a estimada gíria adquiriu. Então eu preciso desesperadamente falar sobre esse filme! Mas isso nem será uma crítica. É mais um desabafo mesmo.
O filme é uma adaptação de um livro que conta a história da primeira ação coletiva por assédio sexual iniciada por uma mulher, Lois Jensen (no filme, Josey Aimes), contra uma grande impresa mineradora. Eu tô aqui lendo uma ou outra crítica sobre o filme, mas só dessa vez vou deixar um pouco de lado os dados pra falar só do que vi. Esse foi um daqueles filmes que eu me emocionei mais do que o comum, me fazendo pensar se eu não tava chorando além da conta por algum motivo externo.
Assédio sexual, cara. Estupro. Discriminação, violência simbólica, física, e tudo o mais que existe de truculento nesse mundo eu vi naquela telinha hoje. A despeito de toda a trama histórica super interessante, essa não é uma daquelas histórias que te faz pensar sobriamente no lado social das coisas. É um troço que mexe com as entranhas.
Na cena imediatamente depois que a personagem da Charlize foi sexualmente agredida, ela caminhava em direção ao agressor no meio de vários funcionários da impresa. E eu fiquei tipo criança em show de fantoche, falando pra ela o que fazer. Não pude pensar em mas nada a não ser enfiar uma lâmina ultra afiada no pescoço daquele infeliz. Naquela cena eu era ela. E não tem nada de mais amargo do que ser a mulher depois do estupro.
Voltei pra casa depois do filme caminhando, conversando com a Fl
ora. Não sei, mas naquele momento falamos com muito certeza que a maior violência possível contra um ser humano é o estupro. É uma violação de tudo, do seu corpo, da sua alma, sua ética… não sei, não sei. Só pensar que isso acontece com uma pessoa me dá uma multiplicidade de nós na garganta que não dá nem pra dizer. Isso acontece, cara, isso acontece. E ainda tem gente que tem o despautério de dizer que a mulher que provoca! Cara, sinceramente! No estado que eu tô agora, cai toda a argumentação e a vontade que eu tenho é de dar um socão na cara de um infeliz desse.
Aí a gente pensa que essa “gente que fala essas coisas” está do outro lado da divisória, lá, onde estão os conservadores da ultra direitona do mal. É, pessoal… acontece que o machismo inconsequente está muito mais entranhado nas pessoas do que se imagina. Ele ri entre amigos esquerdistas num corredor de faculdade pública. E como ri. Ele caminha nas cabeças pouco reflexivas nas opiniões tão carregadas de certeza de tanta mulher que passeia por essa minha cidade. “Essa mulher com essa sainha desse tamanho… depois não sabe porque as coisas acontecem!” – tá aí. Tantas vezes em vozes amigas.
E é por essas e muitas outras que não dá pra parar de ser chata não. “Feminista sem senso de humor é foda”, mas é um tanto de piada sem graça nesse mundo… pensa só. É nas coisas mais inocentes e mais naturalizadas que a gente acaba reproduzindo as besteiras. E elas tem dimensões enormes…
Ah, sei lá. Ainda estou muito bolada. Acabei de ver um filme, comi um lanche com suco de uva com a Flora e vim direto pra cá, digitar d
esembestadamente. O filme vale muito, muito a pena. E a história a Lois também. Depois do processo, diferentemente do final bonito do filme, ela acabou se tornando uma pessoa bastante reclusa e cheia de problemas de saúde, já que o estresse pós-traumático acabou com o sistema imonológico dela. Ela disse numa entrevista à Minnesota Women’s Press:
“Existem algumas mudanças que eu gostaria de ver. Se nós pudéssemos conseguir mudanças que protejam as mulheres no sistema jurídico, isso ajudaria a todo mundo. As proteções que surgem acabam sendo derrubadas. As mulheres simplesmente apanham por tentar fazer a coisa certa e por defenderem a si ou a outros.”
Um detalhe mórbido: tente procurar “estupro” no google. E 90% dos resultados da primeira página são do tipo “cenas de estupro aqui!!!!”, “vídeos de estupro escolar” e “conto erótico: estupro não, dei porque quis!”.
Tô sem estômago pra falar mais.


Andaram dizendo: