mas fui supreendida, há um bom tempo atrás, pela presença de um programa interessante na tevê domingo a noite. Era o “Geração Trans” (ou Transgeneration), de 2005, que tava passando no “Pensa Nisso”, do Multishow. Esses dias, lembrei da série por motivo qualquer e descobri que os oito episódios estão no youtube (o que o Multishow comprou é o sexto) e tratei de assistir todos. E cá estou eu, recomendo enfaticamente que vocês assistam também.

A série trata de quatro jovens universitários nos Estados Unidos enfrentando seus problemas com família, academia, relacionamentos, falta de dinheiro, política… O que tem demais nisso? Tem que os quatro são transgêneros, “seja lá o que isso for”, como disse meu tio.

 

Outro filme bacana que fala de transgêneros também nos êua (esse é ficção), é o Transamérica, engraçadíssimo e super emocionante. Pena que nunca escrevi sobre ele no blog. Em compensação, tem um post sobre o maravilhoso XXY, que fala de um(?) jovem intersex (hermafrodita, pra ser terrivelmente biológico e mais entendível). Hoje tô frenética nas dicas! Voltemos ao Trasngeneration.

O fato do meu tio não ter entendido o significado de “transgênero” tem muito menos a ver com a quantidade de nomes e definições diferentes de gênero que existem, tentando dar conta de limitar uma sexualidade que pra mim é indefinível, do que com um desconhecimento e desinteresse da sociedade em geral em relação a essas pessoas. O que é transgênero, transexual, travesti? Pra maioria, é um bando de traveco que roda bolsinha nas esquinas sujas por puro desvio de caráter. É por isso que, tanto aqui no Brasil quanto nos Estados Unidos (e provavelmente no mundo todo), os transgêneros são proporcionalmente a maioria esmagadora das vítimas de violência física movida pela homofobia. Enquanto os gays, que ultrapassam 18 milhões no Brasil, representam 63% dessas vítimas,  31% são travestis, que oscilam entre 10 e 20 mil.

fonte: http://tinyurl.com/3yrzn98

fonte: http://tinyurl.com/3yrzn98

É nesse quadro opressivo que se evidencia a importância de documentários como esse. É claro que o corte de classe – todos são, bem ou mal, universitários nos Estados Unidos – deixa escapar questões importantes. Imagine você um transgênero fudido de grana. Como se a agonia extrema de ter nascido num gênero e identificar-se com o outro não fosse suficiente, os impedimentos pra ele são monstruosos. Se no Brasil os transgêneros são socialmente invisíveis (salvo na hora da agressão e do desdém), os transgêneros pobres são ainda menos que isso.

Eu tentei me informar sobre como andam as coisas politicamente pros transgêneros no país. Foi só agora, em 2008, que o processo transexualizador foi integrado aos serviços do SUS. E só amanhã (!) a Comissão de Direitos Humanos do legislativo vai votar o PL que permite a mudança de nome de transgêneros na certidão de nascimento. Bem, tá mais do que na hora, né? Essas medidas foram fruto de intensa mobilização do movimento LGBT, e por mais fundamentais que sejam, não impedem que os transgêneros sejam vistos na sociedade como uma piada de mal gosto. E é aí que entra a importância da luta pela criminalização da homofobia (apóie a aprovação do PCL 122/06 aqui).

Mas, sim: assistam o doc. Além de toda a militância e esclarecimento, ele é lindo. Tenho que fazer uma menção honrosa ao T.J. (Female to Male – Mulher para Homem), que putz!, é uma daquelas pessoas que dá vontade de conhecer e ser amigo. Mas eu não vou falar mais, que quero que vocês vejam tudo por si mesmos. E voltem aqui pra gente conversar! Tô carente de leitores nesse retorno do blog. =)

P.S.: Foi mal a rima tosca do título do post!

P.S. 2: Ah! Houve um reencontro dos quatro depois do sucesso do doc. Vejam depois de ver a série, né, pra não perder a graça.

