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Nota sobre a eleição de Marco Feliciano (PSC) para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara

7 mar

Como era de se esperar, o pastor racista e homofóbico Marco Feliciano foi eleito hoje presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias numa sessão fechada, depois do adiamento frente às manifestações populares de repúdio que impediram a realização da eleição ontem.
A eleição do pastor foi resultado de uma manobra política ardilosa da bancada evangélica (encabeçada pelo PSC e com apoio dos partidos de direita PP, PMDB e PSDB, que cederam suas vagas na comissão para o PSC) para IMPLODIR a comissão e garantir a continuidade da desigualdade, da opressão e da violência contra as minorias no Brasil.
Esse episódio, que se trata de apenas mais um em um universo muito maior, é particularmente preocupante porque revela como o conservadorismo se incorporou ao Estado, tomando conta dos meios institucionais. E quando o povo se levanta contra ele e protesta, recorrendo a esse direito tão básico que deveria ser garantido pela democracia, o Estado recorre a uma manobra ditatorial: a reunião com portas fechadas, com seguranças na porta para impedir que o povo entre no espaço onde supostamente é representado.
Os deputados contrários à eleição de Marco Feliciano se retiraram da sessão em protesto e prometem recorrer às instâncias possíveis. Mas sabemos mais do que nunca o quanto o Estado é conservador. Eles não nos representam. Perdemos hoje pra covardia, pra ditadura e pro fundamentalismo religioso. Mas a luta não pode em absoluto parar. A CDHM não é espaço nosso; pelo contrário: atuará contra nós. Nosso espaço são as ruas, nosso poder é a luta popular. Não passarão!

II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas e uma revolução para dançar

4 dez

“Se não posso dançar, não é minha revolução”

(Emma Goldman)

No último fim de semana rolou o II Encontro Nacional das Blogueiras Feministas, dessa vez sediado em Brasília, no  Balaio Café, da querida Jul Pagul. Dessa vez, infelizmente, o número de pessoas que conseguiu participar foi menor que o do ano passado, apesar do grande aumento na quantidade de participantes na lista. Mas no fim das contas, isso possibilitou que a gente conversasse bastante entre si, aprofundasse mais as relações e tivesse mais espaço pra falar e ouvir. Como quero fazer um relato meio relatoria, pra informar a galera do grupo que não pôde estar presente no Encontro de como foi, o texto vai ficar longp (mesmo assim, constarão aqui apenas algumas questões que me chamaram mais atenção e que eu anotei no caderninho, vai ficar faltando um monte de coisa). Daí vou dividi-lo em itens pra quem estiver preguiçoso de ler tudo ir logo pro ponto que o interesse mais.

Mesa 1: Mulheres Política e Ativismo

No sábado pela manhã aconteceu a primeira mesa, que teve como convidadas a Nina, do CFEMEA, e a Cecilia, das Pretas Candangas. Eu cheguei atrasada graças ao péssimo vôo da Gol (todo mundo odiando a Gol, comigo, vamolá!) e perdi a apresentação inicial da galera e a maior parte da fala da Cecilia. Já a fala da Nina deu pra ouvir inteira e, putz, foi de se apaixonar pela moça. Ela começou dizendo que as Blogueiras Feministas exercem uma militância nova, aberta e horizontal que engloba discordâncias internas, e que nós talvez não tivéssemos muita noção da ressonância que o blog está tendo no movimento feminista mais tradicional. Animador demais pra nós um depoimento como esse! Uma questão interessante (na qual eu peguei o bonde andando, mas vale comentar) foi que parece que muitas das integrantes do Blogueiras se apresentaram como não sendo “propriamente militantes”, afirmação da qual a Nina discordou e eu também discordo com veemência. No texto sobre o encontro do ano passado, eu falei da importância da nosso auto-reconhecimento enquanto coletivo e do alcance do ativismo virtual. É fundamental lembrar que ativismo virtual não é menos concreto, não existe menos, porque seu meio é a internet. Talvez uma noção fundamental seja essa de “meio”, “veículo” através do qual podemos nos organizar de forma nova, com um alcance diferente. E está muito claro que a nossa atuação não se limita a isso. Temos nos organizado através da internet e atuado muito pra além dela. Então, pelamordedeus, nunca mais repitam que vocês não são militantes. Combinado? hehe.

Outra questão que achei fundamental na mesa da manhã foi quando a Nina disse que o movimento feminista precisa “voltar a politizar o privado”. A separação entre público e privado é uma antiga questão pras feministas que, apesar de tudo que foi feito pelo feminismo de segunda onda nas décadas de 60 e 70, não está superada. Na verdade, creio que a afirmação de que o pessoal e o privado são políticos foi incorporada da maneira mais cruel pelo sistema. Como disse o tio Foucault, o capitalismo nos diz: “Fique nu… mas seja magro, bonito, bronzeado!”. As liberdades sexuais e a autonomia das mulheres (e das pessoas, em geral) sobre seus corpos foram tiradas novamente de suas mãos e travestidas pelo capitalismo como falsas liberdades que abrigam imposições e demandas das mais violentas. É nosso desafio enquanto feministas, portanto, voltar a politizar esse privado que é político, mas que agora está todo imbricado com tabus e falso liberalismo.

Foi interessante notar o quanto a questão religiosa dominou uma mesa sobre política. Não lembro quem deixou bem explícito que, se tínhamos alguma ilusão de laicismo do Estado, era melhor abandoná-la de vez e admitir que falar de política hoje no Brasil é ter que falar também de religião. Foi colocado que é preciso reconhecer o papel simbólico que as igrejas católica e  evangélicas exercem na vida de seus fiéis, ao invés de simplesmente desqualificar a religião, e pensar de que modo podemos nos aproximar dessa realidade. Quando nos perguntamos se os movimentos sociais podem de algum modo substituir o sentimento de comunidade e pertencimento proporcionados pela Igreja, houve a observação de que enquanto a religião traz conforto, nós problematizamos a realidade, trazemos o desconforto. Em sua fala de encerramento, a Nina apontou pra associação das igrejas com o capitalismo, ultrapassando o simples fornecimento de um conforto simbólico, mas também insere o fiel na lógica do self made man religioso, bem naquela vibe “foi Jesus que me deu esse carro” dos adesivos que vemos estacionados por aí. Por fim, alguém lembrou que não é a Igreja o grande problema, mas a própria sociedade que ela reflete – uma sociedade capitalista e por isso necessariamente desigual (essa observação é bônus meu, hehe).

Também permeou essa mesa e o debate do dia seguinte, sobre as questões internas do grupo, a questão do racismo. Muito foi falado sobre isso, mas eu não anotei direito no meu caderninho porque estava prestando atenção, haha. Desculpa, gente.

Mesa 2: Identidades de gênero

Nessa mesa tivemos como convidadxs a genial Tatiana Lionço, da Cia. Revolucionária Triângulo Rosa, Lam Lam, do Conturno de Vênus e a Jaqueline de Jesus, da UnB, todxs da área de psicologia (confere, produção?). A fala da Tatiane merece um texto à parte (se tudo der certo ele aparecerá dia 19 desse mês no Blogueiras). Mas, por alto, ela bate de frente com as identidades de uma forma bastante intensa, defendendo a diferença radical em sua positividade. O problema do essencialismo das identidades é talvez uma das grandes questões dos movimentos ditos específicos, como o de mulheres, o LGBT e o anti-racista. A Tati também polemizou ao se posicionar contra a noção de ‘orientação sexual’, entendendo que ela é, sim, uma escolha, e ao dizer que o movimento trans não tem sido sensível ao fato de que pessoas cis também se sintam inadequadas em relação aos estereótipos de gênero.

No debate, ficou evidente o conflito entre a possibilidade de superar as identidades e a luta por políticas públicas para os grupos específicos. A Tati entende que as identidades têm como única função viabilizar o diálogo desses movimentos com o Estado, é só através delas que temos conseguido nos colocar nos espaços político-institucionais. Outro ponto importante dessa mesma foi a percepção da amplitude do feminismo, que não se trata apenas de um movimento social em defesa das mulheres, mas de questionamento mais amplo da estrutura patriarcal da sociedade e de uma lógica homogeneizante colocada pelo machismo.

Esse debate se estendeu muito e eu já tava cansadinha, por isso anotei menos e ouvi mais. Quem puder complementar, por favor o faça! :)

No mais:

É muito relevante nesse relato(ria) falar da festa! Mas gente, muito sucesso a feirinha, a batalha de MP3, dançar like nobody is watching e perceber o quanto além de lindas, poderosas e sensacionais, as blogueiras feministas tem um puta bom gosto musical! Pra além do aspecto lúdico, a Jeanne (vencedora da batalha da noite graças a George Michael e Cindy Lauper) fez um comentário que talvez resuma o que esse encontro representou pra mim: “Revoluções em que podemos dançar = trabalhamos”. Nosso propósito no segundo dia, onde debatemos as questões internas do coletivo, era conversar sobre problemas, conflitos e soluções pra eles, que têm rolado no grupo. E fizemos isso dedicadamente no , reforçando alguns princípios fundamentais como a autogestão, a solidariedade política, a horizontalidade das relações e a liberdade. Liberdade. Conversando com a Lia Padilha no domingo a noite, ela disse que essa é a palavra que traduz a noção de feminismo dela. E é essa a palavra que tem que ser reforçada na nossa luta, é por ela que lutamos. Não apenas contra o machismo, contra o racismo, contra qualquer tipo de opressão, mas por alguma coisa: por liberdade. Por podermos ser o que quisermos, exercer a subjetividade que nos fizer feliz. Gostaram quando eu disse, no primeiro dia, que muito mais do que uma luta em defesa das múltiplas maneiras de ser mulher, nós lutamos pela pluralidade de ser, simplesmente. De ser, de existir com liberdade. Liberdade como a que senti ao dançar “Freedom“, do George Michael, soltando todos os membros do meu corpo, com os olhos fechados. É essa a revolução que eu quero, que queremos: uma revolução livre como a dança.

Foto da Cecilia Santos.

Foto da Cecilia Santos.

Trans.

3 fev

Eu não sou uma grande fã de quadrinhos (essa provavelmente é uma maneira muito ruim de começar esse texto, mas vamos lá). Não sendo uma grande fã, não deveria fazer essa de comparação, já que nunca li e nem sei realmente do que se trata Watchmen, embora tenha visto o filme e tenha ouvido falar bastante bem da graphic novel.  Mas falo nela porque me veio à mente a alegoria de um super-herói invisível, uma espécie de personagem icônica que salva o dia, mas que o povo rejeita e acusa, por algum motivo.

Esse texto, com esse início desviante, pretende ser um texto sobre transgêneros e, mais particularmente, sobre uma pessoa que cruzou o meu caminho hoje. Eu tive que lidar diretamente, pela primeira vez, com o preconceito contra transgêneros, e senti isso profundamente – o nó no peito ainda está aqui. Há anos eu me apresento como feminista e militante do movimento LGBT, mas nunca tinha experimentado tão de perto a completa falta de aceitação e mesmo de entendimento das pessoas em relação a transgêneros. Homofobia e machismo é algo muito cotidiano pra mim, e mesmo sobre a questão trans eu já pensei bastante. Mas hoje eu percebi que a nossa sociedade confere aos transgêneros um poder especial: faz deles escandalosamente evidentes e, ao mesmo tempo, os invisibiliza. Ser um “homem vestido de mulher”, apresentar-se como mulher e mostrar um documento com nome masculino com a marca indelével do “sexo: M”, atrai olhares curiosos, questionadores, censores. Você passa e as pessoas riem, cochicham, apontam. As pessoas te humilham. Algumas pessoas até te assassinam. Só que, ao mesmo tempo, ninguém parece querer ver os transgêneros, encará-los de frente, reconhecer a sua existência no mundo e principalmente, a existência de seus direitos enquanto pessoas que fazem parte da sociedade.

Isso porque ser um transexual, pra maioria esmagadora das pessoas, é simplesmente anormal. E eu não tô falando só dos machistas xiitas militante, mas de gente “comum”, da moça da limpeza, do trocador de ônibus, do seu colega de trabalho. Eles simplesmente não conseguem olhar para um trans e ver uma pessoa, porque têm uma necessidade desesperada de classificá-lo sob o rótulo “homem” ou “mulher” (geralmente colocam sob “traveco” ou “viado”, que aparentemente não é nem uma coisa nem outra).

Hoje eu tive um grande problema porque uma trans se apresentou pra mim como mulher e, pra mim, isso basta. Me aconselharam a dizer que eu me enganei, que não percebi que “na verdade era homem”, que eu não vi o “sexo: M” no documento. Mas eu vi sim, e deixei que a pessoa fizesse tudo o que é permitido a uma mulher fazer. Porque pra mim, assim como pra ela, ela é, sim, mulher. Eu comprei uma briga perdida, porque não só pra aquelas pessoas “comuns”, mas também para o Sistema, o que importa no fim das contas é o “sexo: M”, a classificação biológica brutal. Recentemente a Argentina aprovou uma lei que permite a mudança da identidade de gênero nos documentos oficiais conforme a auto-identificação do indivíduo. No Brasil, ainda está em tramitação um projeto  de 2007, relativo à mudança de nome, mas não há nenhuma discussão substancial sobre identidade de gênero.

