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PresidentA. Com A.

5 jan

Eu queria começar dizendo que não sou petista. Eu juro! Hehehe.

Ainda assim, votei na Dilma no segundo turno das eleições e comemorei a vitória discretamente, da mesma forma que sorri no dia 1 de janeiro desse ano, quando lembrei que o Brasil tinha a primeira presidenta mulher.

- QUÊÊÊÊ?!?! PRESIDENTAAA! Não existe “presidenta”, sua burra!!!! Aiiiii!

Então, existe a palavra “presidenta”. Você pode não gostar dela, não usá-la,

Ex-presidentA Bachelet.

achar que ela macula a sagrada Constituição do seu país… Mas ela existe. Pode procurar no dicionário, pode googlar

Ontem minha avó, fiel ouvinte da Rádio Globo, veio me dizer que era um absurdo a tal da Dilma querer ser chamada de presidenta. Vale lembrar que minha vó é uma dessas pessoas que odeia a Dilma só por odiar, só porque a Rádio Globo falou. Enfim, ela me disse que ouviu alguém muito conceituado e importante dizer que a Dilma não poderia ter o título de presidenta porque esse cargo não existia na Constituição. O que tava escrito lá era “presidente”, então ela era presidente e pronto.

A essa pessoa tão distinta e culta faltou considerar que a Constituição não é um documento portador da verdade absoluta e isenta sobre a nação. Ela foi escrita por gente, ela é um produto histórico e, assim, está recheada com diversas ideologias e preconceitos vigentes na nossa sociedade. Eu digito isso e me sinto meio boba, porque parece tão óbvio, tão repetitivo, tão raso. Mas não é! PUTZ! Nego é mongol! Que inferno, mané!

 

PresidentA Kirchner.

Tudo bem, tudo bem… nem tão mongol assim. Gente que manda essas asneiras em geral não é nada burro. Taí o artigo do Alberto Dines pra provar (tudo bem que ele já tá meio gagá, mas vamos lá). Além de mandar esse mesmo argumento sobre a redação da Constituição, ele ainda argumenta que reivindicar a palavra “presidenta” é ir contra a luta feminista. Realmente, pra conseguir escrever um texto aparentemente coerente que defenda essa idéia, tu deve ter que ser muito inteligente! Nas ciências humanas a gente descobre que é possível “provar” qualquer merda se você tem uma redação minimamente aceitável.

Mas graças aos céus nós também não somos mongóis. Sabemos que a palavra “presidenta” não apenas é correta na língua portuguesa (e se não fosse, sinceramente, e daí?), mas está aí pra marcar o fato de que o cargo de Presidente da República é agora ocupado por uma mulher. UmA. Mulher.

A gramática da língua portuguesa é toda machista, nunca vi nenhum desses paladinos da verdade e da justiça reclamarem. Agora que só essa palavrinha foi proferida pra marcar uma conquista das mulheres nesse país, fudeu. Crime constitucional!

Eu não sou petista. E não apóio a Dilma pelo fato de ela ser uma mulher, como um amigo meu esses dias veio argumentar. Mas eu sou feminista, e não posso fechar os olhos para o fato de que o Brasil tem uma mulher na presidência. E isso incomoda muito, incomoda demais. Desde que o nome Dilma foi lançado pra concorrer ao cargo, começaram os ataques, esses sim pelo fato de ela ser uma mulher. A roupa da Dilma. O rosto da Dilma. A idade da Dilma. O divórcio da Dilma. A plástica da Dilma. O guarda-roupas da Dilma. A vice-primeira-dama da Dilma.

A presidenta Dilma. Com A.

E olha que hoje só é dia 5 de janeiro.

A Devassa e a mulher negra: “Só corpo, sem mente”

15 dez

Terminei minha monografia, finalmente! E agora que não tenho que voltar toda a minha energia escritora pra uma coisa só, posso voltar pra cá. Mesmo assim, o primeiro post pós-monográfico do blog se relaciona com o tema da monografia. Não que eu tenha planejado, mas me senti impelida a escrever alguma coisa quando dei de cara com essa imagem que a Dayani mandou para o grupo de discussão das blogueiras feministas:

A cerveja Devassa já enfrentou uns problemas com a CONAR e saiu pagando de mártir da censura com esse vídeo, muito do muquirana. Bom, esse episódio não significou muita coisa pra ninguém, até porque não tocou no problema central do marketing da cerveja: ele se baseia em estereópos femininos racializados, sexualizados e objetificados. Mas, nãããão! Se eu colocar isso em questão em qualquer mesa de bar DO MUNDO vou ser a pessoa mais insuportável, implicante, inconveniente e o caramba que existe. Então eu só não frequento o restaurante Devassa, não bebo a cerveja e ignoro sua existência, porque propaganda de cerveja é essa coisa horrorosa, machista e nojenta mesmo. Ok.

Aí eu me deparo com isso. A Devassa ensinando aos consumidores que “é pelo corpo que se conhece a verdadeira negra”, explicitando pros mais intelectualmente limitados com uma ilustração de uma mulher negra (mulata?) sensual, magra, tesuda, maravilhosa, com olhar 43 e tudo. Mas não existe racismo no Brasil. E feminismo é uma coisa ultrapassada. Realmente, as mulheres negras ocupam um lugar super bacana na sociedade, né? Elas estão em pé de igualdade com os homens! Elas estão melhores amigas das mulheres brancas! Né? Não é.

Eu li um texto fundamental pra minha monografia da intelectual negra bell hooks (que todo mundo conhece, né? não é), que tá disponível em PDF na internet, coisa linda. Nesse texto, ela fala sobre essa formulação discursiva que encerra a mulher negra em seu aspecto biológico, tanto como a criatura ultra sexual da propaganda quanto como a figura da “mãe preta”, aquela escrava/emprega que cuida de todos, que serve a todos. Esse discurso atua para tornar o domínio intelectual um lugar proibido para as negras, já que mais do que qualquer grupo de mulheres nesta sociedade, elas têm sido consideradas “só corpo, sem mente”.

Só corpo, sem mente. O machismo tem operado essa redução das mulheres a seus corpos historicamente. Até mesmo a história da formação da ginecologia como especialidade médica está relacionada com isso (posso falar disso num outro post, quem sabe). Da mesma forma, o racismo trata de animalizar os negros, que além de “só corpos”, muitas vezes nem chegam a ser considerados corpos humanos. Pensem na conjugação dos dois.

Essa propaganda da Devassa não merece só um “ai, que horror”, uma virada de página e um gole de Devassa pra esquecer. Isso é sério. Vamo denunciar na CONAR, quebrar uma garrafa de Devassa na cabeça do publicitário que inventou essa merda, sei lá. Quando eu tiver uma proposta mais concreta (preciso da ajuda das meninas da lista!), faço um adendo aqui.

De resto, fica o que a bell hooks falou. O discurso que reforça o estereótipo da mulher negra como “só corpo, sem mente” só pode ser destruído na medida em que as mulheres negras o subvertam ocupando o lugar proibido do trabalho intelectual. Eu faço coro com mestre hooks quando ela diz:

“o trabalho intelectual é uma parte necessária da luta pela libertação, fundamental para os esforços de todas as pessoas oprimidas e/ou exploradas, que passariam de objeto a sujeito, que descolonizariam e libertariam suas mentes.”


P.S.: Minha monografia é sobre o romance Ponciá Vicêncio, da escritora negra mineira Conceição Evaristo. Mas sou de História, não de Letras! Só pra esclarecer. Hehehe.

Adendo: Denuncie a propaganda da Devassa na Conar! O link é esse:  http://www.conar.org.br/home.html#r O post da Ana tem os dados da revista que veiculou a propaganda e sugere um texto a ser enviado pro Conar, que redigimos no grupo de blogueiras. Mas sinta-se livre pra escrever o próprio texto, o importante é denunciar!

Adendo ao adendo: Também está rolando essa petição on line, assinem! http://www.peticaopublica.com/?pi=P2010N4599

Transgeneration e transgêneros no Brasil: ninguém sabe, ninguém viu?

19 out

É difícil acreditar, mas fui supreendida, há um bom tempo atrás, pela presença de um programa interessante na tevê domingo a noite. Era o “Geração Trans” (ou Transgeneration), de 2005, que tava passando no “Pensa Nisso”, do Multishow. Esses dias, lembrei da série por motivo qualquer e descobri que os oito episódios estão no youtube (o que o Multishow comprou é o sexto) e tratei de assistir todos. E cá estou eu, recomendo enfaticamente que vocês assistam também.

A série trata de quatro jovens universitários nos Estados Unidos enfrentando seus problemas com família, academia, relacionamentos, falta de dinheiro, política… O que tem demais nisso? Tem que os quatro são transgêneros, “seja lá o que isso for”, como disse meu tio.

 

Outro filme bacana que fala de transgêneros também nos êua (esse é ficção), é o Transamérica, engraçadíssimo e super emocionante. Pena que nunca escrevi sobre ele no blog. Em compensação, tem um post sobre o maravilhoso XXY, que fala de um(?) jovem intersex (hermafrodita, pra ser terrivelmente biológico e mais entendível). Hoje tô frenética nas dicas! Voltemos ao Trasngeneration.

O fato do meu tio não ter entendido o significado de “transgênero” tem muito menos a ver com a quantidade de nomes e definições diferentes de gênero que existem, tentando dar conta de limitar uma sexualidade que pra mim é indefinível, do que com um desconhecimento e desinteresse da sociedade em geral em relação a essas pessoas. O que é transgênero, transexual, travesti? Pra maioria, é um bando de traveco que roda bolsinha nas esquinas sujas por puro desvio de caráter. É por isso que, tanto aqui no Brasil quanto nos Estados Unidos (e provavelmente no mundo todo), os transgêneros são proporcionalmente a maioria esmagadora das vítimas de violência física movida pela homofobia. Enquanto os gays, que ultrapassam 18 milhões no Brasil, representam 63% dessas vítimas,  31% são travestis, que oscilam entre 10 e 20 mil.

fonte: http://tinyurl.com/3yrzn98

fonte: http://tinyurl.com/3yrzn98

É nesse quadro opressivo que se evidencia a importância de documentários como esse. É claro que o corte de classe – todos são, bem ou mal, universitários nos Estados Unidos – deixa escapar questões importantes. Imagine você um transgênero fudido de grana. Como se a agonia extrema de ter nascido num gênero e identificar-se com o outro não fosse suficiente, os impedimentos pra ele são monstruosos. Se no Brasil os transgêneros são socialmente invisíveis (salvo na hora da agressão e do desdém), os transgêneros pobres são ainda menos que isso.

Eu tentei me informar sobre como andam as coisas politicamente pros transgêneros no país. Foi só agora, em 2008, que o processo transexualizador foi integrado aos serviços do SUS. E só amanhã (!) a Comissão de Direitos Humanos do legislativo vai votar o PL que permite a mudança de nome de transgêneros na certidão de nascimento. Bem, tá mais do que na hora, né? Essas medidas foram fruto de intensa mobilização do movimento LGBT, e por mais fundamentais que sejam, não impedem que os transgêneros sejam vistos na sociedade como uma piada de mal gosto. E é aí que entra a importância da luta pela criminalização da homofobia (apóie a aprovação do PCL 122/06 aqui).

Mas, sim: assistam o doc. Além de toda a militância e esclarecimento, ele é lindo. Tenho que fazer uma menção honrosa ao T.J. (Female to Male – Mulher para Homem), que putz!, é uma daquelas pessoas que dá vontade de conhecer e ser amigo. Mas eu não vou falar mais, que quero que vocês vejam tudo por si mesmos. E voltem aqui pra gente conversar! Tô carente de leitores nesse retorno do blog. =)

P.S.: Foi mal a rima tosca do título do post!

P.S. 2: Ah! Houve um reencontro dos quatro depois do sucesso do doc. Vejam depois de ver a série, né, pra não perder a graça.

O pior machista é aquele que não quer ver?

9 out

Vou dizer pra vocês que tem uns três ou quatro rascunhos aqui de quase-voltas à ativa do blog. Vamos ver se esse vai tirar a sorte grande e receber o clique no botão “publicar”!

Eu teria falado de stress, da Cássia Eller e de outras coisas. Mas já que o destino chama, vou falar do pilar mais forte desse domínio internético (depois da poesia, quantitativamente): feminismo.

Sabe o que é? É que esse assunto nunca fica velho. Não fica, porque quando a gente perde o foco nos preconceitos de gênero, quando a gente fala de política, de futebol… lá estão os ditos cujos pra te chamar de volta à pentelha realidade. Felizmente, esses chamados serviram pra reavivar em mim (decisivamente?) a vontade de usar o blog. Nem bem vontade, aliás, mas necessidade, importância.

A blogosfera é uma coisa fascinante. Estar envolvido nela, aliás, consome mais tempo e energia do que os que estão de fora podem imaginar. Porque são milhares de pessoas com milhares de domínios fascinantes falando sobre as coisas mais interessantes do mundo (Lógico que também tem um monte de lixo, mas em geral só se “perde” tempo com o que interessa, né). E não se trata simplesmente de entretenimento. A internet é um instrumento político muito poderoso. Os críticos da tecnologia que me dêem licença (incluindo as vovós preocupadas como a minha e provavelmente a sua), mas se você não usa esse instrumento politicamente… na moral, tá ficando pra trás. Quem me fez atentar pra isso, com palavras mais eruditas e um discurso bem mais completo, foi um mexicano chamado Guillermo Orozco, numa conferência sobre Educação, Cultura e Mediações Tecnológicas. Fica o crédito e o agradecimento do nosso ressurgente blog insurgente (que ele nunca vai ver, mas tá tranquilo!).