Olhos Azuis

18 mai

Fui convidada, como alguns amigos meus, para uma pré-estréia do filme Olhos Azuis, feita especialmente para blogueiros, que aconteceu ontem no Arteplex. Adorei a idéia; além de ser uma forma bastante  barata e eficaz de divulgar o filme, reconhece a importância da blogosfera na circulação de informações (tem um post interessante sobre isso aqui).

Vocês podem estar se perguntando (como eu também o fiz) como alguém pode ter achado relevante me chamar, já que o meu blog tá paradão há um tempo e ele nem é especializado em cinema. Felizmente, eu tenho amigos queridos que gostam de mim e que tem empregos legais, como esse de chamar pessoas pra ver filmes de graça. Aí fui!

Além de uma pequena dose de coerção durkheimiana, não se cobra aos blogueiros convidados que escrevam sobre o filme, é claro. Mas achei uma oportunidade boa de tirar a poeira das engrenagens da máquina e botá-la pra trabalhar. E – não digo isso pela pipoca que me foi dada de graça – o filme vale muito a pena.

O filme se passa em momentos paralelos na vida de um mesmo personagem que se intercruzam. No último dia de trabalho de um policial da alfândega norte-americana (aquele cara que é encarregado de dizer quem pode entrar e quem não pode), ele resolve sortear alguns passaportes de latino-americanos desafortunados pra infernizar-lhes a vida. Paralelo a isso, esse mesmo policial americano está no Brasil, mais precisamente em Recife, procurando por uma menininha.

O cara que faz o policial se chama David Rasche, excelente ator americano que eu não lembro de ter visto antes, mas aparentemente ele costuma trabalhar na tevê. O outro personagem central, o brasileiro Nonato, escolhido como alvo máximo do policial escroto, é o Irhandir Santos, “o novo cara do cinema nacional”, que tá chegando nas telonas com mais dois outros filmes, Quincas Berro d’Água e Viajo.

A primeira história se passa inteiramente na sala da imigração do aeroporto JFK, em Nova Iorque. Quando eu vi a primeira imagem daquela sala, senti um arrepiozinho: já estive numa daquelas. Vou contar primeiro a minha história pra não acabar soltando algum spoiler do filme.

A primeira – e única – vez que saí do país foi em agosto de 2007, pouco depois de atingir a maioridade. Meu tio era professor de física convidado em Harvard (tem gente que é chique!) naquele ano, e eu fui de gaiata passear nos êua por conta disso. Pegar o visto no consulado americano foi muito mais fácil do que eu esperava. Fui com 350 documentos diferentes, cheirosinha, bonitinha – mas não muito, né?, sei lá. Entrei na salinha, um officer careca de mau-humor olhou um ou dois documentos e me perguntou se eu ia pra Disney. Ahm… Não, meu senhor, eu vou pra Boston. Ah tá, pode ir. E meu deu o visto.

Tanta facilidade não podia sair impune. Peguei meu avião e cheguei no aeroporto de Atlanta, na Georgia, pra passar pela alfândega e depois pegar a conexão. Me senti num Carrefour pós-moderno: eram dezenas de estações feito caixas de supermercado, uma do lado da outra, com suas filas, só que pra entrar. Chegou minha vez. Um policial negro careca (eles são todos carecas?) olhou meus documentos com calma. O que você veio fazer aqui? Vim visitar meus tios e primos. Quantos anos têm seus primos? 7 e 9. E por que você quer visitar crianças tão pequenas? Porque eu as amo, ué!

Peguei um bad cop. Ele não gostou da minha resposta. Botou meus documentos numa pasta laranja e me mandou pra immigration room. Eu, menininha bonitinha, just turned eighteen, sozinha, querendo entrar nos Estados Unidos? No mínimo ia ser stripper, prostituta, sei lá! Entrei na salinha. Tinha só eu, um homem com cara de índio e uma mulher com cara  provocantes. Ai meu deus. Vim pra sala dos suspeitos.

No fim das contas deu tudo certo. Peguei um good cop e fui liberada logo. Não sem quase morrer do coração, é claro. Porque naquela sala você é um inimigo em potencial. Os olhares são de superioridade, de desdém. Aquela sala é um território a ser pensado. E é isso que Olhos Azuis faz.

No fim da história, eu cheguei.

Em Olhos azuis, o bad cop chega ao seu extremo. Mas o retrato não é irreal, muito pelo contrário. O racismo, a xenofobia e a estupidez que o patriotismo norte-americano quer implantar nas cabeças dos ianques exala realidade. E a posição dos latinos (e nós brasileiros também somos latinos, acredite se quiser) também chega ao extremo, também de forma totalmente verossímil. A tensão entre as posições de forte e fraco,  dominante e subalterno, senhor e escravo (porque ando lendo Nietszsxsche) chega a um pico com o qual é possível se relacionar intimamente e explode, chegando mesmo à inversão de posições.

O filme é muito bom. Deviam passar na sessão da tarde dos êua. É um filme brasileiro muito diferente do que estou acostumada a ver, num bom sentido. É claro que tem uma coisa aqui outra ali que eu faria diferente, mas é essa coisa que se tem com filme brasileiro, uma proximidade com aquele fazer. De qualquer forma, a reflexão que o filme propõe é fundamental. Vale a pena assistir – e não digo isso pela pipoca e coca cola que ganhei degrátis. Juro!

Réquiem para o meu Haiti.

17 jan

No começo de 2008, quando eu estava no terceiro período da faculdade, cursei uma disciplina chamada História da América II, que cobre mais ou menos o século XIX. Apesar de não ter simpatizado nada com o professor, ele propôs uma coisa que eu sempre gostei muito de fazer: um trabalho de final de curso com tema em aberto (dentro de algumas condições, naturalmente). Não sei porque cargas d’água eu quis estudar o Haiti. Foi uma coisa quase burra, considerando que temas em aberto sempre nos puxam pra assuntos mais fáceis de se trabalhar, pra garantir aquela nota boa sem tanto esforço. Mas eu insisti em estudar o Haiti e acabei convencendo meus amigos do grupo de ficar com esse tema. Me lembro de justificar a minha escolha com um motivo bem direto: eu não sabia NADA sobre o Haiti e queria começar a saber.

Considerei mudar de tema algumas vezes quando me deparava com a dificuldade enorme de achar bibliografia. Não tinha nada. Muitas referências sobre a primeira independência da América Latina, sobre a revolução negra, essa coisa toda linda, mas nada depois disso. Eu até brincava com os meus amigos, assim era a história do Haiti: os franceses chegaram, exploraram, teve a independência e daí teve um buraco negro histórico até a chegada tropas brasileiras lá. No fim das contas, achamos uma coisa aqui outra ali e conseguimos nos virar pra apresentar o trabalho.

Sem mais delongas chatas sobre as aventuras de um trabalho universitário, chegamos no meu Haiti. Começar a conhecer o Haiti me deixou um pouco de orgulho pela vontade que veio não sei de onde, mas também um gosto amargo. Isso porque a história do Haiti é absolutamente triste. Não é uma história deprimente feito ado Brasil… é a história de uma nação que nunca chegou a ser. Eu folheava os livros e cada página era uma derrota do povo. Foram séculos de uma exploração brutal do trabalho dos negros pelos franceses. A história linda da revolução negra que culminou na independência do país, eu descobri ser só o início da formação de uma nova elite mulata que continuaria a explorar brutalmente a maioria de camponeses negros entre indas e vindas políticas. Liberdade, no Haiti, era o privilégio de trabalhar pra si mesmo, de ser seu próprio senhor. Só que a falta total de condições de plantio criou de fato uma agricultura de miséria, menos produtiva do que a de subsistência. Ocupação americana, ditadores… derrotas, derrotas, derrotas. Foi esse o Haiti que os livros mostraram pra mim. Por sorte, pro meu alívio, também conheci um pouco um Haiti fortemente religioso, fortemente cultural. Como são pobres os imbecis que culpam o Vodu pelo terremoto…