Enfim, o que parece é que ninguém tá realmente a fim de fazer uma discussão séria sobre transgêneros no Brasil, sobre possibilidades plurais de identidade de gênero, sobre nada disso. Mesmo na militância, o assunto é marginal. Na academia, o gênero tá lá confinado no seu guetinho, imagine se acrescido do prefixo trans-. Ninguém quer encarar, no sentindo de ficar cara a cara, olho no olho, com uma pessoa trans (uma pessoa, poxa, esqueçam o prefixo!). Encarar frente a frente ninguém quer, mas fazer piadas pelas costas é um prato cheio. Tô de saco cheio dessa história de medo do “diferente”, de transformar esse medo em risinhos, escárnio, humilhação. Vocês não percebem a falácia? O “diferente” é gente, é humano, o diferente é igual!

Para saber mais:

- Dia 29 de janeiro foi Dia da Visibilidade Trans. As Blogueiras Feministas organizaram uma blogagem coletiva sobre o tema, vale a conferida.

- Meu crossdresser e cartunista preferido, Laerte Coutinho (ou Sônia Cateruni), fala sobre o episódio em que foi impedido de usar o banheiro feminino num restaurante no Rio.

Pelo fim da violência contra quem não é o que você é.

21 set

Poucas coisas me emocionam tanto como casos de violência contra a mulher. Eu não sou gay, mas vejo nos olhos de meus amigos o mesmo sentimento. Compartilhamos esse horror, um medo profundo de ser violentado física ou sexualmente simplesmente pelo fato de ser. É até meio difícil falar sobre isso, mas é extremamente necessário. Vamos lá.

Na semana passada fiz uma aula de Krav Magá, um tipo de defesa pessoal associada ao treinamento do exército israelense (o que, como árdua defensora da Palestina me faz ser muito pouco simpática ao “esporte”), porque estava acompanhando uma amiga que treina já há seis anos. Estava lá eu, aprendendo a sair de um enforcamento ao mesmo tempo em que dava uma joelhada nos testículos do agressor (supondo que ele fosse ser homem), quando o professor comentou: “pra mulher é mais importante ainda saber fazer isso”. Com toda a boa intenção do mundo, o professor esclareceu um fato: você é uma vítima em potencial de agressão, muito mais do que seus colegas de treino, porque você é mulher. Pouco depois, assisti minha amiga treinando sair de uma posição em que um potencial estuprador estaria em cima dela. Agora me deparei com um artigo da revista Vírus Planetário sobre uma manifestação pelo fim da violência contra a mulher e essas imagens me vieram à cabeça. Eu não sei Krav Magá, e mesmo que soubesse, como a minha amiga mesmo diz, quero ver ter um estuprador em cima de você e conseguir ter frieza pra fazer os movimentos precisos como ela faz no treino. Eu não quero ter que ser faixa preta em Krav Magá pra poder caminhar pelas ruas e me sentir livre. Talvez seja difícil pra você, homem branco heterossexual de classe média, imaginar, mas nós andamos na rua, mesmo nos dias mais alegres e ensolarados, com uma vozinha no fundo do cérebro dizendo “Cuidado, ele pode ser um potencial agressor!”. Não é paranóia minha não, é sério. E, de quebra, se alguma coisa acontece, somos frequentemente culpabilizados. Quem mandou andar com essa saia? Quem mandou fazer esses trejeitos de bichinha? E quem diz isso não é só a turma dos homens brancos héteros não, também são mulheres, é o senso comum, é esse pensamento acrítico que não consegue ver o que está bem diante dos olhos.

Não podemos abrir mão da vontade de liberdade. Sorte de quem é faixa preta em Krav Magá, mas a questão estrutural é outra: é uma questão pedagógica. Existem agressores não simplesmente porque algumas pessoas são completamente malucas, mas porque o discurso social que culpabiliza a vítima, que subalterniza as mulheres, que odeia os gays é o discurso hegemônico. Temos que disputar essa hegemonia, temos que evitar que os pequenos de hoje se tornem os agressores de amanhã. Eu não quero abrir mão do sonho de liberdade.

Pra você que é do Rio, o Fórum Estadual de Combate à Violência Contra a Mulher convida a todas as interessadas para encontro, no próximo dia 06/10, às 18h, na CAMTRA-Casa da Mulher Trabalhadora, para organizar o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra Mulheres, a ser realizado em 25/11.

Guest Post: Dia da visibilidade lésbica.

29 ago

Hoje, 29 de outubro, é dia da visibilidade lésbica (você não sabia, né? sinal de que “visibilidade” é uma palavra adequada) e nós, blogueiras feministas, decidimos organizar uma blogagem coletiva sobre o tema. Eu sempre quis pedir à minha amiga Eliza Vianna um guest post sobre qualquer assunto, porque sou fã dos seus poemas e contos há tempos. Com vontade de participar da blogagem coletiva, mas sem saber precisamente o que dizer (muito do que eu quero dizer já está escrito aqui), achei que a hora era essa. Vamos ao texto!

Eu queria escrever uma história gay porque-eu-acho-que-as-pessoas-acham-que-eu-não-tenho-cara-de-gay. Não sei que cara os gays têm e também nunca perguntei a ninguém se eu tenho cara ou não. Eu queria escrever uma história com personagens gays porque eu tenho o sonho colorido de provar-para-o-mundo-preconceituoso-que-os-gays-são-iguais-a-todo-mundo e não pessoas promíscuas. Acontece que. Um, eu só sei escrever sobre sexo e ia acabar corroborando o preconceito – e fazendo as pessoas acreditarem que reside aí a minha homossexualidade (e não no meu tesão por pessoas do mesmo sexo, é claro). Dois, eu mesma não consigo desincrustar da mente a ideia de que gay é um tipo diferente de pessoa e quero construir uma história artificial, arbitrária e – o mais importante – ruim.
Por que continuo querendo escrever a minha história gay? Porque eu adoro ler, ver, ouvir ou sentir histórias gays. Porque por mais que hoje em dia todo mundo saiba que tem gay espalhado por todo o canto do mundo (apesar de nos cantos por onde eu costumo passar só ter mesmo eu), as pessoas continuam alimentando estereótipos e construindo cultura material a partir de ações afirmativas. Sabe aquele gay perfeito da novela das sete? Acaba invertendo as coisas e as pessoas passam a achar que, ao invés de aberrações, os gays são seres iluminados que enfrentam preconceito, são mais sensíveis ou mais batalhadores. Eu, particularmente, nunca enfrentei preconceito nenhum, só sofri e quase sempre fiquei na minha com medo de ser mais uma vítima do tão habitual assassinato por homofobia. Quando vejo as pessoas com esse discurso tenho vontade de dizer que existe gay vagabundo e lésbica canalha, mas sei que isso não ajuda em nada.
Entretanto, minhas páginas em branco e eu continuamos sonhando com o mundo em que as pessoas vão entender que a opção sexual não cria uma categoria diferente de seres humanos – embora tenha se desenvolvido, principalmente ao longo do século XX, um grupo com costumes parecidos que se uniu para ter voz. O chato é que muitos gays tomam para si os estereótipos achando que esse é o melhor jeito de construir uma identidade – caracterizada pela futilidade, culto à beleza e, é claro, promiscuidade.
O chato é que quando a gente é gay, a gente reconhece o próximo, o homofóbico e o enrustido, mas não pode sair por aí contando porque é quebrar a regra principal de não se meter com o armário alheio. Mas eu queria um dia que todo mundo saísse do armário só para as pessoas heteronormativas perceberem o quanto estão equivocadas.
Sonho com o mundo em que as pessoas vão achar que eu sou lésbica por me verem andar de mãos dadas por aí com a minha namorada e não por eu estar usando uma bermuda ou um vestido.

Dia do Orgulho LGBT

28 jun

 Tenho a impressão de que vivemos uma época de crise. Isso pode ser assustador, a princípio, mas são precisamente as épocas de crise que trazem no seu seio as possibilidades, a oportunidade. Faz tempo que eu não via agitação social como tenho visto nas ruas ultimamente. Isso é bom, é bonito, mas significa também que temos tido muita coisa contra o que lutar. Os ataques são muitos: aos nossos direitos, à nossa expressividade, à nossa liberdade.

Hoje é dia do orgulho LGBT e a escalada da homofobia no país e no mundo cresce como nunca. Mas, vejam, a resistência também cresce. Hoje é dia de orgulho porque estamos ocupando os espaços, estamos pautando discussões, já não queremos nem podemos nos esconder. Hoje é dia de orgulho porque a luta – luta mesmo, nessa terminologia guerreira – também está em escalada. E ouso ver no horizonte um arco-íris.

Eu digo isso tudo na primeira pessoa do plural não por fazer parte do extinto S da reformulada sigla GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), mas porque efetivamente me coloco como pertencente a esse grupo que – essa noção é fundamental aqui – não é pra ser um gueto.

Não quero negar a importância da constituição cultural e, principalmente, política de grupos humanos diversos, mas sou da opinião que a essa coisa de tolerar o outro pode ser uma operação perigosa. Não quero negar a diversidade, muito pelo contrário, mas acho que, do jeito que as coisas estão, ainda vale a pena insistir na noção de igualdade.

Eu tenho uma perspectiva bastante fluida em relação a sexualidade e gênero, como vocês podem perceber aqui e aqui e em mais tantas palavras minhas. O fundamental, entretanto, é entender que esse Outro homossexual, esse Outro mulher não residem do outro lado da moeda, no pólo oposto ao seu, cuja existência você tolera. Uma coisa que o movimento LGBT me ensinou, talvez mais até que o movimento feminista, foi a fluidez do ser humano, a sua complexidade, as possibilidades inesgotáveis e, principalmente, que não precisamos nos encerrar em nenhuma delas. Ser humano é ser possível, e assumir-se enquanto possibilidade demanda mais do que tudo coragem, e por isso mesmo gera muito orgulho.

Laerte, querido Laerte.

Esse texto é uma homenagem e um agradecimento emocionado a todos aqueles que tem que engendrar cotidianamente a coragem pra assumir suas próprias possibilidades, enfrentando um medo monstruoso não só de sair do enquandramento, mas da violência cruel da homofobia e do machismo que os espreitam.

Força.

E, quando o espetáculo da violência e da ignorância tomar seu campo de visão, lembre-se de tudo que já conquistamos, de como a luta tem crescido, pense no arco-íris no horizonte.

OBS: A primeira foto ficou sem legenda porque tá muito pequenininha, mas é da Marcha das Vadias de Belo Horizonte, e os créditos são do Túlio Vianna. Sábado que vem, dia 2, tem marcha aqui no Rio. Informe-se!

Masculino versus Feminino: psicanálise, senso comum ou fluidez?

1 jun

Arrasei no título do post, né, gente? É o academicismo tomando conta do meu ser… Também, já estraguei todo ele no comecinho do texto… Mas vamos lá. A Ludmila me recomendou essa palestra da psicanalista Maria Rita Kehl (aquela que foi demitida por ter uma opinião desviante do Estadão, lembram?) sobre os padrões de feminilidade e masculinidade, como ela mesmo chama, e sua relação com a violência doméstica, e mais um monte de coisas. A palestra tem em torno de duas horas, e embora seja super interessante, eu não consegui assistir tudo prestando toda a atenção necessária. De qualquer forma, a quase uma hora que assisti me suscitou algumas questões que sempre me perturbam o juízo, mas que  ainda não tinha sistematizado. Como fazer um texto discutindo a palestra em si seria uma parada muito longa e complicada que eu não tenho arcabouço teórico nem poder de síntese suficiente pra fazer aqui, vamos simplificar.

Esse é o "Tickle me Freud"! HAHAHA

Quando eu começo a ouvir um psicanalista falando de masculino e feminino, já começo a me coçar toda. Não se enganem, eu me amarro em psicanálise, minha melhor amiga é super freudiana e lacaniana e adoramos conversar sobre o assunto (leia-se eu pergunto e ela me ensina). Ela até me ensinou a não ser muito fã das outras linhas da psicologia e validar mesmo o trabalho da clínica psicanalítica, hehe. Então eu tenho pensado sobre Freud e psicanálise desde as aulas de filosofia do colégio até hoje, mas sempre como uma leiga intrometida e perguntadeira.

Mas então, por que minhas expressões faciais automaticamente viram caretas com as noções de homem e mulher da psicanálise? Por causa das estruturas – que a Maria Rita chama de lei de Freud, atentem. Como não quero nem sei explicar psicanálise pra ninguém, vamos dizer que, grosso modo, segundo essa perspectiva, homens teriam uma determinada estrutura psíquica e mulheres outra, admitindo-se ocasionalmente uma tendência de alguns homens pra estrutura da mulher e vice-versa. Mas, no fim das contas, dentro da neurose, mulheres são histéricas e homens, obsessivos. Acertei, Larissa?

Eu nunca consegui com isso. Sempre faço mil argumentações e a Larissa, mil relativizações, mas no fim das contas, homem é de um jeito PORQUE é homem e mulher é de outro PORQUE é mulher. Um tem pênis, outra tem vagina, e isso determina seu ser social e psíquico. Ora, eu não posso concordar, por questão de princípio, que qualquer característica psíquica, comportamental ou social seja determinada por uma condição biológica. Sou muito ciências sociais pra isso, muito feminista, muito anti-racista pra isso. Nenhuma explicação biologizante pra fenômenos sociais me convence. Quando se trata disso, sou só pós-modernidade, se vocês quiserem chamar assim.

