Arquivos de etiquetas: Crítica

Crítica: Para Wong Foo: Obrigada por tudo (1995)

2 ago

Aí vai mais uma adaptação de um trabalho que eu fiz esse semestre. Tentei evitar spoilers. Aproveitem!

Como é comum no campo da comédia, o filme Para Wong Foo: Obrigada por tudo é um palco de estereótipos. O trio de protagonistas é composto por uma drag queen branca de família rica, que faz o estilo lady recatada (Vida Boheme – Patrick Swazy), por uma negra irritadiça bem na linha “no-you-didn’t!” (Noxeema Jackson – Wesley Snipes) e por uma latina espevitada, sexualizada e abusadinha (Chi Chi Rodriguez – John Leguizamo). O cenário do filme é o estereótipo da pequena cidade do interior dos Estados Unidos, povoada por seus hillbillies (caipiras) típicos. O xerife Dollard, que persegue as meninas ao longo do filme, é, por sua vez, o retrato do policial sulista machista e ineficiente, em meio a colegas corruptos cuja atividade principal é consumir aqueles donuts horrosos.

Esse filme, a despeito de ser cativante, engraçado e aparentemente leve, dá muito o que falar. Eu escolhi por me concentrar, para a surpresa de todos, na forma com que ele trabalha com as “fronteiras” entre os gêneros e suas oscilações. Uma explicitação disso se dá no diálogo entre as protagonistas no começo da sua jornada de carro pelos EUA, quando a Noxeema define e difere  travesti (“quando um homem hétero coloca um vestido e tem um toque sensual”), transexual (“quando um homem é uma mulher presa num corpo de homem e faz a operaçãozinha”) e drag queen ( “quando um homem gay tem senso de moda demais para um gênero só”). A drag é colocada como ponto máximo a ser atingido pela jovem Chi Chi através de um processo de aprendizado de delicadez, afeto e bom gosto. Essa imagem da drag “feminilizada”, contudo, se contrasta no desenrolar do filme com momentos em que a demanda por força física e coragem, geralmente dada por conflitos homens violentos, são associadas obrigatoriamente a uma imagem maculina. Essas duas regiões simbólicas são muito bem delimitadas no filme e, a despeito do tema pretensamente gay, elas não se misturam. Quando a drag toma chá com as amigas, revoluciona seu guarda roupa ou se apaixona, ela é feminina. Mas quando enfrenta garotos agressivos e defende as amigas (frágeis, já que mulheres) dos maridos violentos, ela é homem. A peruca da drag tem que cair pra que ela possa exercer determinados papéis.

Esse filme é matéria prima pra discussão, isso sim. Não toquei nem na questão racial, que está pautada o tempo todo, só que talvez mais implicitamente. Ele levanta uma porção de questões a olhos atentos, mas não problematiza efetivamente os papéis sociais atribuídos ao feminino e ao masculino. E nem se propõe a isso. Mas que dá pra fazer pensar, dá. Além de fazer rir à beça.

Crítica: XXY

28 jul

Como prometido, o post sobre XXY.

Um casal argentino tem um bebê que nasce com ambos os órgãos genitais femininos e masculinos e decide se mudar para uma cidade pequena no Uruguai para que a criança possa crescer livre da discriminação. A história do filme começa quando uma amiga de infância da mãe de Alex e seu marido, cirurgião plástico, vão visitar a família, com o objetivo de convencer o pai de Alex da importância de uma cirurgia de definição de sexo no momento em que sua sexualidade começava a “definir-se”.

A chegada do casal coincide com o momento em que, por decisão própria, Alex para de tomar os remédios que, até então, faziam com que o feminino predominasse na sua constituição corporal. Assim, a indefinição fica acentuada no momento em que os adultos discutem o destino d@ jovem (o pai de Alex agradeceria se ele pudesse usar @ como artigo definido) acerca da pergunta principal da película. Não, não é sobre por qual predominância escolher, feminino ou masculino. A questão é: Há necessidade de definir? Nas palavras de Alex: “E se não houver escolha a ser feita?”

O casal de amigos traz consigo seu filho, Álvaro, que se envolve sexualmente e afetivamente com Alex. Álvaro é a alegoria perfeita para a visão do expectador em relação a Alex. Ao chegar na casa, ele se depara com um ser estranho, chegando ao bizarro. Há fotos sombrias de Alex pela casa, bonecas deformadas no seu quarto e, de quebra, o primeiro diálogo que eles tem é sobre punheta. O garoto se assusta, desconversa, tenta se afastar, mas após o choque inicial, Alex vai se humanizando , se fragilizando e, principalmente, tornando-se encantadora pra ele. Assim também é pra quem assiste o filme: a empatia pela protagonista vai crescendo cada vez mais. Ela deixa de se tornar uma aberração pra se tornar uma adolescente (quase) comum: assustada, cheia de dúvidas. A descoberta da sexualidade por Alex não difere muito do processo doido pelo qual todo mundo passa, mas o nível de tensão chega aos píncaros por ela ser vista pela sociedade como um monstro, por ela sentir isso.

Achei o filme perfeito, no sentido de preciso. Espero que o que eu disse tenha sido o suficiente pra aguçar a vontade de vocês de assisti-lo, porque, além de ser o único jeito com que vocês vão conseguir me entender realmente, vale muito a pena como obra cinematográfica. O elenco é absurdo, e a interpretação da linda Inés Efron (Alex) é um show a parte. O Ricardo Darín (pai), mais famosinho do elenco, também manda muito bem.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.