Voltando ao assunto anunciado, vou contar uma historinha. Era uma vez um curso de História onde realiza-se um campeonato de futebol intitulado Copa Histórica Ciro Flamarion Cardoso*. Aí na edição desse ano, a comissão organizadora impediu que meninas se inscrevessem na Copinha. Aí as meninas e alguns meninos ficaram injuriados e divulgaram na internet uma reunião para debater o que poderia ser feito em relação ao assunto. Ora, pela internet o assunto se difundiu e outras meninas e al guns meninos também ficaram injuriados. E reclamaram.

Realmente, o Ciro não é muito fã das feministas.

Pois certos meninos ficaram injuriados foi com essas reclamações. Eles se sentiram acuados pelas manifestações em repúdio ao ocorrido e partiram pras justificativas: “Não sou machista…

… mas futebol é um esporte de contato, as meninas são frágeis, vão se machucar.

… concordo que as meninas devam jogar. Elas podem organizar uma Copa feminina!

… só estou alertando às meninas que a competição é séria, não é brincadeira. Elas não tem malícia suficiente para jogar futebol sério, que pode machucar.

… acho que a manifestação é válida, só acho que falar que tudo é machismo é muito anos 60!

E a melhor de todas, que merece menção honrosa:

… não estou dizendo que as mulheres são frágeis, só que é impensável nessa sociedade um homem machucar uma mulher, mesmo se for sem querer! Porque se isso acontecer, sempre há consequências!

Ahh, então é medo de ser enquadrado na Lei Maria da Penha!

Bom, contei essa historinha com fins meramente ilustrativos de algumas questões importantes. Primeiro eu pensei em dizer que o pior tipo de machista é aquele que não quer ver, tipo o ditado do cego. Mas não sei dizer se é pior isso ou bater no peito pra dizer que bate em mulher. A questão é similar àquela abordada no brilhante post da Mari, falando da galera que nega o marxismo a todo custo e consegue ser mais deplorável do que um cara que se assume orgulhosamente sua condição de direitista. O problema é que ninguém quer realmente responder àquela antiga pergunta publicitária: onde você guarda o seu preconceito?

Só que assim… preconceito não se guarda. Preconceito é necessariamente ativo, necessariamente fere. Você pode ser o cara mais legal do mundo, o mais gente boa, o mais politizado… mas foi só desviar o olhar, amigo, foi só fechar a cara que o alvo do teu preconceito sentiu. E antes fosse só isso.

Ninguém gosta de ouvir que é machista, que é racista, que é elitista… Então as pessoas tendem a ficar extremamente na defensiva. Ou então na ofensiva mesmo, achando que todo esse meu papo é muito chato, coisa de mulher mal amada, mal comida, etc. Feminista então, acho que é o treco mais chato do universo. Coisa ultrapassada! Ninguém gosta, só serve pra estragar a piada e implicar com a conversa.

Ainda assim, compensa. Eu tenho certeza que as pessoas que impediram as meninas de se inscreverem na Copinha, com as melhores das intenções do universo!, tiveram que minimamente refletir sobre o ocorrido. E isso serve. Serve inclusive pra eu voltar com esse bloguinho querido. A discussão tá rolando. Quero ver se as meninas não vão jogar essa Copinha! Ou o machismo enrustido cede, ou o machismo se proclama e aí vamos para a batalha campal! =)

Mas tem que ver essa parada aí da lei Maria da Penha…

Hahaha.

 

* Adendo: O prof. Ciro Flamarion nada tem a ver com esse episódio! Nem imaginei que meu texto poderia ter deixado essa interpretação em aberto, mas aparentemente deixou, então é importante esclarecer. A copinha é um evento informal organizado por alguns alunos da História, que deram o nome do Ciro à ela como homenagem, já que ele é o grande nome do departamento. Como marxista ferrenho, ele declarou algumas vezes que não é muito fã das teorias de gênero e do feminismo acadêmico, por isso a piadinha na legenda da foto dele.

