Eu uso muito hipérboles. “É o melhor do mundo”, “trezentos e cinquenta mil vezes”, essas coisas. E daí? Daí que acabei de assistir Beasts of the Southern Wild e existe uma suspeita fortíssima de que foi esse o melhor filme que já assisti na minha vida. Brabo falar isso, né? Soa tão definitivo. Mas ao mesmo tempo ele foi tão diferente de todas as outras coisas cinematográficas com as quais eu teria que comparar pra hierarquizar que… É, é isso. É que Beasts of the Southern Wild não parece cinema. Parece literatura. Um realismo fantástico que, se torcer o roteiro, vai pingar poesia.
As sinopses estão por aí para serem lidas, sempre reducionistas, principalmente nesse caso, então não vou desenvolver mais uma. Aliás, a tradução do título em português, que ficou “Indomável Sonhadora”, já é uma amputação. Existe muita coisa pra ser dita sobre esse filme, sua relação com o furacão Katrina, como a questão de gênero aparece na história… Mas a verdade é que estou enredada, tomada pela poesia aguda do filme. Filme nada, literatura numa tela de cinema.
Um comentário vale a tentativa de formulação, contudo. Hushpuppy (interpretada pela ainda-não-tenho-palavras Quvenzhané Wallis, mais jovem indicada pro Oscar de melhor atriz da história), seu pai e seus companheiros são humanos e são animais. E ser animal no filme aparece em dois sentidos: primeiro, no sentido de “selvagem” do evolucionismo, os grupos humanos que não chegaram ainda ao estágio da civilização, que se comportam barbaramente, animalescamente, de modo inferior e errado; segundo, no sentido que é argumento do filme, e que é talvez uma lembrança essencial pra uma sociedade que se encontra afogada em tecnologia, desenvolvimento, civilização. Ser humano é ser animal, é ser feito de carne como os javalis e os cachorros, ser igualmente feito de carne, garras e dentes. Com tanta prótese tecnológica, acabamos atrofiando muito do nosso corpo físico, humano, do nosso corpo animal. E, principalmente, atrofiamos a consciência da nossa própria biologia, nossa organicidade, nosso potencial de crueza. Uma crueza que, nos conta o filme, guarda em si brutalidade e afeto com potência igualmente forte.

“Everybody loses the thing that made them. It’s even how it’s supposed to be in nature. The brave men stay and watch it happen, they don’t run.”
Vocês precisam assistir, é urgente. Go, go, go, go!





Andaram dizendo: