Último trabalho da faculdade entregue = Novo Post! (um pouco relacionado à coisas faculdadescas, é claro)
Durante esse ano, por causa do meu trabalho de monitoria na faculdade de Educação da UFF, acabei participando de uma pesquisa na qual precisei fazer observação de uma turma de 5º ano num colégio estadual de Niterói, o IEPIC (espero que ninguém me processe ou algo do tipo por dizer qual foi o colégio, minha orientadora no projeto falava sempre que devemos manter o sigilo nesse casos, mas… ahn, nem vou manter). Não se preocupem, crianças, não falarei do cotidiano da escola nem da turma, mas de um episódio que a sorte me fez presenciar e que muito me incomodou.
Eu costumava ir ao colégio às terças feiras pra assistir as aulas de história, mas um dia, por algum motivo que não me lembro, acabei indo na quinta. A professora tinha esquecido de me dizer, mas toda quinta feita a polícia militar tinha 1 hora de aula com a turma, e só depois ela começava a aula de história. Ahm… Quê?! A PM tem 1 hora semanal com uma turma de 4ª série??? Pra fazer o que, meu deus?
Mais tarde, o diretor da escola me informou que o IEPIC é considerado uma área de risco social e, portanto, todos os procedimentos burocráticos do colégio tem que passar não só pelo crivo do governo do estado do Rio, mas pela autorização da PM. A Rafaela, uma menina muito fofa da turma, já tinha me contado sobre um episódio em que pessoas armadas haviam invadido a escola e que tinha sido uma tensão só. Mas voltemos ao episódio da quinta feira.
Pois bem. Entrei na sala de aula, sentei no fundo da sala como sempre e esperei. Entrou uma PM - mulher é claro, que lugar de mulher é cuidando de criança – muito bonita e simpática, com quem eu já tinha cruzado no colégio outras vezes. Ela estava fardada e, a título de observação, um policial
militar fardado está necessariamente armado. Ela distribuiu para as crianças uma apostila da PMERJ toda ilustrada e legalzinha, que, pelo que eu folheei, continha historinhas, passa-tempos e exercícios ensinando às crianças a como não ser um traficante, digo, a como ser um cidadão de bem.
Como todo mundo sabe, toda criança pobre e/ou negra e/ou favelada tem um destino iminente: se tornar bandido. E todo mundo sabe também que bandido na favela = traficante. Ora, a PMERJ, inteligentemente, resolveu cortar o mal pela raiz! Mostrar às crianças, através de uma cidadã pedagogia da repressão, o que elas podem tentar fazer pra se converterem em cidadãos do bem! Porque, assim, é claro que não é isso que vai efetivamente salvá-los, mas talvez, com sorte, daqueles 20 alunos, 3 ouçam a PM e só 17 se tornem traficantes.
Era engraçado ver como, ao contrário do comportamento que as crianças
tinham com a professora, que fazia uma linha dura e as repreendia com frequência, a hora com a policial militar era o momento que eles tinham pra não prestar a mínima atenção, pra zoar um pouquinho. E a PM, coitada, sem nenhum controle da turma e, duvido muito que com uma formação pedagógica no curso da PM, ficava falando sozinha lá na frente. Como é que dá pra salvar os pequenos marginais nessas condições? Dificulta, né, gente?
Conversei com amigos sobre essa experiência e um deles me falou sobre um colégio em São Paulo que também tinha essa relação com a polícia. Uma viatura ficava parada na porta da escola e, quando alguém fazia alguma besteira, se comportava mal, os professores mandavam os alunos não mais pra direção, mas pra se entender com a PM armada, que os ameaçava de tudo quanto é jeito. “Aqui dentro não posso te fazer nada, mas lá fora…”! Bonito de se ver.
Fui procurar no site da PM alguma coisa sobre algum projeto de educação de proto-marginais de menó, mas não tinha nada específico. A única coisa que havia era, numa listagem de atribuições da Polícia Militar, o dever de atuar “no apoio a órgãos públicos, estaduais e municipais, em atividades como ações junto à população de rua e trato com crianças e adolescentes em situação de risco social“. E que trato é esse que o Estado Policial tem com os jovens “em situação de risco social”? Considerá-los marginais a priori, bandidos em potencial, com o código genético propenso à barbárie. E dentro dos muros da escola, isso é feito com apostilinha e professora-militar, mas fora, é feito com porrada.
Tô escrevendo esse post mais numa de desabafo e de pedido de esclarecimento. Se alguém souber mais sobre esse programa da PMERJ dentro da escola, me ajudará muito contando um pouco mais. Eu achei um artigo na Fanzine Cartel do Rap, de que participam meus amigos Danilo e Mano Zeu, falando sobre o programa Patrulha Escolar, implementado em 2004 pelo governo Requião em 2004. Infelizmente o artigo não dá maiores informações sobre o programa em si, embora deixe bem explícito o caráter repressivo do programa, que bota a polícia dentro da escola.
Argh, viu.


é o Paulo Freire. Tem umas coisas que parece que a gente já nasceu sabendo. Eu não me lembro em que momento ouvi esse nome pela primeira vez, de quando associei o nome à pessoa e à obra. Parece que eu sempre soube que Paulo Freire foi um educador crítico brasileiro, vários livros, várias Pedagogia do(a) __. Paulo Freire é uma unanimidade na sociedade brasileira, ou melhor, é um consenso. Eu fico imaginando que nos gabinetes de professores das faculdades de Educação do país inteiro está lá, uma fotinho dele, uma citação dele pregada no mural, um livrinho, alguma coisa. Consenso e onipresente. Tô falando besteira, tá? Tô falando de uma impressão.
asce das relações justas, sérias, humildes, generosas, em que a autoridade docente e as liberdades dos alunos se assumem eticamente, autentica o caráter formador do espaço pedagógico” – ahm… não, é absolutamente impossível que certos professores meus tenham lido isso. Não leram! Se leram, riram, viraram a página, fecharam o livro, jogaram no lixo. E eu não estou falando de professores exautos com as péssimas condições de trabalho a que são submetidos, a quem não se pode culpar pela falta de vigor nas aulas. Tô falando de galera com doutorado, professor de faculdade, cheio de “flozô”, como diria minha avó.
Esse livro é lindo. E tem uma questão interessante pelo contexto histórico em que foi escrito – o Francisco Weffort (que escreve uma introdução maravilhosa) e o Paulo estão animadíssimos, em plena luta contra a ditadura. “O mundo não está, o mundo está sendo”; um contexto de mudanças profundas estava armado. Esse livro eu li por indicação de um professor meu, também com pós-doc, mas não tão afetado pelo “flozô”, hehe.
Ira Shor, um professor universitário norte-americano mais novinho que ele, mas muito preocupado com as reivindicações contra a desigualdade que estavam em alta nesse momento (e ainda estão) – gênero, raça, cultura. É muito legal mesmo, leve de ler por ser uma conversa, mas muito inteligente e bem feito. Também é um livro lindo, cheio de questões práticas, mas também cheio de teor ideológico, revolucionário. “O sonho é um sonho possível ou não? Se é menos possível, trata-se, para nós, de saber como torná-lo mais possível”.





Andaram dizendo: