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Feminino x masculino na mitologia iorubana OU o dia em que Oxum ficou boladona.

18 ago

Essa semana está rolando no Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da UFRJ um mini-curso sobre mitologia iorubana, ministrado pelo professor Renato Noguera, da UFRRJ. Graças à dica da Cris no facebook eu fiquei sabendo e tô tendo a experiência super legal de participar, não só porque é um assunto de interesse pessoal e relacionado à minha pesquisa (sobre a qual já comentei rapidamente aqui), mas porque o mini-curso é ligado à área de filosofia, e é sempre bom mudar um pouquinho a perspectiva epistemológica.

Oxum.

Aprendi um milhão de histórias e nomes, mas uma em especial me chamou atenção. A aula de hoje foi dedicada aos conflitos e tensões entre as noções de masculino e feminino na mitologia iorubana (se não bastasse o tanto de legal que o curso já tava sendo, o professor Renato ainda me propõe uma discussão dessas! eeee!).  Ele contou uma história super longa e complicada que eu não vou conseguir reproduzir, especialmente sendo leiga como sou. Mesmo assim, vou tentar contar pra vocês a última parte;  me perdoem eventuais equívocos. Importante lembrar também que essas histórias são interpretações do professor de uma série de itãs (versos que compõem as narrativas orais que passam a tradição adiante) que dão margem à diferentes versões dos mitos.

Pois muito bem:  Olorum (senhor supremo do destino, o princípio criador) deu a Obatalá, seu filho, a missão de criar no Aiyê (o mundo limitado, esse em que vivemos) o culto aos orixás, para que eles fossem sempre lembrados. Obatalá deu a Oxum (deusa da fertilidade, da beleza) a tarefa de criar sacerdotes e sacerdotisas – babalorixás e ialorixás -, ensinando aos homens as histórias dos deuses e da criação do mundo. Mas Orumilá (senhor dos mistérios) era o único que tinha o poder de consultar ifá, ou seja, de comunicar-se com o mundo “espiritual” para saber como melhor proceder diante das situações. Sendo um deus masculino, Orumilá decidiu ensinar apenas aos homens o segredo de ifá, tornando-o interdito às mulheres (parece que até hoje às ialorixás não mexem com o ifá). Pelo que o professor falou, existem algumas interpretações pra essa interdição, mas em geral acredita-se que os deuses masculinos temiam que as mulheres soubessem o segredo de ifá porque assim se tornariam ainda mais poderosas do que já eram, considerando que elas tinham um poder fortíssimo que era o da fertilidade, o da gestação. Além disso ainda terem o conhecimento, aí era ameaça!

Iansã.

É claro que Oxum ficou muito danada da vida com essa história, e resolveu fazer de tudo pra conhecer o segredo de ifá e passá-lo também para as mulheres. Daí se desenrolou todo um plano comprido de Oxum que eu não vou contar aqui e ela conseguiu arrancar de Orumilá e de Exu que, sendo amigo de Orumilá e sendo homem, também sabia o segredo de ifá, algum conhecimento, mas não todo. Com a obtenção desse conhecimento por Oxum, o bagulho começou a ficar doido. Os orixás masculinos começaram a ficar muito tensos com a possibilidade das mulheres tomarem o poder no Aiyê, coisa em torno da qual elas já começavam a se articular. Oxum, Obá (deusa guerreira, andrógina, a única solteira da galera) e Iansã (deusa guerreira dos ventos e das tempestades) se uniram em uma sociedade para trocar seus poderes e saberes entre si, realmente tendo o objetivo de colocar as mulheres no poder, como os deuses temiam.

Mulheres articuladas, disputa pelo poder, revolta contra à hegemonia masculina… que beleza! Aí é que vem o caô. Vejam vocês o que Orumilá e Exu aprontaram pra acabar com a sociedade das deusas: chamaram Xangô, deus do trovão, também conhecido como o bonitão do orum (mundo ilimitado, mundo dos deuses). “Vamo lançar o gostosão no meio das mulheres e plantar a sementinha da discórdia!”, e mandaram Xangô desposar Obá, que até então era solteira e, por isso, muito perigosa. Os itãs dizem que o casamento era uma forma de dominar as mulheres, que preocupariam-se em ser belas e agradar o marido, ficando assim enfraquecidas e distantes de pretensões políticas. Obá era solteira e guerreira. Vem Xangô, “negão, ombros largos” (nas palavras do professor) e conquista Obá, que se apaixona por ele.  Próximo passo da liga dos orixás masculinos pra derrubar a mulherada: Xangô deve engravidar Iansã, que era mulher de Ogum e que não tinha ainda conseguido engravidar dele. Isso dá uma confusão danada – dizem que até hoje os filhos de Xangô e Ogum tem desavenças – mas o fato é que Iansã engravida e fica feliz da vida gestando, não querendo mais saber de guerra nenhuma, de homem nenhum.

Obá.

Por fim, Xangô desposa Oxum, também conhecida como a gatinha do orum, aquela que seduz geral. Só que aí o bicho termina de pegar: Xangô quer passar todas as noites com Oxum, enquanto Obá se sente rejeitada. E daí desenrola-se mais um longo episódio envolvendo uma armação de Oxum pra cima de Obá, que, inocente, acaba sendo expulsa de casa por Xangô. Obá é associada aos ciúmes, às loucuras de amor, à baixa auto-estima, etc.

Fiquei muito impressionada ao ouvir esse mito. Não só porque ele é ultra legal (e olha que eu pulei os babados fortes), mas porque numa tradição oral milenar, de uma matriz étnica não-ocidental como as que estamos mais familiarizados, encontramos as concepções até hoje vigentes de que:

1) A maternidade é o sonho de vida das mulheres, o seu grande objetivo e função, sem o qual elas se sentem incompletas e imperfeitas e no qual elas se sentem plenas, não precisando de mais nada.

2) Os homens superam as divergências entre si em nome da coletividade e, nesse caso, do poder político (eu não contei, mas Oxum era esposa de Orumilá, mas dormiu com Exu e depois foi desposada por Xangô, além do problema entre Ogum e Xangô que, apesar do mau estar, foi superado por Ogum tendo em vista a causa nobre em questão).

3) As mulheres não, elas são competitivas entre si, disputam a atenção e o amor dos homens, querem derrubar uma à outra em nome de seus interesses pessoais (que raramente são políticos, mas passionais, sentimentais).

Assim, Exu e Orumilá perceberam que a vaidade e o casamento eram as grandes formas de controle sobre as mulheres. A única maneira de enfraquecê-las era fazerem com que tivessem a necessidade constante de serem jovens, bonitas, de manterem-se interessantes para os seus maridos. As sem marido, coitadas, deveriam se sentir fracassadas. Lembram como Obá era perigosa antes de casar? Lembram o que aconteceu com ela depois do casamento? É por aí.

Com isso todo, estou longe de querer sugerir que a mitologia iorubana seja machista. O professor Renato foi enfático no ponto de que as tensões de poder entre feminino e masculino são constantes e não se encerram nesse episódio, o poder está sempre em jogo.

Pra mim, é muito interessante que essas noções “machistas” estejam presentes na mitologia, porque é justamente o medo histórico das mulheres – seus mistérios, suas possibilidades, sua capacidade de gestar, sua sexualidade – que fez com que tanta coisa de ruim acontecesse e aconteça com a gente ainda hoje. Acho que já comentei por aqui, mas falo de novo: a própria Ginecologia, enquanto especialidade médica, foi criada diante da necessidade dos homens de controlarem aquela criatura que eles não conseguiam decidir se era uma santa mãe ou uma puta sensual.

Como já escrevi pra caramba, deixo o resto pra vocês. Putz, como dá o que pensar! =)

PresidentA. Com A.

5 jan

Eu queria começar dizendo que não sou petista. Eu juro! Hehehe.

Ainda assim, votei na Dilma no segundo turno das eleições e comemorei a vitória discretamente, da mesma forma que sorri no dia 1 de janeiro desse ano, quando lembrei que o Brasil tinha a primeira presidenta mulher.

- QUÊÊÊÊ?!?! PRESIDENTAAA! Não existe “presidenta”, sua burra!!!! Aiiiii!

Então, existe a palavra “presidenta”. Você pode não gostar dela, não usá-la,

Ex-presidentA Bachelet.

achar que ela macula a sagrada Constituição do seu país… Mas ela existe. Pode procurar no dicionário, pode googlar

Ontem minha avó, fiel ouvinte da Rádio Globo, veio me dizer que era um absurdo a tal da Dilma querer ser chamada de presidenta. Vale lembrar que minha vó é uma dessas pessoas que odeia a Dilma só por odiar, só porque a Rádio Globo falou. Enfim, ela me disse que ouviu alguém muito conceituado e importante dizer que a Dilma não poderia ter o título de presidenta porque esse cargo não existia na Constituição. O que tava escrito lá era “presidente”, então ela era presidente e pronto.

A essa pessoa tão distinta e culta faltou considerar que a Constituição não é um documento portador da verdade absoluta e isenta sobre a nação. Ela foi escrita por gente, ela é um produto histórico e, assim, está recheada com diversas ideologias e preconceitos vigentes na nossa sociedade. Eu digito isso e me sinto meio boba, porque parece tão óbvio, tão repetitivo, tão raso. Mas não é! PUTZ! Nego é mongol! Que inferno, mané!

 

PresidentA Kirchner.

Tudo bem, tudo bem… nem tão mongol assim. Gente que manda essas asneiras em geral não é nada burro. Taí o artigo do Alberto Dines pra provar (tudo bem que ele já tá meio gagá, mas vamos lá). Além de mandar esse mesmo argumento sobre a redação da Constituição, ele ainda argumenta que reivindicar a palavra “presidenta” é ir contra a luta feminista. Realmente, pra conseguir escrever um texto aparentemente coerente que defenda essa idéia, tu deve ter que ser muito inteligente! Nas ciências humanas a gente descobre que é possível “provar” qualquer merda se você tem uma redação minimamente aceitável.

Mas graças aos céus nós também não somos mongóis. Sabemos que a palavra “presidenta” não apenas é correta na língua portuguesa (e se não fosse, sinceramente, e daí?), mas está aí pra marcar o fato de que o cargo de Presidente da República é agora ocupado por uma mulher. UmA. Mulher.

A gramática da língua portuguesa é toda machista, nunca vi nenhum desses paladinos da verdade e da justiça reclamarem. Agora que só essa palavrinha foi proferida pra marcar uma conquista das mulheres nesse país, fudeu. Crime constitucional!

Eu não sou petista. E não apóio a Dilma pelo fato de ela ser uma mulher, como um amigo meu esses dias veio argumentar. Mas eu sou feminista, e não posso fechar os olhos para o fato de que o Brasil tem uma mulher na presidência. E isso incomoda muito, incomoda demais. Desde que o nome Dilma foi lançado pra concorrer ao cargo, começaram os ataques, esses sim pelo fato de ela ser uma mulher. A roupa da Dilma. O rosto da Dilma. A idade da Dilma. O divórcio da Dilma. A plástica da Dilma. O guarda-roupas da Dilma. A vice-primeira-dama da Dilma.

A presidenta Dilma. Com A.

E olha que hoje só é dia 5 de janeiro.

Olhos Azuis

18 mai

Fui convidada, como alguns amigos meus, para uma pré-estréia do filme Olhos Azuis, feita especialmente para blogueiros, que aconteceu ontem no Arteplex. Adorei a idéia; além de ser uma forma bastante  barata e eficaz de divulgar o filme, reconhece a importância da blogosfera na circulação de informações (tem um post interessante sobre isso aqui).

Vocês podem estar se perguntando (como eu também o fiz) como alguém pode ter achado relevante me chamar, já que o meu blog tá paradão há um tempo e ele nem é especializado em cinema. Felizmente, eu tenho amigos queridos que gostam de mim e que tem empregos legais, como esse de chamar pessoas pra ver filmes de graça. Aí fui!

Além de uma pequena dose de coerção durkheimiana, não se cobra aos blogueiros convidados que escrevam sobre o filme, é claro. Mas achei uma oportunidade boa de tirar a poeira das engrenagens da máquina e botá-la pra trabalhar. E – não digo isso pela pipoca que me foi dada de graça – o filme vale muito a pena.

O filme se passa em momentos paralelos na vida de um mesmo personagem que se intercruzam. No último dia de trabalho de um policial da alfândega norte-americana (aquele cara que é encarregado de dizer quem pode entrar e quem não pode), ele resolve sortear alguns passaportes de latino-americanos desafortunados pra infernizar-lhes a vida. Paralelo a isso, esse mesmo policial americano está no Brasil, mais precisamente em Recife, procurando por uma menininha.

O cara que faz o policial se chama David Rasche, excelente ator americano que eu não lembro de ter visto antes, mas aparentemente ele costuma trabalhar na tevê. O outro personagem central, o brasileiro Nonato, escolhido como alvo máximo do policial escroto, é o Irhandir Santos, “o novo cara do cinema nacional”, que tá chegando nas telonas com mais dois outros filmes, Quincas Berro d’Água e Viajo.

A primeira história se passa inteiramente na sala da imigração do aeroporto JFK, em Nova Iorque. Quando eu vi a primeira imagem daquela sala, senti um arrepiozinho: já estive numa daquelas. Vou contar primeiro a minha história pra não acabar soltando algum spoiler do filme.

A primeira – e única – vez que saí do país foi em agosto de 2007, pouco depois de atingir a maioridade. Meu tio era professor de física convidado em Harvard (tem gente que é chique!) naquele ano, e eu fui de gaiata passear nos êua por conta disso. Pegar o visto no consulado americano foi muito mais fácil do que eu esperava. Fui com 350 documentos diferentes, cheirosinha, bonitinha – mas não muito, né?, sei lá. Entrei na salinha, um officer careca de mau-humor olhou um ou dois documentos e me perguntou se eu ia pra Disney. Ahm… Não, meu senhor, eu vou pra Boston. Ah tá, pode ir. E meu deu o visto.

Tanta facilidade não podia sair impune. Peguei meu avião e cheguei no aeroporto de Atlanta, na Georgia, pra passar pela alfândega e depois pegar a conexão. Me senti num Carrefour pós-moderno: eram dezenas de estações feito caixas de supermercado, uma do lado da outra, com suas filas, só que pra entrar. Chegou minha vez. Um policial negro careca (eles são todos carecas?) olhou meus documentos com calma. O que você veio fazer aqui? Vim visitar meus tios e primos. Quantos anos têm seus primos? 7 e 9. E por que você quer visitar crianças tão pequenas? Porque eu as amo, ué!

Peguei um bad cop. Ele não gostou da minha resposta. Botou meus documentos numa pasta laranja e me mandou pra immigration room. Eu, menininha bonitinha, just turned eighteen, sozinha, querendo entrar nos Estados Unidos? No mínimo ia ser stripper, prostituta, sei lá! Entrei na salinha. Tinha só eu, um homem com cara de índio e uma mulher com cara  provocantes. Ai meu deus. Vim pra sala dos suspeitos.

No fim das contas deu tudo certo. Peguei um good cop e fui liberada logo. Não sem quase morrer do coração, é claro. Porque naquela sala você é um inimigo em potencial. Os olhares são de superioridade, de desdém. Aquela sala é um território a ser pensado. E é isso que Olhos Azuis faz.

No fim da história, eu cheguei.

Em Olhos azuis, o bad cop chega ao seu extremo. Mas o retrato não é irreal, muito pelo contrário. O racismo, a xenofobia e a estupidez que o patriotismo norte-americano quer implantar nas cabeças dos ianques exala realidade. E a posição dos latinos (e nós brasileiros também somos latinos, acredite se quiser) também chega ao extremo, também de forma totalmente verossímil. A tensão entre as posições de forte e fraco,  dominante e subalterno, senhor e escravo (porque ando lendo Nietszsxsche) chega a um pico com o qual é possível se relacionar intimamente e explode, chegando mesmo à inversão de posições.

O filme é muito bom. Deviam passar na sessão da tarde dos êua. É um filme brasileiro muito diferente do que estou acostumada a ver, num bom sentido. É claro que tem uma coisa aqui outra ali que eu faria diferente, mas é essa coisa que se tem com filme brasileiro, uma proximidade com aquele fazer. De qualquer forma, a reflexão que o filme propõe é fundamental. Vale a pena assistir – e não digo isso pela pipoca e coca cola que ganhei degrátis. Juro!

Saia curta x Chocolate: Foucault explica.

15 nov

Como é que o poder responde? Através de uma exploração econômica (e talvez ideológica) da erotização, desde os produtos para bronzear até os filmes pornográficos… Como resposta à revolta do corpo [na década de 60], encontramos um novo investimento que não tem mais a forma de controle-repressão, mas de controle-estimulação: “Fique nu… mas seja magro, bonito, bronzeado!”

(Michel Foucault, em Poder-Corpo, capítulo do livro Microfísica do Poder)

Brinquei com alguns amigos sobre o fato de que a loucura na Uniban aumentou um pouco a audiência deste humilde blog, e de fato essa história me rendeu discussões acalouradas com as pessoas mais diversas. Principalmente depois do depoimento da Geysi no Fantástico, domingo passado, dizendo que ela também tinha uma parcela de culpa nessa história toda. Engraçado é que eu não sei se ela de fato acha isso ou se foi aconselhada pelo advogado a dizê-lo publicamente. Aliás, se a segunta opção for a certa, pode ter sido uma ótima jogada da parte dele, porque se havia ainda alguma indefinição na opinião pública em relação ao caso, estava justamente aí. “Apesar dos agressores serem uns trogloditas, a garota não tinha nada que ter andado vestida daquele jeito por aí, né!”

Minha mãe lançou um argumento que me deixou meio engasgada, até eu pensar numa resposta inteligente (a vantagem de ter mãe advogada é que você treina cotidianamente seu poder argumentativo. A desvatagem é que, ao longo da sua vida, a sua mãe ganha a maioria esmagadora das disputas). Eu dizia que não se pode cercear o comportamento de uma pessoa, seus gestos, olhares ou a maneira como se vestem, que isso era absurdo e que todo mundo deveria ser livre pra ser do jeito que bem entender. Ela concordou comigo, sempre ironicamente, e rebateu dizendo que ela tinha toda a liberdade de andar sozinha no aterro do Flamengo à noite (situação obviamente perigosa, pra quem não é do Rio), mas que se ela for assaltada lá, certamente as pessoas se perguntariam por que diabos a mulher louca estava andando sozinha no aterro a uma hora daquelas. É claro que o argumento foi exagerado, mas aparentemente coerente. Eu sabia que estava errado, mas tinha sido encurralada pela minha habilidosa mãe.Acontece que entre o episódio da Uniban e o exemplo do aterro existe uma diferença crucial: não existe nenhum tipo de pressão social pra que a minha mãe vá caminhar sozinha no aterro de madrugada (a não ser em uma situação hipotética de que uma seita de que ela fizesse parte dissesse que ela precisava ir lá fazer uma oferenda aos deuses ou algo do tipo).

Tudo se tornou muito mais esclarecedor depois que eu li o pequeno capítulo do Foucault, de onde tirei a citação que abriu o post. Ele conseguiu, ainda nos anos 70, enxergar uma tendência que hoje tem se tornado extrema. Há algum tempo atrás, predominava sobre os corpos o que ele chama de poder disciplinar. É ele que a gente observa em instituições como a escola, projetada pra disciplinarização dos aluninhos, que devem ficar sentados naquelas carteiras que cerceiam a mobilidade durante horas, ouvindo, levantando a mão caso queira falar, etc. Pois bem, esse poder, ainda presente com força, está em crise. Porque percebeu-se que existe um outro muito mais eficaz: o estímulo!

É perfeito para a sociedade capitalista: nossos corpos são hiperestimulados o tempo todo, de todas as maneiras, dos modos mais contraditórios. Vejamos como:spacer

bons

Eu ia dizer: “Olha esses bombons”, mas isso seria redundante. Lindos, não? Fiquei até deprimida procurando uma foto sedutora de chocolate no Corbis; não tem nada gostoso pra comer aqui em casa e só o mercado aqui perto sabe o quanto eu sou suscetível a chocolate. Não bastasse chocolate ser delicioso, os publicitários e artistas gráficos ainda abusam do poder dele. Essa foto aí, por exemplo, é do banco de dados do Windows, e tem direitos reservados. Isso tudo pra me dar fome. E eu te garanto que se não fosse 1 hora da manhã, eu ia dar um jeito de comer chocolate ainda hoje. Mas isso não é surpreendente.

womens

Pra minha sorte, a Women’s Health está tendo uma enquete sobre a capa preferida do público. Vejam bem, não peguei nem uma VIP ou Playboy da vida. Fui na Women’s Health, que faz esse estilo revista-que-fala-de-saúde-e-não-de-futilidades, o que é uma bela inverdade, como já falei do seu par, Men’s Health, uma vez.

É um exemplo óbvio. Quero chocolate. Não quero ser gorda. Quero sentir gostinho bom. Quero ter uma barriguinha tranquilex, se não não pego mais ninguém nessa vida. Nada surreal, né? Os mais esclarecidos e revoltados com os padrões capitalistas não visam ser gordos. E não me venham falar que é uma questão de saúde, tá? O fato de que formam-se dobrinhas na região da barriga quando sentamos perturba um percentual gigantesco da raça humana. Não me perguntem o que eu faço com essa foto:

morango com chocolate

Então preciso de chocolate. Vou ao mercado, compro umas barras, leite condensado e Nescau pra fazer brigadeiro. Só que eu tô há muito tempo parada e minha calça tá ficando meio apertada em mim. Resolvo subir numa balança na farmácia e tô dois quilos a cima do meu peso ideal. Preciso de uma atividade física. De tarde chocolate, de noite academia – e assim a gente consome de todos os lados, contraditoriamente, de acordo com os estímulos paradoxais que nos são constantes. Não é brilhante? Eu aplaudo.

E o que é que isso tem a ver com a Geysi? Bom, a Geysi não tem culpa. Existe uma demanda de que nós, mulheres heterossexuais, sejamos apresentáveis sempre. E quando eu digo apresentáveis, quero dizer gostosas, sexies, magras, bonitas e bronzeadas, nas palavras de Foucault. Sem esquecer do “Fique nu”, por favor. Até a Fernanda Young, paladina da inteligência e perspicácia feminina (!), é capa da Playboy! Ah, demais, né, gente? Ela se gaba por ser a primeira capa a ter num sei quantos romances publicados. Parabéns, minha cara! Você, como corpo hiperestimulado entre tantos, respondeu tanto à demanda de parecer intelectual quanto a de aparecer pelada. Bacana! Keep up the good work.

Não, não acho que a Geysi estava nua; por favor, evitemos cair na discussão imbecil sobre a milimetragem do vestido. Acho é que o comportamento dela faz total sentido dentro da lógica social em que a gente vive. Não? “Ah, mas na faculdade não é lugar de andar daquele jeito!” Evitemos também a discussão sobre como todo mundo anda sim “daquele jeito” na faculdade, no trabalho, onde quer que seja. O fato é que o que houve ali foi um conflito entre os estímulos e, por que não, uma bela parcela de controle-repressão, que continua aí, com toda a força, nas nossas escolinhas, prisões, hospitais.

E a vontade de comer chocolate que não passa… Malditas fotos do Google Images!


Adendo feito em 16 de novembro de 2009:

Esclareço que não acho que a Geysi esteja certa, que não quero usar um vestido rosa choque curto e que  não defendo que as mulheres passem a andar rebolativas pela rua. Não acho que o pessoal que comentou tenha interpretado assim, mas em face uma discussão irritante que tive sobre o assunto, resolvi explicitar minha opinião sobre o casoo. Não é relevante pra mim se a menina está certa ou errada, porque eu não tô nem um pouco interessada em fazer um julgamento moral sobre ela. Isso já tem gente o suficiente fazendo. Inclusive o Fantástico tá sacaneando com a garota, mostrando como ela botou aplique no cabelo, as roupas curtas dela e perguntando se ela pretende posar nua, fazendo o coro “puta! puta!” bem na cara dela, que parece estar adorando.

O que interessa pra mim nessa história toda é:

  1. Mostrar repúdio à ação violenta dos trogloditas da Uniban, estudantes e reitoria.
  2. Entender que o fato de que muitas mulheres se comportem de determinada maneira é absolutamente coerente com os estímulos que lhe são dados cotidianamente. Ou seja: é maneiro ser loira, ter cabelo liso, atrair olhares masculinos e femininos, ser sensual, mostrar-se sexual, etc.
  3. Que é contraditório que a sociedade hostilize uma pessoa que age conforme seus estímulos prescrevem, e que isso se explica pelo fato de que os estímulos em si também são contraditórios, já que você deve ser tudo isso que eu falei a cima, mas ao mesmo tempo deve ser digna, respeitável e submissa.

On bended knee*

20 set

Quando o submetido se dá conta
da sua subserviência,

frustração

vergonha

raiva

e o desejo de vingar-se do filho da puta.

frustração
pela ambiguidade
da posição subordinada:
como há domínio,
há deixar-se dominar.

vergonha
pela falsa consciência
anterior à revelação:
Andar de joelhos,
pensar-se de pé.

raiva
pela crueldade
da lógica hierárquica
objetificada
na corda amarrada aos pés,
cujos peitos se arrastam
pelo cimento do chão
lacerando
pele,
orgulho.

e desejo de vingar-se do filho da puta:
o rechonchudo capitalista de fraque no topo do prédio
ou eu, que, faminto, estendi-lhe a mão
e pensei-me a salvo?

Maldição polissêmica da pena:
Generosidade no rechonchudo,
Subserviência no faminto,
Tempo a passar atrás de barras de ferro
ajoelhado.

* Título retirado da música Guaranteed, do Eddie Vedder, trilha pro filme Into The Wild (Na Natureza Selvagem).

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