Agora é a hora que todos os psicanalistas falam: “Aaai, que buuuurra, dá zero pra ela!”, mas, na boa, quem tiver uma explicação que me convença ou simplesmente esclareça minhas burrices, tô aceitando de bom grado.

A careta que eu faço quando isso acontece é muito similar à que me acomete quando eu ouço as frases “Hunf… Homens!”, “Mas mulher é assim mesmo…” e todas as variáveis dessas. Tipo, TODOS os meus amigos mais lindos, inteligentes, esclarecidos, marxistas, capitalistas, alienados… adoram mandar isso nas conversas. E toda vez eu tenho que fazer a pausa dramática e chata do “peraí, homens não são obrigatoriamente de um jeito e mulheres de outro”, o que é uma coisa mais ou menos óbvia pra mim. E não é que eu sempre encontro resistência? Acho que ainda não consegui convercer realmente ninguém de que as pessoas são pessoas, tem vivências singulares e não é a genitália delas que determina o comportamento diante das situações. Devo ser uma péssima feminista, tenho que rever meus métodos. Parece que essa é uma distinção básica muito importante pras pessoas, categorias sem as quais elas não conseguem entender o mundo. E isso é um problema muito sério, porque é dessa diferenciação radical entre o que pertence ao masculino e o que pertence ao feminino, esses dois grandes conjuntos que dividem a humanidade, que decorrem um mooonte de problemas e violências, tanto pra mulheres e homens (biologicamente falando). Até mesmo as discussões sobre homossexualidade, feitas da perspectiva anti-homofóbica, muitas vezes ficam presas a esse dualismo – ou você é hétero ou é gay, ou gosta de homem ou de mulher, tem que escolher pra poder assumir. E se as coisas forem mais fluidas?

Não pensem que essa minha perspectiva é consensual dentro do feminismo ou dos estudos de gênero. Esses daí tão sempre pipocando de opiniões e abordagens analíticas diferentes. Mas, cara, pra mim é isso aí: as pessoas fazem sua história, a existência delas é o que determina sua consciência, e não o corpo. Eu só quero o poder de me conceber como plural, como possibilidade. Por que insistirmos nós mesmos em amarras?

Transgeneration e transgêneros no Brasil: ninguém sabe, ninguém viu?

19 out

É difícil acreditar, mas fui supreendida, há um bom tempo atrás, pela presença de um programa interessante na tevê domingo a noite. Era o “Geração Trans” (ou Transgeneration), de 2005, que tava passando no “Pensa Nisso”, do Multishow. Esses dias, lembrei da série por motivo qualquer e descobri que os oito episódios estão no youtube (o que o Multishow comprou é o sexto) e tratei de assistir todos. E cá estou eu, recomendo enfaticamente que vocês assistam também.

A série trata de quatro jovens universitários nos Estados Unidos enfrentando seus problemas com família, academia, relacionamentos, falta de dinheiro, política… O que tem demais nisso? Tem que os quatro são transgêneros, “seja lá o que isso for”, como disse meu tio.

 

Outro filme bacana que fala de transgêneros também nos êua (esse é ficção), é o Transamérica, engraçadíssimo e super emocionante. Pena que nunca escrevi sobre ele no blog. Em compensação, tem um post sobre o maravilhoso XXY, que fala de um(?) jovem intersex (hermafrodita, pra ser terrivelmente biológico e mais entendível). Hoje tô frenética nas dicas! Voltemos ao Trasngeneration.

O fato do meu tio não ter entendido o significado de “transgênero” tem muito menos a ver com a quantidade de nomes e definições diferentes de gênero que existem, tentando dar conta de limitar uma sexualidade que pra mim é indefinível, do que com um desconhecimento e desinteresse da sociedade em geral em relação a essas pessoas. O que é transgênero, transexual, travesti? Pra maioria, é um bando de traveco que roda bolsinha nas esquinas sujas por puro desvio de caráter. É por isso que, tanto aqui no Brasil quanto nos Estados Unidos (e provavelmente no mundo todo), os transgêneros são proporcionalmente a maioria esmagadora das vítimas de violência física movida pela homofobia. Enquanto os gays, que ultrapassam 18 milhões no Brasil, representam 63% dessas vítimas,  31% são travestis, que oscilam entre 10 e 20 mil.

É nesse quadro opressivo que se evidencia a importância de documentários como esse. É claro que o corte de classe – todos são, bem ou mal, universitários nos Estados Unidos – deixa escapar questões importantes. Imagine você um transgênero fudido de grana. Como se a agonia extrema de ter nascido num gênero e identificar-se com o outro não fosse suficiente, os impedimentos pra ele são monstruosos. Se no Brasil os transgêneros são socialmente invisíveis (salvo na hora da agressão e do desdém), os transgêneros pobres são ainda menos que isso.

Eu tentei me informar sobre como andam as coisas politicamente pros transgêneros no país. Foi só agora, em 2008, que o processo transexualizador foi integrado aos serviços do SUS. E só amanhã (!) a Comissão de Direitos Humanos do legislativo vai votar o PL que permite a mudança de nome de transgêneros na certidão de nascimento. Bem, tá mais do que na hora, né? Essas medidas foram fruto de intensa mobilização do movimento LGBT, e por mais fundamentais que sejam, não impedem que os transgêneros sejam vistos na sociedade como uma piada de mal gosto. E é aí que entra a importância da luta pela criminalização da homofobia (apóie a aprovação do PCL 122/06 aqui).

Mas, sim: assistam o doc. Além de toda a militância e esclarecimento, ele é lindo. Tenho que fazer uma menção honrosa ao T.J. (Female to Male – Mulher para Homem), que putz!, é uma daquelas pessoas que dá vontade de conhecer e ser amigo. Mas eu não vou falar mais, que quero que vocês vejam tudo por si mesmos. E voltem aqui pra gente conversar! Tô carente de leitores nesse retorno do blog. =)

P.S.: Foi mal a rima tosca do título do post!

P.S. 2: Ah! Houve um reencontro dos quatro depois do sucesso do doc. Vejam depois de ver a série, né, pra não perder a graça.

Crítica: Para Wong Foo: Obrigada por tudo (1995)

2 ago

Aí vai mais uma adaptação de um trabalho que eu fiz esse semestre. Tentei evitar spoilers. Aproveitem!

Como é comum no campo da comédia, o filme Para Wong Foo: Obrigada por tudo é um palco de estereótipos. O trio de protagonistas é composto por uma drag queen branca de família rica, que faz o estilo lady recatada (Vida Boheme – Patrick Swazy), por uma negra irritadiça bem na linha “no-you-didn’t!” (Noxeema Jackson – Wesley Snipes) e por uma latina espevitada, sexualizada e abusadinha (Chi Chi Rodriguez – John Leguizamo). O cenário do filme é o estereótipo da pequena cidade do interior dos Estados Unidos, povoada por seus hillbillies (caipiras) típicos. O xerife Dollard, que persegue as meninas ao longo do filme, é, por sua vez, o retrato do policial sulista machista e ineficiente, em meio a colegas corruptos cuja atividade principal é consumir aqueles donuts horrosos.

Esse filme, a despeito de ser cativante, engraçado e aparentemente leve, dá muito o que falar. Eu escolhi por me concentrar, para a surpresa de todos, na forma com que ele trabalha com as “fronteiras” entre os gêneros e suas oscilações. Uma explicitação disso se dá no diálogo entre as protagonistas no começo da sua jornada de carro pelos EUA, quando a Noxeema define e difere  travesti (“quando um homem hétero coloca um vestido e tem um toque sensual”), transexual (“quando um homem é uma mulher presa num corpo de homem e faz a operaçãozinha”) e drag queen ( “quando um homem gay tem senso de moda demais para um gênero só”). A drag é colocada como ponto máximo a ser atingido pela jovem Chi Chi através de um processo de aprendizado de delicadez, afeto e bom gosto. Essa imagem da drag “feminilizada”, contudo, se contrasta no desenrolar do filme com momentos em que a demanda por força física e coragem, geralmente dada por conflitos homens violentos, são associadas obrigatoriamente a uma imagem maculina. Essas duas regiões simbólicas são muito bem delimitadas no filme e, a despeito do tema pretensamente gay, elas não se misturam. Quando a drag toma chá com as amigas, revoluciona seu guarda roupa ou se apaixona, ela é feminina. Mas quando enfrenta garotos agressivos e defende as amigas (frágeis, já que mulheres) dos maridos violentos, ela é homem. A peruca da drag tem que cair pra que ela possa exercer determinados papéis.

Esse filme é matéria prima pra discussão, isso sim. Não toquei nem na questão racial, que está pautada o tempo todo, só que talvez mais implicitamente. Ele levanta uma porção de questões a olhos atentos, mas não problematiza efetivamente os papéis sociais atribuídos ao feminino e ao masculino. E nem se propõe a isso. Mas que dá pra fazer pensar, dá. Além de fazer rir à beça.

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