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Feminino x masculino na mitologia iorubana OU o dia em que Oxum ficou boladona.

18 ago

Essa semana está rolando no Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da UFRJ um mini-curso sobre mitologia iorubana, ministrado pelo professor Renato Noguera, da UFRRJ. Graças à dica da Cris no facebook eu fiquei sabendo e tô tendo a experiência super legal de participar, não só porque é um assunto de interesse pessoal e relacionado à minha pesquisa (sobre a qual já comentei rapidamente aqui), mas porque o mini-curso é ligado à área de filosofia, e é sempre bom mudar um pouquinho a perspectiva epistemológica.

Oxum.

Aprendi um milhão de histórias e nomes, mas uma em especial me chamou atenção. A aula de hoje foi dedicada aos conflitos e tensões entre as noções de masculino e feminino na mitologia iorubana (se não bastasse o tanto de legal que o curso já tava sendo, o professor Renato ainda me propõe uma discussão dessas! eeee!).  Ele contou uma história super longa e complicada que eu não vou conseguir reproduzir, especialmente sendo leiga como sou. Mesmo assim, vou tentar contar pra vocês a última parte;  me perdoem eventuais equívocos. Importante lembrar também que essas histórias são interpretações do professor de uma série de itãs (versos que compõem as narrativas orais que passam a tradição adiante) que dão margem à diferentes versões dos mitos.

Pois muito bem:  Olorum (senhor supremo do destino, o princípio criador) deu a Obatalá, seu filho, a missão de criar no Aiyê (o mundo limitado, esse em que vivemos) o culto aos orixás, para que eles fossem sempre lembrados. Obatalá deu a Oxum (deusa da fertilidade, da beleza) a tarefa de criar sacerdotes e sacerdotisas – babalorixás e ialorixás -, ensinando aos homens as histórias dos deuses e da criação do mundo. Mas Orumilá (senhor dos mistérios) era o único que tinha o poder de consultar ifá, ou seja, de comunicar-se com o mundo “espiritual” para saber como melhor proceder diante das situações. Sendo um deus masculino, Orumilá decidiu ensinar apenas aos homens o segredo de ifá, tornando-o interdito às mulheres (parece que até hoje às ialorixás não mexem com o ifá). Pelo que o professor falou, existem algumas interpretações pra essa interdição, mas em geral acredita-se que os deuses masculinos temiam que as mulheres soubessem o segredo de ifá porque assim se tornariam ainda mais poderosas do que já eram, considerando que elas tinham um poder fortíssimo que era o da fertilidade, o da gestação. Além disso ainda terem o conhecimento, aí era ameaça!

Iansã.

É claro que Oxum ficou muito danada da vida com essa história, e resolveu fazer de tudo pra conhecer o segredo de ifá e passá-lo também para as mulheres. Daí se desenrolou todo um plano comprido de Oxum que eu não vou contar aqui e ela conseguiu arrancar de Orumilá e de Exu que, sendo amigo de Orumilá e sendo homem, também sabia o segredo de ifá, algum conhecimento, mas não todo. Com a obtenção desse conhecimento por Oxum, o bagulho começou a ficar doido. Os orixás masculinos começaram a ficar muito tensos com a possibilidade das mulheres tomarem o poder no Aiyê, coisa em torno da qual elas já começavam a se articular. Oxum, Obá (deusa guerreira, andrógina, a única solteira da galera) e Iansã (deusa guerreira dos ventos e das tempestades) se uniram em uma sociedade para trocar seus poderes e saberes entre si, realmente tendo o objetivo de colocar as mulheres no poder, como os deuses temiam.

Mulheres articuladas, disputa pelo poder, revolta contra à hegemonia masculina… que beleza! Aí é que vem o caô. Vejam vocês o que Orumilá e Exu aprontaram pra acabar com a sociedade das deusas: chamaram Xangô, deus do trovão, também conhecido como o bonitão do orum (mundo ilimitado, mundo dos deuses). “Vamo lançar o gostosão no meio das mulheres e plantar a sementinha da discórdia!”, e mandaram Xangô desposar Obá, que até então era solteira e, por isso, muito perigosa. Os itãs dizem que o casamento era uma forma de dominar as mulheres, que preocupariam-se em ser belas e agradar o marido, ficando assim enfraquecidas e distantes de pretensões políticas. Obá era solteira e guerreira. Vem Xangô, “negão, ombros largos” (nas palavras do professor) e conquista Obá, que se apaixona por ele.  Próximo passo da liga dos orixás masculinos pra derrubar a mulherada: Xangô deve engravidar Iansã, que era mulher de Ogum e que não tinha ainda conseguido engravidar dele. Isso dá uma confusão danada – dizem que até hoje os filhos de Xangô e Ogum tem desavenças – mas o fato é que Iansã engravida e fica feliz da vida gestando, não querendo mais saber de guerra nenhuma, de homem nenhum.

Obá.

Por fim, Xangô desposa Oxum, também conhecida como a gatinha do orum, aquela que seduz geral. Só que aí o bicho termina de pegar: Xangô quer passar todas as noites com Oxum, enquanto Obá se sente rejeitada. E daí desenrola-se mais um longo episódio envolvendo uma armação de Oxum pra cima de Obá, que, inocente, acaba sendo expulsa de casa por Xangô. Obá é associada aos ciúmes, às loucuras de amor, à baixa auto-estima, etc.

Fiquei muito impressionada ao ouvir esse mito. Não só porque ele é ultra legal (e olha que eu pulei os babados fortes), mas porque numa tradição oral milenar, de uma matriz étnica não-ocidental como as que estamos mais familiarizados, encontramos as concepções até hoje vigentes de que:

1) A maternidade é o sonho de vida das mulheres, o seu grande objetivo e função, sem o qual elas se sentem incompletas e imperfeitas e no qual elas se sentem plenas, não precisando de mais nada.

2) Os homens superam as divergências entre si em nome da coletividade e, nesse caso, do poder político (eu não contei, mas Oxum era esposa de Orumilá, mas dormiu com Exu e depois foi desposada por Xangô, além do problema entre Ogum e Xangô que, apesar do mau estar, foi superado por Ogum tendo em vista a causa nobre em questão).

3) As mulheres não, elas são competitivas entre si, disputam a atenção e o amor dos homens, querem derrubar uma à outra em nome de seus interesses pessoais (que raramente são políticos, mas passionais, sentimentais).

Assim, Exu e Orumilá perceberam que a vaidade e o casamento eram as grandes formas de controle sobre as mulheres. A única maneira de enfraquecê-las era fazerem com que tivessem a necessidade constante de serem jovens, bonitas, de manterem-se interessantes para os seus maridos. As sem marido, coitadas, deveriam se sentir fracassadas. Lembram como Obá era perigosa antes de casar? Lembram o que aconteceu com ela depois do casamento? É por aí.

Com isso todo, estou longe de querer sugerir que a mitologia iorubana seja machista. O professor Renato foi enfático no ponto de que as tensões de poder entre feminino e masculino são constantes e não se encerram nesse episódio, o poder está sempre em jogo.

Pra mim, é muito interessante que essas noções “machistas” estejam presentes na mitologia, porque é justamente o medo histórico das mulheres – seus mistérios, suas possibilidades, sua capacidade de gestar, sua sexualidade – que fez com que tanta coisa de ruim acontecesse e aconteça com a gente ainda hoje. Acho que já comentei por aqui, mas falo de novo: a própria Ginecologia, enquanto especialidade médica, foi criada diante da necessidade dos homens de controlarem aquela criatura que eles não conseguiam decidir se era uma santa mãe ou uma puta sensual.

Como já escrevi pra caramba, deixo o resto pra vocês. Putz, como dá o que pensar! =)

Quilombo São José: Mãe Tetê já sabia.

26 out

Nossa senhora do Rosário
Oi, Saravá São Benedito
Nossa senhora do Rosário, aê!

(Jongo de Abertura)

Nos últimos três dias (de sexta a domingo),  eu fui a um lugar mágico, onde o tempo passa de um jeito diferente. Chama-se Quilombo São José da Serra, e o motivo da viagem foi um projeto do curso de História Oral que eu tô fazendo esse semestre na UFF. A UFF, aliás, tem uma relação interessante com o Quilombo; muito trabalho de pesquisa é feito lá, então eles já nos conhecem bem. O Quilombo, aliás, fica cada dia mais pop, e o número de visitantes aumenta a cada festa realizada na comunidade.

S6302972

O Quilombo São José fica no distrito de Santa Izabel, em Valença, no Rio.  Pra quem não sabe, essa região é conhecida como Vale do Paraíba, uma das principais regiões cafeeiras do Brasil escravista,  onde até hoje predominam grandes propriedades que cercam o Quilombo São José, numa história de conflito de terras bem complicada. Felizmente, a titulação da terra, garantida pela lei de 1988, que prevê isso para de comunidades remanescentes de quilombos, está aprovada e deve ser assinada pelo Governo Federal até o fim do ano.

Eu fui lá pela primeira vez, embora boa parte da turma já tivesse ido na festa do 13 de maio desse ano, data na qual eu fiquei doente e em casa, emburrada da vida por não poder ir. Mas dessa vez a situação foi muito diferente. A turma preparou um projeto de pesquisa de História Oral e a idéia era que cada um de nós entrevistasse uma pessoa, a partir dos mesmoS63029662 objetivos, para depois analisarmos conjuntamente as entrevistas e as comparássemos. Assim, fomos lá num fim de semana comum da vida da comunidade, sem festa, sem protocolo, só cotidiano. E outra: fomos lá pra mais do que “oi! entrevista! tchau!”, como parece ser o mais comum. A gente conheceu o pessoal da comunidade, dançou, fofocou, tomou cachaça, jogou bola, zoou junto. Eles mesmo sentiram essa diferença de qualidade na relação, e comentaram com a gente.

Uma das coisas que mais me preocupava nessa visita – e nessa pesquisa – era essa coisa do pessoal ser sempre “objeto de estudo”. Imagina que a sua comunidade, e mais, a sua casa, é ponto turístico pra antropólogo e historiador. E há uma certa cultura de tradição, que tem que ser  S6302970constantemente reafirmada. Imagino que nem sempre o pessoal esteja na pilha de dançar jongo, por exemplo. Será que isso não se transforma numa espécie de obrigação? Será que todo mundo ama o jongo? Essa é uma questão que vamos tentar responder a partir da análise das entrevistas.

Com isso na cabeça, eu fiquei meio sem jeito no começo, pensando toda hora se nós não estávamos invadindo um pouco a intimidade das pessoas. E como no primeiro dia tinha pouca gente no Quilombo, porque os adultos estava pra cidade trabalhando, ficou um clima meio que de corrida por um entrevistado, o que me deixou desconfortável e um pouco nervosa. Mas o engraçado foi que, a despeito de todo o meu incômodo, o pessoal do Quilombo não parecia nem um pouco incomodados, muito pelo contrário. Eles estavam tranquilos e alegres, S63029732nervosa era só eu. Fiquei pensando se isso era só porque eles já estavam acostumados com visitas. Talvez sim, mas só costume era muito pouca explicação pra tanta leveza. Afinal, eu posso estar aconstumada a encherem meu saco, mas não vou ficar sorrindo pelos cantos enquanto fazem isso.

No sábado, fizemos uma trilha até o Jequitibá, árvore que o pessoal diz ser o “pai” da comunidade, um símbolo, porque os fazendeiros já tentaram jequitibaderrubá-lo de tudo que foi jeito e ele continua lá, lindão, fortão e fazendo uma espécie de caverna com os galhos entrelaçados, o que faz dele também um lugar espiritual. No caminho pro Jequitibá, passamos na casa da Mãe Tetê, uma senhorinha que é hoje a líder espiritual da comunidade. Ela é irmã do seu Toninho Canecão, a principal liderança da comunidade e presidente da Associação dos Moradores. Aliás, ele foi o meu entrevistado, o que vai me dar um trabalho sinistro pra estudar, porque vai ter um discurso político bem articulado assim não sei onde!

Pois bem, Mãe Tetê nos levou pra conhecer o terreiro dela, que fica atrás da casa. Termino esse post com um trecho do meu caderno de campo, falando sobre essa visita, que deu resposta à minha dúvida sobre o incômodo que poderíamos estar causando.

Da casa da Mãe Tetê fomos pro terreiro. Era uma casinha de barro e pau-a-pique com um anexozinho de tijolo, que é novo. Era muito bonito por dentro. O teto estava repleto de bandeirinhas coloridas pra festa de São Cosme e São Damião. Era pequetitinho, não deve ser tanta gente por cerimônia, não dá espaço. Os banquinhos eram todos baixos, e um adeles tinha uma bengala de madeira do lado. Dona Tetê chamou atenção de que não poderíamos sentar naquele, e eu concluí que ali era o lugar do Preto Velho. Ela nos falou sobre o terreiro e outras coisas, contou que Mãe Zeferina [mãe da Dona Tetê e grande líder espiritual da comunidade] mandava recados pra ela, e que noite passada havia sonhado com um vestido de noiva que se desfazia em sangue, o que significava que alguém noivo corria perigo. Disse també que Mãe Zeferina tinha dito que éramos todos boas pessoas, que éramos de bem. Naquele momento eu acho que entendi o problema do incômodo. Não era questão de costume com pesquisadores e turistas, a questão é que ela sabia que éramos de bem e que poderia confiar em nós. Assim, não há incômodo, não há desconfiança. É religião, é verdade.

Há grandes chances dos próximos posts serem sobre a experiência em São José. Vivi muita coisa bonita, ainda há muito o que contar. E muitas fotos pra receber, já que minha máquina quebrou no início da viagem… Mas deu tempo de gravar isso:

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