A cereja no bolo dos Unibandidos

8 nov

Petição contra o que houve na Uniban: http://www.petitiononline.com/unitalib/petition.html Assinem!

*

Nos últimos dias, o calor carioca voltou com tudo. Mais que  isso:  tem com certeza uma bela pitada de aquecimento global nisso, porque eu tô até desanimada de tão sufocante que tá a atmosfera. O vento do meu ventilador tá quente, a água da bica tá quente, minha cabeça tá quente… quente, quente, quente. Sexta feira, eu fui apresentar um trabalho num colóquio sobre Educação, Cidadania e Exclusão na UERJ (aliás, desrespeito total do evento com os trabalhos dos estudantes, colocados num lugar e horário nada a ver, já que ninguém tá nem aí pro conhecimento procalorduzido pela graduação mesmo). O semblante das pessoas que eu encontrei pelo caminho, principalmente no metrô, voltando pra casa, era deprimente. Sabe quando as pessoas tão literalmente derretendo? Aquela expressão de pré-desmaio, as milhares de  gotinhas pelo rosto, roupas abafadas, nenhuma circulação de um ventinho que fosse…  Parafraseando uma moça no metrô, se na Terra é assim, mermão, imagina no inferno!

Bom, o fato é que, depois da bizarrice ocorrida na Uniban, eu não pude deixar de notar as roupitchas que o pessoal tem usado por aí. Calor saiados infernos = roupas frescas. Muita mulher de saínha e top, muito homem sem camisa. Nada mais natural, certo? Eu, se pudesse, tinha tirado a roupa  toda e me enfiado dentro de um freezer. Aí eu andava pela rua pensando: “Imagina essas pessoas no interior de São Paulo… iam ser linchadas, uma por uma“. Eu não tenho o costume de usar roupas muito curtas, pelo motivo simples de que as acho desconfortáveis, na maior parte das vezes. Mas… oi? Calor dos infernos? Eu arregaço manga, levanto saia, o que preciso for pra não fritar. Mas agora eu faço isso e penso: “Tem gente que agrediria por isso“. Eu não sou o melhor exemplo de alguém que usa o que se poderia chamar de “roupas provocantes”. Mas eu moro no Rio, sinto calor e  tô cagando e andando pra o que as pessoas pensam sobre as dimensões da minhas roupas. Inclusive , tô  mais pro problema contrário: se uma menina usa roupa larga, deixa de depilar a perna durante uma semana, corta o cabelo de um jeito diferente… Cuidado com a lésbica! Ela pode te pegar!

Bom… tô cagando e andando pra essas coisas em termos. Porque, olharem torto pra você na rua já é suficientemente ruim. Seja por um problema na sua aparência impecável de menininha, seja um olhar pra sua bunda combinado a alguma cantada grosseira. Mas agora tem mais essa (sempre teve, pessoal, só que agora tá na mídia): é possível ser agredida, encurralada, desmoralizada e… tcharããããnz! Jubilada da universidade que você estuda! Porque a má publicidade pra fabriqueta de diplomas foi toda culpa sua, e não dos ogros malditos que deram uma de puritanos enraivecidos pra cima de você. Ah, cara, pera aí! Pára o mundo que eu quero descer!

Agora, a cereja da cereja do bolo: a nota publicitária da Uniban para esclarecer a expulsão:

uniban

É uma pérola, não é? Traduzindo a linguagem burocrática para o bom português, esse documento aí também tá gritando “Puta! Puta!” junto com o bando de ogros desgovernados. Afinal, foi a Geysi que teve desrespeito “aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”, não a turba enraivecida. E a mídia? Detonou a Uniban! Nada a ver! Tinha mais é que ter caído em cima da puta!

Nem tenho muito estômago pra falar muito mais sobre esse episódio, jogo a bola pra vocês. Porque o que ele me traz é um asco imediato, mas também mais uma coisa: me dá medo. E não é só medo do montro social em que eu me encontro inserida, mas medo físico do que diabos pode acontecer comigo um dia, com as minhas amigas, minhas pessoas queridas… Medo de gente, medo da condição feminina uniban292x280que acarreta muita coisa numa sociedade machista tão contraditória e esquizofrênica. Mas, enquanto a gente pode, a gente grita, a gente vai pra cima. Vamos tentar dar uma força pra Geyse, porque essa história não pode acabar assim. Há uma petição on-line em repúdio à atitude da Uniban: http://www.petitiononline.com/unitalib/petition.html. Às vezes redes de solidariedade podem funcionar de alguma forma, sei lá. Eu sei que estou triste. E com muito calor.

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