Como era de se esperar, o pastor racista e homofóbico Marco Feliciano foi eleito hoje presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias numa sessão fechada, depois do adiamento frente às manifestações populares de repúdio que impediram a realização da eleição ontem.
A eleição do pastor foi resultado de uma manobra política ardilosa da bancada evangélica (encabeçada pelo PSC e com apoio dos partidos de direita PP, PMDB e PSDB, que cederam suas vagas na comissão para o PSC) para IMPLODIR a comissão e garantir a continuidade da desigualdade, da opressão e da violência contra as minorias no Brasil.
Esse episódio, que se trata de apenas mais um em um universo muito maior, é particularmente preocupante porque revela como o conservadorismo se incorporou ao Estado, tomando conta dos meios institucionais. E quando o povo se levanta contra ele e protesta, recorrendo a esse direito tão básico que deveria ser garantido pela democracia, o Estado recorre a uma manobra ditatorial: a reunião com portas fechadas, com seguranças na porta para impedir que o povo entre no espaço onde supostamente é representado.
Os deputados contrários à eleição de Marco Feliciano se retiraram da sessão em protesto e prometem recorrer às instâncias possíveis. Mas sabemos mais do que nunca o quanto o Estado é conservador. Eles não nos representam. Perdemos hoje pra covardia, pra ditadura e pro fundamentalismo religioso. Mas a luta não pode em absoluto parar. A CDHM não é espaço nosso; pelo contrário: atuará contra nós. Nosso espaço são as ruas, nosso poder é a luta popular. Não passarão!
Nota sobre a eleição de Marco Feliciano (PSC) para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara
7 mar- Comentários 7 Comentários
- Categorias Barbárie prosaica
II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas e uma revolução para dançar
4 dez“Se não posso dançar, não é minha revolução”
(Emma Goldman)
No último fim de semana rolou o II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas, dessa vez sediado em Brasília, no Balaio Café, da querida Jul Pagul. Dessa vez, infelizmente, o número de pessoas que conseguiu participar foi menor que o do ano passado, apesar do grande aumento na quantidade de participantes na lista. Mas no fim das contas, isso possibilitou que a gente conversasse bastante entre si, aprofundasse mais as relações e tivesse mais espaço pra falar e ouvir. Como quero fazer um relato meio relatoria, pra informar a galera do grupo que não pôde estar presente no Encontro de como foi, o texto vai ficar longp (mesmo assim, constarão aqui apenas algumas questões que me chamaram mais atenção e que eu anotei no caderninho, vai ficar faltando um monte de coisa). Daí vou dividi-lo em itens pra quem estiver preguiçoso de ler tudo ir logo pro ponto que o interesse mais.
Mesa 1: Mulheres Política e Ativismo
No sábado pela manhã aconteceu a primeira mesa, que teve como convidadas a Nina, do CFEMEA, e a Cecilia, das Pretas Candangas. Eu cheguei atrasada graças ao péssimo vôo da Gol (todo mundo odiando a Gol, comigo, vamolá!) e perdi a apresentação inicial da galera e a maior parte da fala da Cecilia. Já a fala da Nina deu pra ouvir inteira e, putz, foi de se apaixonar pela moça. Ela começou dizendo que as Blogueiras Feministas exercem uma militância nova, aberta e horizontal que engloba discordâncias internas, e que nós talvez não tivéssemos muita noção da ressonância que o blog está tendo no movimento feminista mais tradicional. Animador demais pra nós um depoimento como esse! Uma questão interessante (na qual eu peguei o bonde andando, mas vale comentar) foi que parece que muitas das integrantes do Blogueiras se apresentaram como não sendo “propriamente militantes”, afirmação da qual a Nina discordou e eu também discordo com veemência. No texto sobre o encontro do ano passado, eu falei da importância da nosso auto-reconhecimento enquanto coletivo e do alcance do ativismo virtual. É fundamental lembrar que ativismo virtual não é menos concreto, não existe menos, porque seu meio é a internet. Talvez uma noção fundamental seja essa de “meio”, “veículo” através do qual podemos nos organizar de forma nova, com um alcance diferente. E está muito claro que a nossa atuação não se limita a isso. Temos nos organizado através da internet e atuado muito pra além dela. Então, pelamordedeus, nunca mais repitam que vocês não são militantes. Combinado? hehe.
Outra questão que achei fundamental na mesa da manhã foi quando a Nina disse que o movimento feminista precisa “voltar a politizar o privado”. A separação entre público e privado é uma antiga questão pras feministas que, apesar de tudo que foi feito pelo feminismo de segunda onda nas décadas de 60 e 70, não está superada. Na verdade, creio que a afirmação de que o pessoal e o privado são políticos foi incorporada da maneira mais cruel pelo sistema. Como disse o tio Foucault, o capitalismo nos diz: “Fique nu… mas seja magro, bonito, bronzeado!”. As liberdades sexuais e a autonomia das mulheres (e das pessoas, em geral) sobre seus corpos foram tiradas novamente de suas mãos e travestidas pelo capitalismo como falsas liberdades que abrigam imposições e demandas das mais violentas. É nosso desafio enquanto feministas, portanto, voltar a politizar esse privado que é político, mas que agora está todo imbricado com tabus e falso liberalismo.
Foi interessante notar o quanto a questão religiosa dominou uma mesa sobre política. Não lembro quem deixou bem explícito que, se tínhamos alguma ilusão de laicismo do Estado, era melhor abandoná-la de vez e admitir que falar de política hoje no Brasil é ter que falar também de religião. Foi colocado que é preciso reconhecer o papel simbólico que as igrejas católica e evangélicas exercem na vida de seus fiéis, ao invés de simplesmente desqualificar a religião, e pensar de que modo podemos nos aproximar dessa realidade. Quando nos perguntamos se os movimentos sociais podem de algum modo substituir o sentimento de comunidade e pertencimento proporcionados pela Igreja, houve a observação de que enquanto a religião traz conforto, nós problematizamos a realidade, trazemos o desconforto. Em sua fala de encerramento, a Nina apontou pra associação das igrejas com o capitalismo, ultrapassando o simples fornecimento de um conforto simbólico, mas também insere o fiel na lógica do self made man religioso, bem naquela vibe “foi Jesus que me deu esse carro” dos adesivos que vemos estacionados por aí. Por fim, alguém lembrou que não é a Igreja o grande problema, mas a própria sociedade que ela reflete – uma sociedade capitalista e por isso necessariamente desigual (essa observação é bônus meu, hehe).
Também permeou essa mesa e o debate do dia seguinte, sobre as questões internas do grupo, a questão do racismo. Muito foi falado sobre isso, mas eu não anotei direito no meu caderninho porque estava prestando atenção, haha. Desculpa, gente.
Mesa 2: Identidades de gênero
Nessa mesa tivemos como convidadxs a genial Tatiana Lionço, da Cia. Revolucionária Triângulo Rosa, Lam Lam, do Conturno de Vênus e a Jaqueline de Jesus, da UnB, todxs da área de psicologia (confere, produção?). A fala da Tatiane merece um texto à parte (se tudo der certo ele aparecerá dia 19 desse mês no Blogueiras). Mas, por alto, ela bate de frente com as identidades de uma forma bastante intensa, defendendo a diferença radical em sua positividade. O problema do essencialismo das identidades é talvez uma das grandes questões dos movimentos ditos específicos, como o de mulheres, o LGBT e o anti-racista. A Tati também polemizou ao se posicionar contra a noção de ‘orientação sexual’, entendendo que ela é, sim, uma escolha, e ao dizer que o movimento trans não tem sido sensível ao fato de que pessoas cis também se sintam inadequadas em relação aos estereótipos de gênero.
No debate, ficou evidente o conflito entre a possibilidade de superar as identidades e a luta por políticas públicas para os grupos específicos. A Tati entende que as identidades têm como única função viabilizar o diálogo desses movimentos com o Estado, é só através delas que temos conseguido nos colocar nos espaços político-institucionais. Outro ponto importante dessa mesma foi a percepção da amplitude do feminismo, que não se trata apenas de um movimento social em defesa das mulheres, mas de questionamento mais amplo da estrutura patriarcal da sociedade e de uma lógica homogeneizante colocada pelo machismo.
Esse debate se estendeu muito e eu já tava cansadinha, por isso anotei menos e ouvi mais. Quem puder complementar, por favor o faça!