*

É mais ou menos comum assistirmos desastres naturais ou “artificiais” nos meios de comunicação de massa. Acabamos ficando anestesiados, treinados pra sentir senão nenhuma comoção, ao menos uma bem rápida que não impeça que possamos dar audiência pra novela que se segue à notícia. “Que horror…” e toma-lhe Big Brother. Só que dessa vez o encanto falhou. Toda vez que eu ouço falar sobre o que aconteceu no Haiti, o meu coração aperta muito. Isso nunca tinha acontecido antes. Nem no Tsunami, nem no Katrina, nem nunca. O aquecimento global então é uma grande piada.

O terremoto no Haiti destruiu um país em migalhas. Parece que Deus olhou pra baixou e ficou tão deprimido com a sucessão de derrotas, tristezas e desumanidades que resolveu acabar com tudo de uma vez. Da forma mais cruel possível, aparentemente. Eu penso no Haiti e me dá vontade de fechar as cortinas. Chega, acabou, já deu. As pessoas PRECISAM parar de sofrer. É muito, é muito pesado demais, é anti-humano, é absurdo.  Aquelas pessoas merecem menos do que qualquer um (sob hipótese de que alguém merecesse) ficar presas sob escombros, vivas, durante uma semana.  Elas não merecem sofrer MAIS. Não dá, cara, eu não consigo.

*

Esse é o meu Haiti. Foi o que eu li nos livros há poucos anos atrás, terminando meu trabalho com a deprimente conclusão do autor do livro sobre o Haiti da série princípios: “nem africano, nem americano, profundamente caribenho, o Haiti ainda é somente um país, não é uma nação” (M.N. Grondin, em Haiti: Cultura, poder e desenvolvimento, 1985). Eu não faço idéia de como é o Haiti de fato, o verdadeiro Haiti, o Haiti que está lá, sob destroços. Mas de alguma forma, os dois foram esmagados feito formiguinhas pelos dedos de um deus cruel.

O que será de lá agora? É impossível imaginar. Só posso pensar no Haiti, rezar pelo Haiti.

A cereja no bolo dos Unibandidos

8 nov

Petição contra o que houve na Uniban: http://www.petitiononline.com/unitalib/petition.html Assinem!

*

Nos últimos dias, o calor carioca voltou com tudo. Mais que  isso:  tem com certeza uma bela pitada de aquecimento global nisso, porque eu tô até desanimada de tão sufocante que tá a atmosfera. O vento do meu ventilador tá quente, a água da bica tá quente, minha cabeça tá quente… quente, quente, quente. Sexta feira, eu fui apresentar um trabalho num colóquio sobre Educação, Cidadania e Exclusão na UERJ (aliás, desrespeito total do evento com os trabalhos dos estudantes, colocados num lugar e horário nada a ver, já que ninguém tá nem aí pro conhecimento procalorduzido pela graduação mesmo). O semblante das pessoas que eu encontrei pelo caminho, principalmente no metrô, voltando pra casa, era deprimente. Sabe quando as pessoas tão literalmente derretendo? Aquela expressão de pré-desmaio, as milhares de  gotinhas pelo rosto, roupas abafadas, nenhuma circulação de um ventinho que fosse…  Parafraseando uma moça no metrô, se na Terra é assim, mermão, imagina no inferno!

Bom, o fato é que, depois da bizarrice ocorrida na Uniban, eu não pude deixar de notar as roupitchas que o pessoal tem usado por aí. Calor saiados infernos = roupas frescas. Muita mulher de saínha e top, muito homem sem camisa. Nada mais natural, certo? Eu, se pudesse, tinha tirado a roupa  toda e me enfiado dentro de um freezer. Aí eu andava pela rua pensando: “Imagina essas pessoas no interior de São Paulo… iam ser linchadas, uma por uma“. Eu não tenho o costume de usar roupas muito curtas, pelo motivo simples de que as acho desconfortáveis, na maior parte das vezes. Mas… oi? Calor dos infernos? Eu arregaço manga, levanto saia, o que preciso for pra não fritar. Mas agora eu faço isso e penso: “Tem gente que agrediria por isso“. Eu não sou o melhor exemplo de alguém que usa o que se poderia chamar de “roupas provocantes”. Mas eu moro no Rio, sinto calor e  tô cagando e andando pra o que as pessoas pensam sobre as dimensões da minhas roupas. Inclusive , tô  mais pro problema contrário: se uma menina usa roupa larga, deixa de depilar a perna durante uma semana, corta o cabelo de um jeito diferente… Cuidado com a lésbica! Ela pode te pegar!

Bom… tô cagando e andando pra essas coisas em termos. Porque, olharem torto pra você na rua já é suficientemente ruim. Seja por um problema na sua aparência impecável de menininha, seja um olhar pra sua bunda combinado a alguma cantada grosseira. Mas agora tem mais essa (sempre teve, pessoal, só que agora tá na mídia): é possível ser agredida, encurralada, desmoralizada e… tcharããããnz! Jubilada da universidade que você estuda! Porque a má publicidade pra fabriqueta de diplomas foi toda culpa sua, e não dos ogros malditos que deram uma de puritanos enraivecidos pra cima de você. Ah, cara, pera aí! Pára o mundo que eu quero descer!

Agora, a cereja da cereja do bolo: a nota publicitária da Uniban para esclarecer a expulsão:

uniban

É uma pérola, não é? Traduzindo a linguagem burocrática para o bom português, esse documento aí também tá gritando “Puta! Puta!” junto com o bando de ogros desgovernados. Afinal, foi a Geysi que teve desrespeito “aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”, não a turba enraivecida. E a mídia? Detonou a Uniban! Nada a ver! Tinha mais é que ter caído em cima da puta!

Nem tenho muito estômago pra falar muito mais sobre esse episódio, jogo a bola pra vocês. Porque o que ele me traz é um asco imediato, mas também mais uma coisa: me dá medo. E não é só medo do montro social em que eu me encontro inserida, mas medo físico do que diabos pode acontecer comigo um dia, com as minhas amigas, minhas pessoas queridas… Medo de gente, medo da condição feminina uniban292x280que acarreta muita coisa numa sociedade machista tão contraditória e esquizofrênica. Mas, enquanto a gente pode, a gente grita, a gente vai pra cima. Vamos tentar dar uma força pra Geyse, porque essa história não pode acabar assim. Há uma petição on-line em repúdio à atitude da Uniban: http://www.petitiononline.com/unitalib/petition.html. Às vezes redes de solidariedade podem funcionar de alguma forma, sei lá. Eu sei que estou triste. E com muito calor.

Desabafo provocado por “Terra Fria”

11 ago
Com os primeiros passos do bloguinho acabou vindo também a neura de ter que mantê-lo atualizado. Fico no dilema ente escrever qualquer coisa mais ou menos ou escrever só quando eu tenho realmente alguma coisa relevante pra dizer. O objetivo é pender pra segunda opção, mas muitas vezes eu acabo não conseguindo concatenar as idéias suficientemente bem pra escrever sobre alguma coisa que acho que deva ser dita ou então me enrolo toda nessa vida e perco o fio da meada. Mas vamos tentando que a coisa tem sido bacana até aqui.
Eu tinha jurado pra mim que não faria outro post sobre filme, mas pô… dessa vez não vai ter como. O destino acabou me fazendo assistir hoje Terra Fria, com a Charlize Theron. Minhas amigas sabem o quanto fiquei (ficamos) bolada(s), nos vários sentidos que essa estimada gíria adquiriu. Então eu preciso desesperadamente falar sobre esse filme! Mas isso nem será uma crítica. É mais um desabafo mesmo.

O filme é uma adaptação de um livro que conta a história da primeira ação coletiva por assédio sexual iniciada por uma mulher, Lois Jensen (no filme, Josey Aimes), contra uma grande impresa mineradora. Eu tô aqui lendo uma ou outra crítica sobre o filme, mas só dessa vez vou deixar um pouco de lado os dados pra falar só do que vi. Esse foi um daqueles filmes que eu me emocionei mais do que o comum, me fazendo pensar se eu não tava chorando além da conta por algum motivo externo.

Assédio sexual, cara. Estupro. Discriminação, violência simbólica, física, e tudo o mais que existe de truculento nesse mundo eu vi naquela telinha hoje. A despeito de toda a trama histórica super interessante, essa não é uma daquelas histórias que te faz pensar sobriamente no lado social das coisas. É um troço que mexe com as entranhas.

Na cena imediatamente depois que a personagem da Charlize foi sexualmente agredida, ela caminhava em direção ao agressor no meio de vários funcionários da impresa. E eu fiquei tipo criança em show de fantoche, falando pra ela o que fazer. Não pude pensar em mas nada a não ser enfiar uma lâmina ultra afiada no pescoço daquele infeliz. Naquela cena eu era ela. E não tem nada de mais amargo do que ser a mulher depois do estupro.

Voltei pra casa depois do filme caminhando, conversando com a Flora. Não sei, mas naquele momento falamos com muito certeza que a maior violência possível  contra um ser humano é o estupro. É uma violação de tudo, do seu corpo, da sua alma, sua ética… não sei, não sei. Só pensar que isso acontece com uma pessoa me dá uma multiplicidade de nós na garganta que não dá nem pra dizer. Isso acontece, cara, isso acontece. E ainda tem gente que tem o despautério de dizer que a mulher que provoca! Cara, sinceramente! No estado que eu tô agora, cai toda a argumentação e a vontade que eu tenho é de dar um socão na cara de um infeliz desse.

Aí a gente pensa que essa “gente que fala essas coisas” está do outro lado da divisória, lá, onde estão os conservadores da ultra direitona do mal. É, pessoal… acontece que o machismo inconsequente está muito mais entranhado nas pessoas do que se imagina. Ele ri entre amigos esquerdistas num corredor de faculdade pública. E como ri. Ele caminha nas cabeças pouco reflexivas nas opiniões tão carregadas de certeza de tanta mulher que passeia por essa minha cidade. “Essa mulher com essa sainha desse tamanho… depois não sabe porque as coisas acontecem!” – tá aí. Tantas vezes em vozes amigas.

E é por essas e muitas outras que não dá pra parar de ser chata não. “Feminista sem senso de humor é foda”, mas é um tanto de piada sem graça nesse mundo… pensa só. É nas coisas mais inocentes e mais naturalizadas que a gente acaba reproduzindo as besteiras. E elas tem dimensões enormes…

Ah, sei lá. Ainda estou muito bolada. Acabei de ver um filme, comi um lanche com suco de uva com a Flora e vim direto pra cá, digitar desembestadamente. O filme vale muito, muito a pena. E a história a Lois também. Depois do processo, diferentemente do final bonito do filme, ela acabou se tornando uma pessoa bastante reclusa e cheia de problemas de saúde, já que o estresse pós-traumático acabou com o sistema imonológico dela. Ela disse numa entrevista à Minnesota Women’s Press:

“Existem algumas mudanças que eu gostaria de ver. Se nós pudéssemos conseguir mudanças que protejam as mulheres no sistema jurídico, isso ajudaria a todo mundo. As proteções que surgem acabam sendo derrubadas. As mulheres simplesmente apanham por tentar fazer a coisa certa e por defenderem a si ou a outros.”

Um detalhe mórbido: tente procurar “estupro” no google. E 90% dos resultados da primeira página são do tipo “cenas de estupro aqui!!!!”, “vídeos de estupro escolar” e “conto erótico: estupro não, dei porque quis!”.

Tô sem estômago pra falar mais.

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