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Nota de esclarecimento dos moradores de favelas de Niterói

8 abr

Nós, moradores de favelas de Niterói, fomos duramente atingidos por uma tragédia de grandes dimensões. Essa tragédia, mais do que resultado das chuvas, foi causada pela omissão do poder público.  A prefeitura de Niterói investe em obras milionárias para enfeitar a cidade e não faz as obras de infra-estrutura que poderiam salvar vidas.  As comunidades de Niterói estão abandonadas à sua própria sorte.

Enquanto isso, com a conivência do poder público, a especulação imobiliária depreda o meio ambiente, ocupa o solo urbano de modo desordenado e submete toda a população à sua ganância.

Quando ainda escavamos a terra com nossas mãos para retirarmos os corpos das dezenas de mortos nos deslizamentos, ouvimos o prefeito Jorge Roberto Silveira, o secretário de obras Mocarzel, o governador Sérgio Cabral e o presidente Lula colocarem em nossas costas a culpa pela tragédia. Estamos indignados, revoltados e recusamos essa culpa. Nossa dor está sendo usada para legitimar os projetos de remoção e retirar o nosso direito à cidade.

Nós, favelados, somos parte da cidade e a construímos com nossas mãos e nosso suor. Não podemos ser culpados por sofrermos com décadas de abandono, por sermos vítimas da brutal desigualdade social brasileira e de um modelo urbano excludente. Os que nos culpam, justamente no momento em que mais precisamos de apoio e solidariedade, jamais souberam o que é perder sua casa, seus pertences, sua vida e sua história em situações como a que vivemos agora.

Nossa indignação é ainda maior que nossa tristeza e, em respeito à nossa dor, exigimos o retratamento imediato das autoridades públicas.

Ao invés de declarações que culpam a chuva ou os mortos, queremos o compromisso com políticas públicas que nos respeitem como cidadãos e seres humanos.

Comitê de Mobilização e Solidariedade das Favelas de Niterói

Associação de Moradores do Morro do Estado

Associação de Moradores do Morro da Chácara

SINDSPREV/RJ

SEPE – Niterói

SINTUFF

DCE-UFF

Mandato do vereador Renatinho (PSOL)

Mandato do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL)

Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (APAFUNK)

Movimento Direito pra Quem

Coletivo do Curso de Formação de Agentes Culturais Populares

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OBS: Esse texto foi elaborado pelos coletivos que compõem o Comitê de Mobilização e Solidariedade das Favelas de Niterói e eu estou apenas divulgando-o.

A culpa é de quem?

7 abr

Ontem o Rio de Janeiro sofreu sua pior tempestade dos últimos 44 anos. Na verdade parece ter sido pior que a de 1966, mas acho que os jornalistas não encontraram em seus arquivos milimetragens anteriores e a comparação ficou nisso mesmo. A mídia, como de costume, se banqueteou em tragédias e declarações infames de autoridades. Hoje a cidade acordou totalmente devastada, física e emocionalmente. Foram 100 mortos. Mas se há uma brecha azul no céu, não há tempo a perder: os trabalhadores já correm atrás da produtividade perdida.

O dia seguinte me assusta, talvez até mais do que a ininterrupta chuva torrencial e os ventos uivantes que mal nos deixaram dormir. O medo está calcado nas declarações de prefeitos, governador e presidente da república, que parecem aproveitar a calamidade pra pavimentar e fortalecer um grande projeto de remoções de moradores de favelas.

As remoções não são idéia nova. Falar dela lembra a muitos de décadas passadas, depoimentos de pessoas idosas, sofrimentos antigos. Acontece que a questão não é tão essa: as remoções não são coisa antiga. Elas estão mais presentes do que nunca e parecem ganhar cada dia mais força nos governos atuais.

Ontem ouviu-se repetidamente o seguinte diagnóstico: a culpa das mortes dos moradores de áreas de riscos, que foram maioria dentre os números gerais, é da insistência destes nas ocupações irregulares. Isso mesmo: a culpa dos mortos é deles mesmos. É fruto da ignorância desses pobres que não arredam o pé dos seus casebres caindo aos pedaços. Cabral só falava nisso. E jogava a responsabilidade para Paes, oferecendo toda a ajuda do governo do estado para resolver essa situação. O próprio Lula ontem comentou que já tinha tentado pessoalmente remover moradores de áreas de risco e, não adianta, eles não querem por nada sair de lá!

Não é um projeto de urbanização massivo nas favelas, não é infra-estrutura, não é planejamento urbano, não é nada disso: tem que “controlar as ocupações irregulares”, tem que “remover os moradores”. Enfim, tem mais é que acabar com as favelas. Principalmente quando elas fizerem os desfavor de se enfiarem em áreas de alta especulação imobiliária, como a Rocinha e o Santa Marta.

As autoridades estão cimentando seu discurso facista com as mortes de ontem. E esse discurso encontra cada vez mais eco na mídia e na cabeça dos eleitores. Como será o amanhã? Que recuperação da cidade será essa? O Rio de Janeiro pra Comitê Olímpico ver? Veremos o resultado após os comerciais. Plim-plim.

Réquiem para o meu Haiti.

17 jan

No começo de 2008, quando eu estava no terceiro período da faculdade, cursei uma disciplina chamada História da América II, que cobre mais ou menos o século XIX. Apesar de não ter simpatizado nada com o professor, ele propôs uma coisa que eu sempre gostei muito de fazer: um trabalho de final de curso com tema em aberto (dentro de algumas condições, naturalmente). Não sei porque cargas d’água eu quis estudar o Haiti. Foi uma coisa quase burra, considerando que temas em aberto sempre nos puxam pra assuntos mais fáceis de se trabalhar, pra garantir aquela nota boa sem tanto esforço. Mas eu insisti em estudar o Haiti e acabei convencendo meus amigos do grupo de ficar com esse tema. Me lembro de justificar a minha escolha com um motivo bem direto: eu não sabia NADA sobre o Haiti e queria começar a saber.

Considerei mudar de tema algumas vezes quando me deparava com a dificuldade enorme de achar bibliografia. Não tinha nada. Muitas referências sobre a primeira independência da América Latina, sobre a revolução negra, essa coisa toda linda, mas nada depois disso. Eu até brincava com os meus amigos, assim era a história do Haiti: os franceses chegaram, exploraram, teve a independência e daí teve um buraco negro histórico até a chegada tropas brasileiras lá. No fim das contas, achamos uma coisa aqui outra ali e conseguimos nos virar pra apresentar o trabalho.

Sem mais delongas chatas sobre as aventuras de um trabalho universitário, chegamos no meu Haiti. Começar a conhecer o Haiti me deixou um pouco de orgulho pela vontade que veio não sei de onde, mas também um gosto amargo. Isso porque a história do Haiti é absolutamente triste. Não é uma história deprimente feito ado Brasil… é a história de uma nação que nunca chegou a ser. Eu folheava os livros e cada página era uma derrota do povo. Foram séculos de uma exploração brutal do trabalho dos negros pelos franceses. A história linda da revolução negra que culminou na independência do país, eu descobri ser só o início da formação de uma nova elite mulata que continuaria a explorar brutalmente a maioria de camponeses negros entre indas e vindas políticas. Liberdade, no Haiti, era o privilégio de trabalhar pra si mesmo, de ser seu próprio senhor. Só que a falta total de condições de plantio criou de fato uma agricultura de miséria, menos produtiva do que a de subsistência. Ocupação americana, ditadores… derrotas, derrotas, derrotas. Foi esse o Haiti que os livros mostraram pra mim. Por sorte, pro meu alívio, também conheci um pouco um Haiti fortemente religioso, fortemente cultural. Como são pobres os imbecis que culpam o Vodu pelo terremoto…

*

É mais ou menos comum assistirmos desastres naturais ou “artificiais” nos meios de comunicação de massa. Acabamos ficando anestesiados, treinados pra sentir senão nenhuma comoção, ao menos uma bem rápida que não impeça que possamos dar audiência pra novela que se segue à notícia. “Que horror…” e toma-lhe Big Brother. Só que dessa vez o encanto falhou. Toda vez que eu ouço falar sobre o que aconteceu no Haiti, o meu coração aperta muito. Isso nunca tinha acontecido antes. Nem no Tsunami, nem no Katrina, nem nunca. O aquecimento global então é uma grande piada.

O terremoto no Haiti destruiu um país em migalhas. Parece que Deus olhou pra baixou e ficou tão deprimido com a sucessão de derrotas, tristezas e desumanidades que resolveu acabar com tudo de uma vez. Da forma mais cruel possível, aparentemente. Eu penso no Haiti e me dá vontade de fechar as cortinas. Chega, acabou, já deu. As pessoas PRECISAM parar de sofrer. É muito, é muito pesado demais, é anti-humano, é absurdo.  Aquelas pessoas merecem menos do que qualquer um (sob hipótese de que alguém merecesse) ficar presas sob escombros, vivas, durante uma semana.  Elas não merecem sofrer MAIS. Não dá, cara, eu não consigo.

*

Esse é o meu Haiti. Foi o que eu li nos livros há poucos anos atrás, terminando meu trabalho com a deprimente conclusão do autor do livro sobre o Haiti da série princípios: “nem africano, nem americano, profundamente caribenho, o Haiti ainda é somente um país, não é uma nação” (M.N. Grondin, em Haiti: Cultura, poder e desenvolvimento, 1985). Eu não faço idéia de como é o Haiti de fato, o verdadeiro Haiti, o Haiti que está lá, sob destroços. Mas de alguma forma, os dois foram esmagados feito formiguinhas pelos dedos de um deus cruel.

O que será de lá agora? É impossível imaginar. Só posso pensar no Haiti, rezar pelo Haiti.

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