No mais:
É muito relevante nesse relato(ria) falar da festa! Mas gente, muito sucesso a feirinha, a batalha de MP3, dançar like nobody is watching e perceber o quanto além de lindas, poderosas e sensacionais, as blogueiras feministas tem um puta bom gosto musical! Pra além do aspecto lúdico, a Jeanne (vencedora da batalha da noite graças a George Michael e Cindy Lauper) fez um comentário que talvez resuma o que esse encontro representou pra mim: “Revoluções em que podemos dançar = trabalhamos”. Nosso propósito no segundo dia, onde debatemos as questões internas do coletivo, era conversar sobre problemas, conflitos e soluções pra eles, que têm rolado no grupo. E fizemos isso dedicadamente no , reforçando alguns princípios fundamentais como a autogestão, a solidariedade política, a horizontalidade das relações e a liberdade. Liberdade. Conversando com a Lia Padilha no domingo a noite, ela disse que essa é a palavra que traduz a noção de feminismo dela. E é essa a palavra que tem que ser reforçada na nossa luta, é por ela que lutamos. Não apenas contra o machismo, contra o racismo, contra qualquer tipo de opressão, mas por alguma coisa: por liberdade. Por podermos ser o que quisermos, exercer a subjetividade que nos fizer feliz. Gostaram quando eu disse, no primeiro dia, que muito mais do que uma luta em defesa das múltiplas maneiras de ser mulher, nós lutamos pela pluralidade de ser, simplesmente. De ser, de existir com liberdade. Liberdade como a que senti ao dançar “Freedom“, do George Michael, soltando todos os membros do meu corpo, com os olhos fechados. É essa a revolução que eu quero, que queremos: uma revolução livre como a dança.
Tags:Blogosfera, blogueiras feministas, dança, Feminismo, LGBT, Liberdade, Machismo, Mudança, Poder, Política, Racismo, Revolução, Sexualidade
- Comentários 8 Comentários
- Categorias Barbárie prosaica
Eleições Rio 2012: Apenas começamos.
7 outNão fomos derrotados.
É verdade que teríamos comemorado uma ida para o segundo turno como uma vitória de campeonato (quem não gosta de esportes me perdoe, mas é a única analogia que consigo fazer), e nos abraçaríamos e choraríamos gargalhando, e nos molharíamos se caísse uma chuva do céu, como no grande comício da Lapa, e bradaríamos que nada, nada é impossível de mudar.
Um parágrafo no futuro do pretérito, porque o segundo turno não aconteceu. Mas insisto: não há derrota aqui. E não quero com essa afirmação soar como aquele velho dizer que ouvimos em tantas passeatas nas nossas tantas lutas, quando nos garantem do alto dos carros de som que, “independente do resultado, esse movimento já é vitorioso”. Não, porque tivemos um resultado positivo: nós demos início à Primavera Carioca. Num município onde a desigualdade e a injustiça social gritam no ouvido dos que se querem mais surdos, nós conseguimos com a força das nossas próprias mãos construir uma esperança. Mostramos que ainda há beleza na política, que sonhos são coisas concretas, materiais, construídas no cotidiano por mãos humanas, coletivamente. Ressignificamos o político, que não deve ser sinônimo de corrupção, porque igualar essas palavras faz parte do projeto ideológico da elite.
Quase 30% dos votos contra absolutamente TODAS as circunstâncias. Contra uma poderosa máquina governamental estabelecida. Contra uma campanha milionária, corrupta, vil, escrota. Contra a mídia burguesa que tem como principal função servir aos estabelecidos e solapar qualquer tentativa de transformação social. Pouco mais de 1 minuto de TV contra quase que um episódio de seriado norte-americano (ah, se vivêssemos no Rio que o programa eleitoral do Paes apresentou!). Contra ameaça a nossas próprias vidas feitas pelas milícias armadas. E apesar de termos lutado contra tudo isso, não fizemos uma campanha reativa: construímos, propusemos, nos dispusemos a debater sempre, a dar a conhecer nossos sonhos àqueles que ainda o ignoravam (o desconhecimento do nome Freixo na primeira pesquisa eleitoral era de 50%).
Aprendemos e ensinamos que nada, absolutamente nada deve ser impossível de mudar.
Não houve segundo turno, mas quem chama isso tudo de derrota não pode ter vivido o mesmo processo histórico fantástico, emocionante e injetor de uma dose generosa de vontade e de esperança que eu vivi. O mais importante de tudo isso é, na verdade, manter em mente com firmeza que apenas começamos. A primavera carioca está viva, as sementes foram plantadas, precisamos com toda a nossa a força – toda a força que provamos ter nessa campanha eleitoral – nos dedicarmos a regá-las, a nutri-las, a vê-las crescerem.
Uma flor nasceu no asfalto. Não é o segundo turno, mas é uma flor. E, como nós sabemos de longa data, não importa o quanto eles insistam: os poderosos não conseguirão deter a primavera.
Tags:Freixo, Juventude, Liberdade, Mudança, Poder, Política, Revolução, Sonho
- Comentários 6 Comentários
- Categorias Barbárie prosaica
Encontro Nacional das Blogueiras Feministas e o otimismo na mala.
24 outMudei o layout, geeente! Brigada, Nessa Guedes, por me dar a dica simples, mas preciosa dos menus! =) Agora é vermelhou o curral, chalalalaláááá…
—–
Como eu espero que alguns de vocês saibam, nesse fim de semana aconteceu no Instituto Rosa Luxembourg, em Pinheiros, São Paulo, o I Encontro Nacional das Blogueiras Feministas. O grupo, que nasceu como uma lista de e-mails para reunir o que pareciam ser as poucas feministas presentes na blogosfera, se desenvolveu e se afirmou, no encontro, como um coletivo político suprapartidário (mas de esquerda, tá? não sou eu quem fala, é a Simone de Beauvoir quem diz!) super plural e promissor.
“Promissor” não no sentido de que é ainda uma idéia promissora, porque nesse um ano, mesmo sem muitas de nós nos conhecermos pessoalmente – o que felizmente mudou -, o Blogueiras Feministas ganhou proporções muito bacanas e atuou pra caramba na luta pela igualdade de gênero. Eu não vou conseguir lembrar de tudo (me ajude quem puder), mas as diversas blogagens coletivas, a participação nas Marchas das Vadias em todo o país, a adesão à Frente Naciona de Luta contra a Criminalização da Mulher e pela Legalização do Aborto, o diálogo com Iriny Lopes e a SPM foram algumas das ações de sucesso citadas dessa nossa caminhada bonitona. A “promessa” está no grande otimismo que todas as participantes do encontro parecem ter levado na mala (incluo aqui as que não participaram presencialmente, mas que acompanharam por streaming), que nos deu um gás incrível pra criar novas estratégias de luta e aumentar o nosso raio de ação.
Pra mim, foi uma experiência completamente nova. Nunca havia participado de uma lista de e-mails que não fosse de algum grupo já consolidado na vida real – e certamente de nenhuma lista com essa dimensão (hoje somos cerca de 420 pessoas!). Embora já fosse claro que o Blogueiras não fosse mais simplesmente uma lista há muito tempo, foi só no encontro que caiu a minha ficha de que, caramba, esse é um coletivo político de fato. Muita gente menospreza a internet como meio de articulação política, sacaneando os “revolucionários de facebook”. Mas negar a importância capital desse mundo de comunicação é querer ser cego. A praça Tahir e a ocupação de Wall Street, para que as redes sociais tiveram importância capital, tão aí pra esfregar na cara dos céticos que a virtualidade também é material, e os movimentos sociais tradicionais precisam se apropriar dela. A internet hoje, além de lugar pra paquerar e jogar fazendinha, é um campo de disputa ideológica que nós precisamos disputar. Foi inclusive uma das nossas deliberações correr atrás de promover oficinas de blogagem pra militância “dinossaura” e pra juventude.
Eu aprendi um milhão de coisas nesse encontro, conheci um monte de gente bacana e tô animadassa. Nada como um sopro revolucionário no nosso rosto pra dar aquela revigorada e fazer querer seguir em frente. Temos muito contra que lutar, é verdade, mas também tem muita gente boa nesse mundo. E tenho a impressão de que não sou só eu que estou com esse óculos revolucionário na vista, mas que as crises também estão fazendo surgir muita movimentação interessante. Vamo que vamo, meu povo! Correr atrás do que eu quero, do que as blogueiras feministas querem: igualdade.
Tags:Blogosfera, Feminismo, Liberdade, Mudança, Política, Redes sociais, Revolução, Sonho
- Comentários 7 Comentários
- Categorias Barbárie prosaica
PresidentA. Com A.
5 janEu queria começar dizendo que não sou petista. Eu juro! Hehehe.
Ainda assim, votei na Dilma no segundo turno das eleições e comemorei a vitória discretamente, da mesma forma que sorri no dia 1 de janeiro desse ano, quando lembrei que o Brasil tinha a primeira presidenta mulher.
- QUÊÊÊÊ?!?! PRESIDENTAAA! Não existe “presidenta”, sua burra!!!! Aiiiii!
Então, existe a palavra “presidenta”. Você pode não gostar dela, não usá-la,
achar que ela macula a sagrada Constituição do seu país… Mas ela existe. Pode procurar no dicionário, pode googlar…
Ontem minha avó, fiel ouvinte da Rádio Globo, veio me dizer que era um absurdo a tal da Dilma querer ser chamada de presidenta. Vale lembrar que minha vó é uma dessas pessoas que odeia a Dilma só por odiar, só porque a Rádio Globo falou. Enfim, ela me disse que ouviu alguém muito conceituado e importante dizer que a Dilma não poderia ter o título de presidenta porque esse cargo não existia na Constituição. O que tava escrito lá era “presidente”, então ela era presidente e pronto.
A essa pessoa tão distinta e culta faltou considerar que a Constituição não é um documento portador da verdade absoluta e isenta sobre a nação. Ela foi escrita por gente, ela é um produto histórico e, assim, está recheada com diversas ideologias e preconceitos vigentes na nossa sociedade. Eu digito isso e me sinto meio boba, porque parece tão óbvio, tão repetitivo, tão raso. Mas não é! PUTZ! Nego é mongol! Que inferno, mané!
Tudo bem, tudo bem… nem tão mongol assim. Gente que manda essas asneiras em geral não é nada burro. Taí o artigo do Alberto Dines pra provar (tudo bem que ele já tá meio gagá, mas vamos lá). Além de mandar esse mesmo argumento sobre a redação da Constituição, ele ainda argumenta que reivindicar a palavra “presidenta” é ir contra a luta feminista. Realmente, pra conseguir escrever um texto aparentemente coerente que defenda essa idéia, tu deve ter que ser muito inteligente! Nas ciências humanas a gente descobre que é possível “provar” qualquer merda se você tem uma redação minimamente aceitável.
Mas graças aos céus nós também não somos mongóis. Sabemos que a palavra “presidenta” não apenas é correta na língua portuguesa (e se não fosse, sinceramente, e daí?), mas está aí pra marcar o fato de que o cargo de Presidente da República é agora ocupado por uma mulher. UmA. Mulher.
A gramática da língua portuguesa é toda machista, nunca vi nenhum desses paladinos da verdade e da justiça reclamarem. Agora que só essa palavrinha foi proferida pra marcar uma conquista das mulheres nesse país, fudeu. Crime constitucional!
Eu não sou petista. E não apóio a Dilma pelo fato de ela ser uma mulher, como um amigo meu esses dias veio argumentar. Mas eu sou feminista, e não posso fechar os olhos para o fato de que o Brasil tem uma mulher na presidência. E isso incomoda muito, incomoda demais. Desde que o nome Dilma foi lançado pra concorrer ao cargo, começaram os ataques, esses sim pelo fato de ela ser uma mulher. A roupa da Dilma. O rosto da Dilma. A idade da Dilma. O divórcio da Dilma. A plástica da Dilma. O guarda-roupas da Dilma. A vice-primeira-dama da Dilma.
A presidenta Dilma. Com A.
E olha que hoje só é dia 5 de janeiro.
Tags:Gênero, Hierarquia, Machismo, Poder, Política
- Comentários 10 Comentários
- Categorias Barbárie prosaica
A culpa é de quem?
7 abrOntem o Rio de Janeiro sofreu sua pior tempestade dos últimos 44 anos. Na verdade parece ter sido pior que a de 1966, mas acho que os jornalistas não encontraram em seus arquivos milimetragens anteriores e a comparação ficou nisso mesmo. A mídia, como de costume, se banqueteou em tragédias e declarações infames de autoridades. Hoje a cidade acordou totalmente devastada, física e emocionalmente. Foram 100 mortos. Mas se há uma brecha azul no céu, não há tempo a perder: os trabalhadores já correm atrás da produtividade perdida.
O dia seguinte me assusta, talvez até mais do que a ininterrupta chuva torrencial e os ventos uivantes que mal nos deixaram dormir. O medo está calcado nas declarações de prefeitos, governador e presidente da república, que parecem aproveitar a calamidade pra pavimentar e fortalecer um grande projeto de remoções de moradores de favelas.
