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Beasts of the Southern Wild

14 jan

Eu uso muito hipérboles. “É o melhor do mundo”, “trezentos e cinquenta mil vezes”, essas coisas. E daí? Daí que acabei de assistir Beasts of the Southern Wild e existe uma suspeita fortíssima de que foi esse o melhor filme que já assisti na minha vida. Brabo falar isso, né? Soa tão definitivo. Mas ao mesmo tempo ele foi tão diferente de todas as outras coisas cinematográficas com as quais eu teria que comparar pra hierarquizar que… É, é isso. É que Beasts of the Southern Wild não parece cinema. Parece literatura. Um realismo fantástico que, se torcer o roteiro, vai pingar poesia.

As sinopses estão por aí para serem lidas, sempre reducionistas, principalmente nesse caso, então não vou desenvolver mais uma. Aliás, a tradução do título em português, que ficou “Indomável Sonhadora”, já é uma amputação. Existe muita coisa pra ser dita sobre esse filme, sua relação com o furacão Katrina, como a questão de gênero aparece na história… Mas a verdade é que estou enredada, tomada pela poesia aguda do filme. Filme nada, literatura numa tela de cinema.

"Strong animals know when your hearts are weak."

“Strong animals know when your hearts are weak.”

Um comentário vale a tentativa de formulação, contudo. Hushpuppy (interpretada pela ainda-não-tenho-palavras Quvenzhané Wallis, mais jovem indicada pro Oscar de melhor atriz da história), seu pai e seus companheiros são humanos e são animais. E ser animal no filme aparece em dois sentidos: primeiro, no sentido de “selvagem” do evolucionismo, os grupos humanos que não chegaram ainda ao estágio da civilização, que se comportam barbaramente, animalescamente, de modo inferior e errado; segundo, no sentido que é argumento do filme, e que é talvez uma lembrança essencial pra uma sociedade que se encontra afogada em tecnologia, desenvolvimento, civilização. Ser humano é ser animal, é ser feito de carne como os javalis e os cachorros, ser igualmente feito de carne, garras e dentes. Com tanta prótese tecnológica, acabamos atrofiando muito do nosso corpo físico, humano, do nosso corpo animal. E, principalmente, atrofiamos a consciência da nossa própria biologia, nossa organicidade, nosso potencial de crueza. Uma crueza que, nos conta o filme, guarda em si brutalidade e afeto com potência igualmente forte.

hushpuppy

“Everybody loses the thing that made them. It’s even how it’s supposed to be in nature. The brave men stay and watch it happen, they don’t run.”

Vocês precisam assistir, é urgente. Go, go, go, go! :)

O amor no tempo da madureza

8 jan

Ontem fui ao show do Chico Buarque aqui no Rio, um dos muitos que ele tá fazendo nessa turnê do novo álbum, “Chico”, de 2011. Durante o show, me peguei agradecendo a deus pela existência da Thais Gulin, sua nova namorada e musa inspiradora óbvia das últimas composições. Cheguei a comentar com minha mãe – chiquete apaixonada desde novinha – que esse álbum seria um dos melhores que ele já fez, do que ela discordou, lembrando de todas as coisas tão mais geniais que ele já compôs na vida. Talvez ela tenha razão, mas o fato é que esse álbum tem uma doçura que o distingue como conjunto do resto da obra do Chico. Não só porque é um disco de um homem apaixonado, mas porque é um disco de velhinho. Chico está com 67 anos, Thais tem 31. Esse texto não pretende fazer uma análise do álbum, coisa que o meu amigo Ivan Martins já fez muito bem aqui. Eu quero falar sobre outra coisa: sobre amor. E sobre velhinhos.

Hoje acordei cantando as músicas do novo álbum, claro, mas também pensando no Drummond. Drummond foi casado durante a maior parte da vida, mas paralelamente a isso manteve um namoro com Lygia Fernandes, companheira de trabalho, desde os 49 anos até sua morte. Lygia era vinte e cinco anos mais nova que Drummond, e foi ela a responsável por sua teorização poética em cima do “amor do tempo da madureza”, como ele chamou – ou, como eu chamo aqui, do amor de velhinho. É esse tipo de amor que veio surpreender o Chico: “não sei para que outra história de amor a essa hora”. É engraçado como as canções, além de falarem sobre encanto e a surpresa com o amor no tempo da madureza, enredam uma perspectiva marcadamente de velhinho em comparação com a juventude da amada. Não só em versos como “meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora”, de Essa Pequena, mas em expressões jovens como o “tipo assim”, em Tipo um baião, ou o “dar mole” em Se eu soubesse. Toda vez que eu ouço “Não dava mole à tua pessoa” me brota um sorriso incontrolável. Dar mole a tua pessoa é bem o símbolo do entrelaçamento encantador entre a coisa jovem com a coisa rebuscada e “antiga”, a coisa Chico Buarque.

O “Chico” tocando no player e eu revirando os livros do Drummond. O amor no tempo da madureza pode virar uma coisa só linda e doce nos versos dos mestres, mas na vida real e dura é alvo de um olho grande danado. Se é amor de homem por uma mulher mais nova é nojento: ele, um velho tarado, ela, uma mercenária. De amor de mulher mais velha por homem mais novo então, nem se fala. Até do amor entre os velhinhos o povo desconfia. Você não está mais na idade de sofrer por essas coisas! Drummond responde:

Há então a idade de sofrer
e a de não sofrer mais
por essas, essas coisas?

As coisas só deviam acontecer
para fazer sofrer
na idade própria de sofrer?

Ou não se devia sofrer
pelas coisas que causam sofrimento
pois vieram fora de hora, e a hora é calma?

E se não estou mais na idade de sofrer
é porque estou morto, e morto
é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?

(Essas coisas – C.D.A.)

Chico Buarque está vivo. Se ele soubesse, não andava na rua, não tinha amigos, não bebia… não dava mole à sua pessoa. Mas fez tudo isso, graças aos céus, e nos deu de presente um álbum maravilhoso, uma turnê generosa, novos sorrisos e alguma lágrima.  Então parem de criticar o amor dos velhinhos e torçam pra que possam ter o seu. Um beijo e um obrigada à Thais e à Lygia, que entraram na vida dos meus poetas no tempo da madureza pra enfeitar suas vidas, embaralhar seus dias e dar a eles uma perspectiva tão nova e tão mais rica sobre o amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

(Campo de Flores – C.D.A.)

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