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Anticristo (Lars Von Trier): O elogio da misoginia.

1 nov

Não quero nem saber do que as mais elaboradas críticas de cinema anticristo_poster-360x490advogam: Anticristo é um filme misógino. Se o filme é um produto artístico que resulta dos pesadelos mais profundos do maluco do Lars von Trier, se tem uma fotografia linda e uma trilha erudita, continuo sem querer saber. Na linha fundamental do filme está escrito: “mulher é um bicho do demônio!”.

Mas vamos por partes, como Jack (já que vi esse filme motivada por uma tradição de Halloween que cultivo com a Larissa desde a sexta série). Eu tenho uma implicância com o que podemos chamar hoje de cinema cult. E não tô falando dos filmes que passam no grupo Estação nem nada, mas de filmes que são catalogados Dogvillepor diretor, e não por ordem alfabética, por exemplo. Eu não entendo mais de cinema do que as pessoas normais; eu assisto filmes e penso sobre eles. Mas nunca vi um filme de Truffaut, Bergman, Godard e nem sei o que significa o von Trier ter dedicado Anticristo ao Tarkovski. E não é simples ignorância minha, é só que eu imagino que esses filmes devam ser chatinhos, hehe. Ok, me batam Taíses, Felipes e Carols da vida. Mas a questão é que, pelo que vi de von Trier – Dançandomanderlay no Escuro, Dogville e Manderlay -, não posso negar que o cara tem um olhar único pro cinematógrafo. A proposta de um cinema mais realista está presente até nesse novo filme cheio de guéri-guéri, num momento em que a câmera parada, no nível do chão, capta um choro copioso, de um jeito que qualquer ser humano cujo coração pulse consegue se identificar de cara.

Lars von Trdancerier também é conhecido por ser absolutamente pancada da cabeça, enlouquecendo todas as protagonistas dos seus filmes de tanto encher o saco delas (o que, aliás, nos privou de ver qualquer atuação no cinema da Björk depois de Dancer in the Dark). Tá bom, meu filho, seja artístico, seja doido, faça o que bem entender. Mas daí a fazer 1h44min de elogio à misoginia, aí complica.

Lars parece juntar na sua protagonista os principais estereótipos do ideário misógino da história ocidental (ou oriental também, sei lá). A mulher é absolutamente irracional, emocional, sexual, dissimulada e, acima de tudo, perigosa. Ah, e o melhor! O título anticristo não é à toa; a bicha (bicha, sim, de animal fêmea) tá assim-assim com o demônio! A construção do discurso radicalmente misógino fica bastanteanti didática no filme, por causa do personagem masculino, um psicólogo comportamental (maiores esclarecimentos quando a Larissa quiser comentar sobre o post) que vai explicando ao expectador como funciona aquele animal perigoso e lascivo que é a mulher, de etapa em etapa.

A velha dicotomia Natureza x Cultura também está presente, é claro. A mulher é tão louca, feiticeira e desvairada, que chega a praticamente copular com a Natureza, selvagem e avassaladora, como tem que ser. Em contraposição à ela, o homem, racional, cultural e, acima de tudo, at2domador da natureza, tenta, na maior benevolência da história do cinema, concertar aquela árvore torta. Aliás, em dado momento do filme, o homem se torna o clássico mocinho dos thriller, daquele estilo que a platéia grita “corre, corre, o monstro tá vindo!”, e torce muito pra ele escapar vivo.

Concluir meu comentário é complicado, já que não posso contar o fim do filme. O que eu sei é que é definitivamente pesado abordar o femicídio da forma como Lars o fez. E, amigos, por favos, não se enganem. Esse filme não é uma belíssima obra sobre a crueldade necessária da natureza humana. O mérito de Lars talvez é deixar bem claro o que ele pensa de nós, nas profundezas da cabeça maluca dele. O que o filme emoldura é a crueldade necessária da natureza feminina, que urge por ser controlada, domesticada, enquadrada, subjugada. Ah, faça-me o favor. That is soooo XVI century!

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