As remoções não são idéia nova. Falar dela lembra a muitos de décadas passadas, depoimentos de pessoas idosas, sofrimentos antigos. Acontece que a questão não é tão essa: as remoções não são coisa antiga. Elas estão mais presentes do que nunca e parecem ganhar cada dia mais força nos governos atuais.
Ontem ouviu-se repetidamente o seguinte diagnóstico: a culpa das mortes dos moradores de áreas de riscos, que foram maioria dentre os números gerais, é da insistência destes nas ocupações irregulares. Isso mesmo: a culpa dos mortos é deles mesmos. É fruto da ignorância desses pobres que não arredam o pé dos seus casebres caindo aos pedaços. Cabral só falava nisso. E jogava a responsabilidade para Paes, oferecendo toda a ajuda do governo do estado para resolver essa situação. O próprio Lula ontem comentou que já tinha tentado pessoalmente remover moradores de áreas de risco e, não adianta, eles não querem por nada sair de lá!
Não é um projeto de urbanização massivo nas favelas, não é infra-estrutura, não é planejamento urbano, não é nada disso: tem que “controlar as ocupações irregulares”, tem que “remover os moradores”. Enfim, tem mais é que acabar com as favelas. Principalmente quando elas fizerem os desfavor de se enfiarem em áreas de alta especulação imobiliária, como a Rocinha e o Santa Marta.
As autoridades estão cimentando seu discurso facista com as mortes de ontem. E esse discurso encontra cada vez mais eco na mídia e na cabeça dos eleitores. Como será o amanhã? Que recuperação da cidade será essa? O Rio de Janeiro pra Comitê Olímpico ver? Veremos o resultado após os comerciais. Plim-plim.
Tags:Catástrofe, Favela, Luto, Política
- Comentários Deixe um comentário
- Categorias Barbárie prosaica
Quem escreve:
Bárbara Araújo Machado. Faz mestrado em História na UFF e é ex-aluna do Colégio Pedro II. É professora, feminista, anticapitalista, capoeirista, flamenguista e poeta sazonal.
Andei dizendo:
Posts mais acessados:
- Texto fundamental no Capitalismo em Desencanto sobre o avanço do proto-fascismo no Brasil. Sério: não deixem de ler! capitalismoemdesencanto.wordpress.com/2013/05/16/meu… 1 week ago
- Eu quero brincar de TripAdvisor, mas não sei como faz pra rate as atrações sem ter que escrever reviews... Alguém sabe? 1 week ago
- Aí dá 19h da noite e abre um sol em Leicester. Vai entender. 1 week ago
- Meu texto sobre o 13 de maio para o @blogfeministas, como parte da blogagem coletiva promovida pelas @BlogNegras bit.ly/100pAWL 1 week ago
Outros bárbaros
- Blogueiras Feministas
- Blogueiras Negras
- Boneca sem manual
- Captain's Log
- Corra, Afásia, corra!
- Cult Bacaninha
- Cynthia Semíramis
- Deley de Acari
- Dicionário de Gestos e Anseios
- Escreva, Lola, Escreva
- Fazendo Média
- Groselha News
- Maria Frô
- O Historiador Nefelibata
- O Livro dos Girassóis
- Ocium Magnum
- Quase visão
- Rascunho Antípoda
- Revista Cordilheira
- Socorro na Cozinha
- Vírus Planetário
Arquivo
- março 2013
- janeiro 2013
- dezembro 2012
- novembro 2012
- outubro 2012
- setembro 2012
- julho 2012
- junho 2012
- abril 2012
- março 2012
- fevereiro 2012
- janeiro 2012
- dezembro 2011
- novembro 2011
- outubro 2011
- setembro 2011
- agosto 2011
- junho 2011
- maio 2011
- abril 2011
- março 2011
- janeiro 2011
- dezembro 2010
- outubro 2010
- maio 2010
- abril 2010
- março 2010
- fevereiro 2010
- janeiro 2010
- dezembro 2009
- novembro 2009
- outubro 2009
- setembro 2009
- agosto 2009
- julho 2009
- junho 2009
- maio 2009
- abril 2009
- fevereiro 2009
- janeiro 2009
- dezembro 2008
- novembro 2008
- outubro 2008
- setembro 2008
- agosto 2008
- julho 2008
- junho 2008
- maio 2008
- abril 2008
- março 2008
- fevereiro 2008
- janeiro 2008
- dezembro 2007
- setembro 2007
- agosto 2007
Contador
- 58,061 visitas









Andaram dizendo: