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Meninos, eu vi.

15 abr

Eu hesitei bastante quanto a assistir ao show do Criolo ontem, na Fundição Progresso, e acabei comprando ingressos já num lote mais caro, depois de ouvir o Nó na Orelha com cuidado e perceber que valia muito trocar outras programações pra ver, ao vivo, qual era a desse cara afinal. E fui muito bem recompensada pela decisão positiva.

A noite começou bem com B-Negão e os seletores de frequência, enquanto ouvia-se o rumor de que o show do Emicida, que rolou na mesma noite na casa de show ao lado, o Circo Voador, só começaria por volta das 3h da manhã, quando o Criolo acabasse a apresentação. Fraternidade do hip hop em tempos de competição de egos no showbizz.

Por volta de 1:30h o cara entrou no palco. Uma figura de calça social e camisa brancas, com um lenço amarelo amarrado no pescoço, que depois se revelou ser uma camisa de São Jorge, me impressionou pela força da performance. Eu esperava um rapper como outros, não um Freddie Mercury da umbanda ou algo do tipo. Outra coisa absolutamente impressionante era a beleza do homem. Valham-me todos deuses, perto do Criolo todos outros homens viram moleques. Mas enfim, calores a parte, o fato é que uma energia muito poderosa tinha posse do corpo do cara. Ficamos nos perguntando porque ele estaria tão alterado, se era performance, algum tipo de energia religiosa, drogas ou emoção, pura e simples. Lançando a real: o Criolo é mesmo Doido.

A percepção de que eu tava vivendo um momento histórico “do caralho”, como repetiu o B-Negão várias vezes no show de abertura, ficou clara quando o Emicida surgiu no palco. Outro gigante da nova geração do rap que vem conquistando um espaço importante na mídia. Chato foi quando o som da Fundição, que já não era grande coisa desde o começo, desandou de vez e nós, platéia, tivemos que sinalizar pra galera do palco que não estávamos escutando nada. Criolo e banda ficaram bolados, com toda a razão, mas quando os problemas técnicos pareceram ter se acertado, o show seguiu. E seguiu pra coisa mais bonita, mais marcante, mais mágica: o surgimento de Caetano Veloso, convidado pra cantar Não existe amor em SP. Eu estava muito perto do palco, na linha de frente do microfone. Eu tava muito perto do Caetano. Aí a emoção que se acumulava no peito transbordou, me fez parar de dançar e me deixou boquiaberta, boba. Meninos, eu vi. Caetano Veloso a poucos metros de mim, velhinho, uma graça, reclamando do seu microfone que tava super baixo. Muito desrespeito, Fundição Progresso, muita irresponsabilidade. Mas, ah, que se dane, eu vi Caetano.

A platéia era uma mistura engraçada e jovem de uma galera hip hop com a usual galera cult alternativa dos meios que frequento e a média de classe era classe média. Eu fiquei achando “do caralho” ver toda aquela gente cantando apaixonadamente odes ao cabelo, ao nariz e à cor do corpo negro, cantando a vitória da favela, sampleando atitudes de amor e de igualdade, como propõe nas suas canções o Criolo. Eu fiquei pensando: isso é disputa de hegemonia. Enquanto a gente é soterrado todos os dias pela cultura hegemônica da classe dominante opressora, naquele momento essa classe média intelectualizada tava cantando a beleza e o poder dos oprimidos, dos pretos, dos favelados. Isso é ação política, ninguém coloca na minha cabeça o contrário.

Ver todo mundo levantando o punho na saudação black power e cantando os versos “não baixe a guarda, a luta não acabou” foi demais. Lindo, histórico, “do caralho”. E fundamentalmente político. Criolo, assim como toda comunidade hip hop, que parece ser um dos principais veículo cultural do movimento negro e da periferia hoje, tá de parabéns.

Trans.

3 fev

Eu não sou uma grande fã de quadrinhos (essa provavelmente é uma maneira muito ruim de começar esse texto, mas vamos lá). Não sendo uma grande fã, não deveria fazer essa de comparação, já que nunca li e nem sei realmente do que se trata Watchmen, embora tenha visto o filme e tenha ouvido falar bastante bem da graphic novel.  Mas falo nela porque me veio à mente a alegoria de um super-herói invisível, uma espécie de personagem icônica que salva o dia, mas que o povo rejeita e acusa, por algum motivo.

Esse texto, com esse início desviante, pretende ser um texto sobre transgêneros e, mais particularmente, sobre uma pessoa que cruzou o meu caminho hoje. Eu tive que lidar diretamente, pela primeira vez, com o preconceito contra transgêneros, e senti isso profundamente – o nó no peito ainda está aqui. Há anos eu me apresento como feminista e militante do movimento LGBT, mas nunca tinha experimentado tão de perto a completa falta de aceitação e mesmo de entendimento das pessoas em relação a transgêneros. Homofobia e machismo é algo muito cotidiano pra mim, e mesmo sobre a questão trans eu já pensei bastante. Mas hoje eu percebi que a nossa sociedade confere aos transgêneros um poder especial: faz deles escandalosamente evidentes e, ao mesmo tempo, os invisibiliza. Ser um “homem vestido de mulher”, apresentar-se como mulher e mostrar um documento com nome masculino com a marca indelével do “sexo: M”, atrai olhares curiosos, questionadores, censores. Você passa e as pessoas riem, cochicham, apontam. As pessoas te humilham. Algumas pessoas até te assassinam. Só que, ao mesmo tempo, ninguém parece querer ver os transgêneros, encará-los de frente, reconhecer a sua existência no mundo e principalmente, a existência de seus direitos enquanto pessoas que fazem parte da sociedade.

Isso porque ser um transexual, pra maioria esmagadora das pessoas, é simplesmente anormal. E eu não tô falando só dos machistas xiitas militante, mas de gente “comum”, da moça da limpeza, do trocador de ônibus, do seu colega de trabalho. Eles simplesmente não conseguem olhar para um trans e ver uma pessoa, porque têm uma necessidade desesperada de classificá-lo sob o rótulo “homem” ou “mulher” (geralmente colocam sob “traveco” ou “viado”, que aparentemente não é nem uma coisa nem outra).

Hoje eu tive um grande problema porque uma trans se apresentou pra mim como mulher e, pra mim, isso basta. Me aconselharam a dizer que eu me enganei, que não percebi que “na verdade era homem”, que eu não vi o “sexo: M” no documento. Mas eu vi sim, e deixei que a pessoa fizesse tudo o que é permitido a uma mulher fazer. Porque pra mim, assim como pra ela, ela é, sim, mulher. Eu comprei uma briga perdida, porque não só pra aquelas pessoas “comuns”, mas também para o Sistema, o que importa no fim das contas é o “sexo: M”, a classificação biológica brutal. Recentemente a Argentina aprovou uma lei que permite a mudança da identidade de gênero nos documentos oficiais conforme a auto-identificação do indivíduo. No Brasil, ainda está em tramitação um projeto  de 2007, relativo à mudança de nome, mas não há nenhuma discussão substancial sobre identidade de gênero.

Enfim, o que parece é que ninguém tá realmente a fim de fazer uma discussão séria sobre transgêneros no Brasil, sobre possibilidades plurais de identidade de gênero, sobre nada disso. Mesmo na militância, o assunto é marginal. Na academia, o gênero tá lá confinado no seu guetinho, imagine se acrescido do prefixo trans-. Ninguém quer encarar, no sentindo de ficar cara a cara, olho no olho, com uma pessoa trans (uma pessoa, poxa, esqueçam o prefixo!). Encarar frente a frente ninguém quer, mas fazer piadas pelas costas é um prato cheio. Tô de saco cheio dessa história de medo do “diferente”, de transformar esse medo em risinhos, escárnio, humilhação. Vocês não percebem a falácia? O “diferente” é gente, é humano, o diferente é igual!

Para saber mais:

- Dia 29 de janeiro foi Dia da Visibilidade Trans. As Blogueiras Feministas organizaram uma blogagem coletiva sobre o tema, vale a conferida.

- Meu crossdresser e cartunista preferido, Laerte Coutinho (ou Sônia Cateruni), fala sobre o episódio em que foi impedido de usar o banheiro feminino num restaurante no Rio.

O amor no tempo da madureza

8 jan

Ontem fui ao show do Chico Buarque aqui no Rio, um dos muitos que ele tá fazendo nessa turnê do novo álbum, “Chico”, de 2011. Durante o show, me peguei agradecendo a deus pela existência da Thais Gulin, sua nova namorada e musa inspiradora óbvia das últimas composições. Cheguei a comentar com minha mãe – chiquete apaixonada desde novinha – que esse álbum seria um dos melhores que ele já fez, do que ela discordou, lembrando de todas as coisas tão mais geniais que ele já compôs na vida. Talvez ela tenha razão, mas o fato é que esse álbum tem uma doçura que o distingue como conjunto do resto da obra do Chico. Não só porque é um disco de um homem apaixonado, mas porque é um disco de velhinho. Chico está com 67 anos, Thais tem 31. Esse texto não pretende fazer uma análise do álbum, coisa que o meu amigo Ivan Martins já fez muito bem aqui. Eu quero falar sobre outra coisa: sobre amor. E sobre velhinhos.

Hoje acordei cantando as músicas do novo álbum, claro, mas também pensando no Drummond. Drummond foi casado durante a maior parte da vida, mas paralelamente a isso manteve um namoro com Lygia Fernandes, companheira de trabalho, desde os 49 anos até sua morte. Lygia era vinte e cinco anos mais nova que Drummond, e foi ela a responsável por sua teorização poética em cima do “amor do tempo da madureza”, como ele chamou – ou, como eu chamo aqui, do amor de velhinho. É esse tipo de amor que veio surpreender o Chico: “não sei para que outra história de amor a essa hora”. É engraçado como as canções, além de falarem sobre encanto e a surpresa com o amor no tempo da madureza, enredam uma perspectiva marcadamente de velhinho em comparação com a juventude da amada. Não só em versos como “meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora”, de Essa Pequena, mas em expressões jovens como o “tipo assim”, em Tipo um baião, ou o “dar mole” em Se eu soubesse. Toda vez que eu ouço “Não dava mole à tua pessoa” me brota um sorriso incontrolável. Dar mole a tua pessoa é bem o símbolo do entrelaçamento encantador entre a coisa jovem com a coisa rebuscada e “antiga”, a coisa Chico Buarque.

O “Chico” tocando no player e eu revirando os livros do Drummond. O amor no tempo da madureza pode virar uma coisa só linda e doce nos versos dos mestres, mas na vida real e dura é alvo de um olho grande danado. Se é amor de homem por uma mulher mais nova é nojento: ele, um velho tarado, ela, uma mercenária. De amor de mulher mais velha por homem mais novo então, nem se fala. Até do amor entre os velhinhos o povo desconfia. Você não está mais na idade de sofrer por essas coisas! Drummond responde:

Há então a idade de sofrer
e a de não sofrer mais
por essas, essas coisas?

As coisas só deviam acontecer
para fazer sofrer
na idade própria de sofrer?

Ou não se devia sofrer
pelas coisas que causam sofrimento
pois vieram fora de hora, e a hora é calma?

E se não estou mais na idade de sofrer
é porque estou morto, e morto
é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?

(Essas coisas – C.D.A.)

Chico Buarque está vivo. Se ele soubesse, não andava na rua, não tinha amigos, não bebia… não dava mole à sua pessoa. Mas fez tudo isso, graças aos céus, e nos deu de presente um álbum maravilhoso, uma turnê generosa, novos sorrisos e alguma lágrima.  Então parem de criticar o amor dos velhinhos e torçam pra que possam ter o seu. Um beijo e um obrigada à Thais e à Lygia, que entraram na vida dos meus poetas no tempo da madureza pra enfeitar suas vidas, embaralhar seus dias e dar a eles uma perspectiva tão nova e tão mais rica sobre o amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

(Campo de Flores – C.D.A.)

10 anos sem Cássia Eller

29 dez

Faz muito tempo que eu tenho vontade de escrever um texto sobre Cássia Eller. E hoje, quando me dei conta de que fazem 10 anos da morte dela, me veio tanta coisa na cabeça que a vontade emergiu com força suficiente pra transformar-se em um post. Cássia foi, pra mim, a grande perda artística da minha geração. Também tivemos a perda dos Mamonas Assassinas, que pra muitos pode ter sido mais significativa – pra mim também é bastante – , mas eu particularmente sinto um aperto muito grande no peito ao pensar em Cássia Eller.

Minha educação musical em casa se deu por duas frentes: minha mãe, com a MPB, e meu tio, com o rock ‘n roll. Cássia figurava nas coleções de discos dos dois. Meus pais se separaram quando eu ainda era bem pequena, e uma memória muito viva que tenho é de brincar com minhas bonecas enquanto minha mãe ouvia comigo seus discos de MPB. Leila Pinheiro, Marisa Monte, Ney Matogrosso, Chico, Caetano… e, é claro, Cássia. Eu, com meus 7 anos, sabia todas as letras de cor. É engraçado me imaginar com essa idade cantando distraída “Quem sabe ainda sou uma garotinha” enquanto arrumava minhas Barbies.

Depois, entrando na adolescência, todas aquelas letras profundamente poéticas foram sendo redescobertas por mim; até hoje ainda me surpreendo com a beleza de algumas canções que já são velhas conhecidas. Com todos os favoritos da minha mãe (que se tornaram os meus) foi assim, mas Cássia tem alguma coisa… especial. O timbre mágico que povoa minhas lembranças infantis e, porque não dizer, quase toda minha vida, a personalidade magnética e meio bicho do mato ao mesmo tempo… Acho que criei uma imagem de Cássia Eller que se entrelaçou na minha própria história. E quando ela se foi tão de repente, tudo que pude fazer foi guardá-la junto com Drummond e alguns outros no meu panteão pessoal.

Assim, quando a saudade dela aperta – sim, eu sinto saudade da Cássia Eller -, tenho um lugar dentro de mim para visitar.

Lalalaiá… laiá!

2 dez

Há um antigo provérbio chinês que assim professa: “Tédio? Lista é remédio“. Na verdade eu tenho um montão de coisa pra fazer, mas ói eu aqui de novo trazendo uma lista musical com 10 itens pra vocês! Isso se tornará um hábito? Se tornará uma categoria no Ou Barbárie? Só o futuro dirá. O fato é que hoje é o dia nacional do samba (e também aniversário do meu querido Colégio Pedro II, onde todo mundo é bamba) e eu resolvi montar uma lista com 10 sambas que contenham um dos maiores pilares constitutivos do nosso querido samba: o “laiá” (não confundir com “iaiá”, outro elemento fundamental). Ao que você pode retrucar: “Pô, TODOS os sambas, né, minha filha?”, mas eu selecionei aqui algumas canções cujo laiá tenha sido marcante e que… ah, que eu tenha conseguido lembrar (depois de pedir ajuda dos universitários, João Pedro e Larissa). Laiá laiá…

1. Meu laiá raiá – Arlindo Cruz

Abrimos com uma música em que o laiá já chega chegando no título, que beleza! O destaque merecido a um elemento tão fundamental.

2. Essa melodia – Jamelão (Marisa Monte)

Essa foi a canção responsável pela idéia de fazer a lista. Uma salva de palmas virtuais à ela por causa disso! *CLAP*. Marisa Monte e Velha Guarda da Portela juntos são luz, raio, estrela e luar, né? Lindo demais.

3.  Malandro – Jorge Aragão

Nessa “pesquisa” eu me dei conta que o Jorge Aragão talvez seja o sambista que mais utilizou o artifício do laiá em toda a história do samba. TODAS as músicas dele têm um seguimento de laiá, mas essa talvez seja uma das mais marcantes.

4. Vou festejar – Jorge Aragão (Beth Carvalho)

Em geral, eu tento evitar repetir nomes, mas dessa vez não deu. Esse samba é por demais histórico. Obrigatório em todo bloco de carnaval, em toda roda de samba, em toda forra por dor de corno e até pra xingar a torcida do time adversário, possui um dos laiás mais vibrantes de todos.

5. Martim Cererê – Zé Catimba (Zeca Pagodinho)

Eu juro que tem laiá nessa música, mesmo que o seu parente lauê seja predominante. Aqui tem um vídeo bem bacana do Zé Catimba contando pro LYMDO do Diogo Nogueira como o seu papis interferiu na composição. No vídeo a seguir só tem um trecho da música, mas só esse o youtube deixava incorporar (Dona Esponja já incorporou! ) . Se quiserem ouvir toda, no próprio youtube tem a versão integral.

6. Fogo de saudade – Sombrinha (Revelação)

Essa é em homenagem ao evento off do dia, o #pagoday! Adoro essa música e todo seu quê brega, sofredor e sofisticado ao mesmo tempo. E é graças a ela o grupo Revelação pôde figuram nesta bela lista!

7.  Silêncio, tamborim – Candeia

Essa foi contribuição do meu amigo candeiéte, o João. Eu nem conhecia essa coisa linda que vem pra sofisticar o nosso humilde top 10 (que não é top, porque não hierarquiza! hehe)

8. Minha festa – Nelson Cavaquinho (Clara Nunes)

Essa música é tão linda que eu quero parar a lista aqui. Mas não vou, porque as próximas são tão espetaculares quanto. Um trizilhão de gente já a gravou, mas mando essa versão da guerreira, porque… precisa explicação?

9. O show tem que continuar – Fundo de quintal

Esse é certamente um dos laiás mais famosos de todos, que a galera canta com os bracinhos pro alto naquele feeling sambista lindão. Aliás, é uma das músicas que não pode faltar em qualquer roda de samba que se preze.

10. Poder da Criação – João Nogueira e Paulo César Pinheiro (Diogo Nogueira)

“E o povo começa a cantar: la laiá la laiá” – eis o resumo do samba, eis a importância do laiá.

Com isso, ficamos por aqui. Quero ver todo mundo indo pra rua que não é sempre que o dia do samba cai numa sexta feira. Hoje é dia de laiá!

ADENDO

Acabei de publicar o post e o Fábio me lembrou de uma que eu quase me joguei da janela por ter esquecido. Não só é uma das minhas músicas preferidas, como é de lei nas melhores rodas de samba, conhecida como o samba das cabrochas nos ensaios do Escravos da Mauá E TEM ATÉ COREOGRAFIA. Por tantos e mais outros motivos nobres, nossa lista de dez itens ganha um item a mais!

11. Mas quem disse que eu te esqueço – Dona Ivone Lara

Consciência Negra

22 nov

O guest post sobre o dia da consciência negra aqui no Ou Barbárie sai com um pequeno atraso porque eu deixei o pedido muito pra cima da hora. Mesmo assim, meu amigo Rael Fizson conseguiu rapidamente escrever esse texto forte, emocionante e, sobretudo, importante . O Rael é professor de História do estado do Rio, mestrando em História pela UFF, flamenguista e namorado da Lalá, psicanalista e minha BFF. Vamos ao texto!

*

Ao contrário do que diz nosso senso comum, nem todos em nosso país são descendentes de africanos. Com o fim do comércio atlântico e o fim legal da escravidão, vieram medidas que proibiam a entrada de africanos (mesmo que livres!) e estimulavam a entrada de imigrantes europeus em solo brasileiro.  Durante o século XX, o desenvolvimento industrial, urbano, imigrações e migrações, tornaram o Brasil em muitíssimos aspectos completamente diferente dos séculos anteriores. Hoje encontramos muitas famílias que diferem do tipo ideal brasileiro inventado em meados do século XIX, mas consagrado por Gilberto Freire (a famosa mistura entre o negro, o índio e o europeu).

Ministro Joaquim Barbosa

Muita coisa mudou. Entretanto, uma das permanências históricas que podemos traçar com segurança é a relação entre classe social e cor de pele. Óbvio que, na prática, há sempre grupos e indivíduos que garantem a exceção. Podemos citar hoje um Pelé, um Joaquim Barbosa (ministro do STF). Lá no século, XIX, o maior comerciante luso-brasileiro de escravos era o rico e poderoso Francisco Felix de Souza, pardo e escravo até os 17 anos. Seja como for, o que interessa é que, para além das exceções que confirmam a regra, o que valia para o passado vale para os dias de hoje: a relação, o estereótipo, preto-pobre e rico-branco permanece. O “racismo científico” já não existe, mas o racismo, puro e simples, ainda está aí.

Falemos do racismo que até o início do século XX tinha o status de “científico”. Pois era a ciência que acreditava e difundia certas visões dos seres humanos divididos em raça, cada qual com suas características e devidamente hierarquizados: o branco no topo e o negro na base. Portanto, mesmo que nem todos os negros fossem escravos lá no passado (e nem todos eram) e nem todos sejam pobres nos dias de hoje, todos ficaram e ficam estigmatizados. Percebam a coloração das pessoas que trabalham num canteiro de obras qualquer e compare com a das pessoas que freqüentam um restaurante no Leblon. Logo se estabelece a tal relação entre cor e classe social. Condoleezza Rice (Secretaria de Estado americana no Governo Bush Jr., negra e conservadora, como só pode ser um alto funcionário daquele fatídico governo) teve a seguinte percepção da sociedade brasileira – um pouco esquematizada e superficial demais, eu sei, mas vale a pena:

 “Durante a visita eu me surpreendi com a divisão racial no Brasil. Os brasileiros sempre sustentaram que não têm problema racial. Pareceu-me que nos serviços braçais ficam os africanos (com a pele escura); nos serviços, os mulatos (birraciais); e os funcionários do governo têm ascendência europeia/portuguesa. O Brasil foi o país mais parecido com os Estados Unidos na sua composição étnica, mas parece ter tirado pouco proveito da revolução pelos direitos civis que mudou a face da política e da sociedade americanas.”

Consciência é “conhecimento”, é a “capacidade que o homem tem de conhecer valores e mandamentos morais e aplicá-los nas diferentes situações”. Portanto, creio que seria correto afirmar que ter “consciência negra” é ter conhecimento da história do negro no Brasil, da história das relações raciais em nosso país, das condições que essa parte da população brasileira esta submetida em nossos dias e aplicar tais conhecimentos para atingir o objetivo que qualquer pessoa com pensamento humanista tem: a libertação moral e material de homens e mulheres, a justiça social, econômica e política.

Os grandes jornais cariocas parecem ter ignorado solenemente o “Dia da Consciência Negra”. Olhando alguns sites, as referências são pouquíssimas e, de modo geral, são a festas, a shows, a “representantes da cultura negra”. Vemos na cobertura de nossa grande mídia duas tendências que representam bem certa visão difundida sobre o tema:

1) O racismo não é um problema no Brasil, politicamente não há o que se comentar. Por isso parece haver um grande silêncio sobre o “Dia da Consciência Negra” em geral e sobre a temática do negro no passado e no presente. Para que falar disso, né? Seria dividir o Brasil entre negros e brancos. Seria estimular uma divisão que não existe no Brasil, apenas nos EUA e na África do Sul, correto?

2) Falar de negro no Brasil é falar apenas de cultura (em seu sentido mais estrito, claro). Portanto, o Dia da Consciência Negra, para o status quo brasileiro, não é dia de reflexão, de conhecimento sobre o negro. Não é dia de Consciência. É dia de música e de acarajé. Isso me lembra aquela velha história: negro só pode ser artistas ou esportistas. Por que projetos sociais não buscam nas favelas engenheiros, médicos, arquitetos, historiadores, físicos? Absolutamente nada contra artistas e esportistas… mas o foco quase que absoluto nessas duas áreas expõe um pressuposto implícito de que pobre/negro só é capaz de se desenvolver se for para música ou para o esporte. Afinal, o “sangue africano” é propício ao swing, a improvisação, ao ritmo, ao gingado… não à disciplina, à racionalidade, não é mesmo?

Ter “consciência negra” é ter consciência da contribuição dos indivíduos de cor negra, na maior parte da história do Brasil sob os grilhões da escravidão, deram a este país. É ter consciência de que vivemos numa sociedade de classes e branca onde o dominado é, na maioria das vezes, pobre e preto. Onde essa dominação se dá também ao nível ideológico através de certa “ideologia do branqueamento” que ensinou ao negro, como já disse Malcolm X, a odiar seu cabelo, odiar sua pele, odiar seu nariz… a se odiar como pessoa, como negro! É ter consciência de que em nossa sociedade de classes a cor da pele exerce papel fundamental na hierarquização. A cor da pele impede ou garante a aquisição de determinado emprego, a cor da pele aumenta ou diminui as chances de ser parado numa blitz, de ser suspeito de um crime. “Só quem é cego não vê”.

Imagem de divulgação do Dia da Consciência Negra em Olinda - PE. Arte: Anizio Silva/Pref.Olinda

Aproveitemos o Dia da Consciência Negra para lembrar que o Brasil não é uma “Democracia Racial”, o racismo existe e há uma intrínseca relação entre classe social e cor de pele. Para se atingir objetivos como a distribuição de qualidade de vida e de poder é inaceitável deixarmos essa perspectiva de lado.

Vale citar duas pequenas frases/refrões que são grandes contribuições a temática, de Marcelo Yuka – músico, letrista e um dos grandes cronistas da sociedade carioca da década de 1990:

“Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” & “A carne mais barata do mercado é a carne negra“.

101 anos de Rachel de Queiroz

18 nov

Ontem, dia 17 de novembro, Rachel de Queiroz faria 101 anos. Convidei minha querida amiga Natalia Guerellus, doutoranda em História Social pela UFF, pra fazer um guest post sobre ela aqui no Ou Barbárie. Natalia estuda Rachel há alguns anos e nos presenteou com esse texto maravilhoso. Deliciem-se!

*

Como membro da Academia Brasileira de Letras, Rachel de Queiroz foi velada a 04 de novembro de 2003 no Petit Trianon, situado no Centro do Rio de Janeiro. Teve morte calma e silenciosa aos 92 anos de idade, deitada na rede de seu apartamento no Leblon.

A data do velório coincidia com o 04 de novembro de 1977, data em que fora recebida na instituição carregando nas costas a importância de ser a primeira mulher a adentrar a tradicional Casa de Machado de Assis.

Ao longo do velório toma a palavra o acadêmico Alberto da Costa e Silva: “Cabe-me dizer o adeus em nome da Academia a Rachel de Queiroz. Como se fosse possível dizer adeus a Rachel de Queiroz”. E segue em tom de brincadeira: “Dela soube pela primeira vez nos distantes anos de 1937, ou 1938. Quando menino via minha mãe a ler O Quinze e a comentar com minha avó sobre aquela moça que rompia todas as convenções da pequenina e provinciana Fortaleza de minha infância e ia sozinha aos cafés e falava publicamente mal do governo”.

De fato, romper barreiras foi marca da trajetória biográfica de Rachel de Queiroz desde cedo: primeiro livro publicado aos dezenove anos; contemplada com o primeiro Prêmio Graça Aranha em 1931; dois casamentos em menos de dez anos e ainda na década de 1930 – lembrando que a lei que permitiu divórcio só foi aprovada décadas depois; membro do Partido Comunista e, posteriormente, de grupos trotskistas em São Paulo; tradutora de dezenas de romances; profissional das letras já nos anos 40; contratada por décadas pela José Olympio Editora; cronista exclusiva do O Cruzeiro; defensora polêmica da Revolução de 64; membro do Conselho Federal de Cultura desde sua fundação; representante do Brasil na ONU; mais de três mil crônicas publicadas ao longo da vida; intelectual ativa, amiga dos mais importantes nomes da cultura e da política brasileira do século XX. Ufa!

Mesmo com todo esse currículo, pouco se sabe ainda hoje sobre a trajetória da jovem jornalista e professora da Escola Normal de Fortaleza ainda nos idos dos anos 1920, antes mesmo da publicação de seu primeiro e mais conhecido romance, O Quinze (1930).

Somente com a comemoração do centenário de seu nascimento em 17 de novembro do ano passado, é que novas fontes foram descobertas e muitos documentos pessoais tem sido catalogados.

Comemoraríamos hoje os 101 anos de Rachel de Queiroz. Membro de uma tradicional família cearense, a escritora nunca escondeu a origem pertencente à linhagem dos Queiroz e dos Alencar, famílias de tradição revolucionária e intelectual.

A mãe, dona Clotilde, era uma exímia leitora de literatura nacional e internacional, assinava as Editions Plon e mantinha-se sempre informada sobre os novos escritores do Rio e de São Paulo. Machado era seu grande ídolo e passou para a filha o gosto refinado; deste escritor Rachel aprenderia muito bem, por exemplo, a utilizar o recurso da ironia.

O pai, Daniel de Queiroz, seguira a carreira jurídica, comum à elite de sua época. O trabalho possibilitou que, ainda pequena, Rachel conhecesse diferentes partes do país, como o próprio Ceará, Rio de Janeiro e Pará. Mas logo Daniel se viu insatisfeito com a prática jurídica, chegou a ensinar Geografia no Liceu até 1915 e, por fim, rendeu-se a sua grande paixão: o cuidado com a terra. Do pai, Rachel aprendeu as lições iniciais de história e geografia e as primeiras letras, além dessa mesma paixão pela terra que permaneceria uma das marcas registradas da escrita racheliana.

 Sendo assim, quando entrou para o Curso Normal do Colégio Imaculada Conceição aos dez anos de idade, os conhecimentos das áreas humanas já eram de seu completo domínio. Já Matemática e Ciências, nem pensar. O Curso Normal foi o modo de instrução formal que Rachel teve em vida.

Não por acaso, era uma das mais correntes formas de acesso à educação adotada pelas mulheres de sua época. Das poucas que sabiam ler e escrever nos anos 1930, não só em Fortaleza, mas também nas grandes capitais como Rio e São Paulo, a maior parte integrava a Escola Normal. Mesmo por isso, se profissionalizavam na área da educação, o que se adequava perfeitamente ao papel republicano da mulher cidadã.

Na escola, Rachel teve contato com as leituras típicas das mocinhas, como os livros da Bibliothèque Rose e alguns títulos que circulavam clandestinamente entre as alunas, sem que as freiras soubessem.

Mas, sob influência da mãe, muitas outras foram as leituras de Rachel de Queiroz por esta época, entre os treze e quinze anos. Em carta de 1924 à amiga de toda a vida, Alba Frota, escreveu a autora: “Ultimamente tenho lido muito. Estou me iniciando em romances; mamãe consentiu que eu lesse A Moreninha e Rosa, ambos de Macedo, conhece? Já estou muito adiantada em literatura, não achas? Quem d’antes só lia Histórias de Troncoso!”

Veja-se logo que o gosto refinado estava muito acima da média das moças de seu tempo. Talvez daí o salto dado para o jornalismo tenha sido uma opção não tão imprevisível. À mesma época, muitas outras mulheres já escreviam em periódicos e eram conhecidas em vários lugares do Brasil, como Maria Eugênia Celso, Maria Lacerda de Moura, Gilka Machado, Cecília Meireles e outras.

Conta a memória de Rachel que sua inserção oficial nos círculos literários da capital cearense deu-se por meio de uma carta sob o pseudônimo de Rita de Queluz, enviada à redação do jornal O Ceará. A carta escrita em vinte e sete de janeiro de 1927 referia-se ironicamente ao concurso Rainha dos Estudantes Cearenses, e dirigia-se à vencedora, Suzana de Alencar Guimarães, escritora local do jornal:

“Minha graciosa Majestade:

(…) Nada mais justo que o ato das classes estudiosas do Ceará, elegendo-a. Mas, agora que vais ter sobre a fronte o diadema real, pergunto-me se são de fato os parabéns que lhe devo dar. Não os acha mal cabidos, dada a atual desvalorização do sangue azul? (…) É por isso que avento a ideia de lhe mudarem o título: e em vez de ser chamada Sua Majestade Suzana I, Rainha dos Estudantes Cearenses, proclamem-na Chefe do Soviet Estudantal do Ceará

O engraçado é que a própria Rachel ganharia esse concurso no ano de 1930. Mas, ainda em 1927, não é à toa que a carta tenha feito tanto sucesso na redação de O Ceará. Além do tom jocoso e inteligente, articulando a idéia de majestade em plena década de 1920 e na vigência do regime republicano, Rita de Queluz atingiu o coração da redação.

Isto porque O Ceará fora fundado pouco tempo antes por Júlio de Matos Ibiapina, como expressão do chamado à época jornalismo independente, afastando-se dos periódicos mais partidários e opondo-se ferozmente aos periódicos católicos, como o O Nordeste.

Entre seus membros encontravam-se jornalistas empenhados em leituras socialistas, como Djacyr Menezes e Hyder Corrêa Lima, que viriam a ser amigos de Rachel. Foi nessa época que a autora afirma já ter entrado em contato com estas leituras, tendo sido já “comunizada”, antes do contato que teve em 1931 com o Partido Comunista propriamente dito.

A partir desta carta, Rachel foi chamada a participar do periódico, escrevendo crônicas e poemas para a coluna Jazz-Band e firmando contato com outros jornalistas importantes, além de começar a ganhar um ordenado razoável, de cem-mil réis por mês. Para o jornal também escreveu seu primeiro folhetim, História de um nome, que contava os caminhos percorridos pelo nome Rachel desde os antigos hebreus.

Em geral tratando de temas da época e referentes às questões regionais, os textos rachelianos deste período são os primeiros passos de uma escrita em formação. A jovem encontrou seu espaço ao ser admitida por um grupo de jornalistas e literatos que se preocupava em renovar a imprensa, incentivando a produção literária de homens e mulheres.

Rachel foi também uma das fundadoras em 1928 do jornal O Povo, de Demócrito Rocha e Paulo Sarasate. Na coluna Modernos e Passadistas divulgada aos sábados, publicou poemas, crônicas e mesmo críticas acerca das correntes modernistas em disputa nos anos 20, tendo lançado em 1929 um manifesto regionalista para a Revista Maracajá, suplemento literário do jornal. Também aí Rachel envolveu-se nas questões sociais, e travou diálogos com Lacerda de Moura em relação ao voto feminino.

Em 1930, O Povo foi o principal jornal a divulgar a venda do primeiro romance da jovem escritora: O Quinze, na Livraria Moraes por 6$000. A partir deste livro, a história do romance brasileiro sofreria benéficas inflexões.

Isto porque não só a literatura moderna estava em pauta, mas também a figura da mulher moderna, grande enigma para a sociedade brasileira de começos do século. Como uma mulher a romper as tradicionais barreiras sociais, Rachel de Queiroz juntou-se a muitas outras, mas caminhando cada vez mais na direção de sua autenticidade.

Encontro Nacional das Blogueiras Feministas e o otimismo na mala.

24 out

Mudei o layout, geeente! Brigada, Nessa Guedes, por me dar a dica simples, mas preciosa dos menus! =) Agora é vermelhou o curral, chalalalaláááá

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Como eu espero que alguns de vocês saibam, nesse fim de semana aconteceu no Instituto Rosa Luxembourg, em Pinheiros, São Paulo, o I Encontro Nacional das Blogueiras Feministas. O grupo, que nasceu como uma lista de e-mails para reunir o que pareciam ser as poucas feministas presentes na blogosfera, se desenvolveu e se afirmou, no encontro, como um coletivo político suprapartidário (mas de esquerda, tá? não sou eu quem fala, é a Simone de Beauvoir quem diz!) super plural e promissor.

“Promissor” não no sentido de que é ainda uma idéia promissora, porque nesse um ano, mesmo sem muitas de nós nos conhecermos pessoalmente – o que felizmente mudou -, o Blogueiras Feministas ganhou proporções muito bacanas e atuou pra caramba na luta pela igualdade de gênero. Eu não vou conseguir lembrar de tudo (me ajude quem puder), mas as diversas blogagens coletivas, a participação nas Marchas das Vadias em todo o país, a adesão à Frente Naciona de Luta contra a Criminalização da Mulher e pela Legalização do Aborto, o diálogo com Iriny Lopes e a SPM foram algumas das ações de sucesso citadas dessa nossa caminhada bonitona. A “promessa” está no grande otimismo que todas as participantes do encontro parecem ter levado na mala (incluo aqui as que não participaram presencialmente, mas que acompanharam por streaming), que nos deu um gás incrível pra criar novas estratégias de luta e aumentar o nosso raio de ação.

Pra mim, foi uma experiência completamente nova. Nunca havia participado de uma lista de e-mails que não fosse de algum grupo já consolidado na vida real – e certamente de nenhuma lista com essa dimensão (hoje somos cerca de 420 pessoas!). Embora já fosse claro que o Blogueiras não fosse mais simplesmente uma lista há muito tempo, foi só no encontro que caiu a minha ficha de que, caramba, esse é um coletivo político de fato. Muita gente menospreza a internet como meio de articulação política, sacaneando os “revolucionários de facebook”. Mas negar a importância capital desse mundo de comunicação é querer ser cego. A praça Tahir e a ocupação de Wall Street, para que as redes sociais tiveram importância capital, tão aí pra esfregar na cara dos céticos que a virtualidade também é material, e os movimentos sociais tradicionais precisam se apropriar dela. A internet hoje, além de lugar pra paquerar e jogar fazendinha, é um campo de disputa ideológica que nós precisamos disputar. Foi inclusive uma das nossas deliberações correr atrás de promover oficinas de blogagem pra militância “dinossaura” e pra juventude.

Eu aprendi um milhão de coisas nesse encontro, conheci um monte de gente bacana e tô animadassa. Nada como um sopro revolucionário no nosso rosto pra dar aquela revigorada e fazer querer seguir em frente. Temos muito contra que lutar, é verdade, mas também tem muita gente boa nesse mundo. E tenho a impressão de que não sou só eu que estou com esse óculos revolucionário na vista, mas que as crises também estão fazendo surgir muita movimentação interessante. Vamo que vamo, meu povo! Correr atrás do que eu quero, do que as blogueiras feministas querem: igualdade.

Algumas das mais de 400 blogueiras feministas.

Música Sensual Brasileira

22 out

Esse é um post que não tem nada ver com nenhum outro do blog inteiro e, tecnicamente, nem com o que o blog se propõe a fazer. Mas… e daí? O blog é meu, faço o que eu quiser com ele! #donodabolafeelings

Então eu tava esperando o sono chegar e, como ele aparentemente ficou preso no trânsito, resolvi fazer uma lista com 10 músicas sexies da MPB. 1) Não são AS dez músicas MAIS sexies, são as 10 músicas sexies que eu lembrei. 2) Certamente eu esqueci de várias excelentes, e é por isso que vocês vão me ajudar lembrando-as na caixa de comentários ali embaixo!

1. Sentidos – Zélia Duncan

Não precisa comentar muito essa, né? Mas eu vou comentar mesmo assim.
Essa música pra mim é demais porque é extremamente poética. E adoro a crueza do “quero os seus poros na minha pele explodindo de calor”. Sem frescura.

2. Mapa do meu nada – Cássia Eller

O “Você deduz”/”Você é dedos” já conquista no primeiro verso.
Também curto a argumentação narcisista: “não sou desses homens”, dig din dig din (menção honrosa aos Avassaladores, hehe).

3. Luz dos olhos – Nando Reis

Essa eu hesitei em botar, muito porque Nando Reis é o cara das músicas meiguinhas. Mas acabou ganhando lugar na lista por dois motivos: 1) Eu precisava completar 10 e não conseguir lembrar de nenhuma outra e 2) “Pinta os lábios para escrever a sua boca em minha” é uma coisa LINDA de morrer.

4. Fullgás – Marina Lima

“Marina Lima é sempre sexy”, disse minha amiga Camila quando eu pedi sugestões pra essa lista. Certa está ela.

5. Dois pra lá, dois pra cá – Elis Regina

Aí o público juvenil pensa: “ããihhnn, que bréégããã”. Pra quem pensou isso, penitenciai-vos! Primeiro porque bolero por si só já é sexy – não, não são só os velhinhos da terceira idade que dançam! Nada como dançar um bolero apaixonadamente. Seus bobos! E essa letra, que beira (ou ultrapassa?) a linha do cafona é pura paixão. Adoro como ela pronuncia “band aid”  nessa música (sim, uma música que fala sobre band aid pode ser sensual! hehe)

6. Sem Fantasia – Chico Buarque

Muito difícil escolher entre as músicas do Chico. E do Caetano também. Aí fiquei com essa versão, que tem os dois, olha que prático.
“Vem, mas vem sem fantasia” = Vamos direto ao ponto. Já tô indo, Chico!!!

7. Pedra, Flor e Espinho – Barão Vermelho

A letra dessa música é bastante “óbvia” no nosso assunto, mas o diferencial dela, eu acho, é esse arranjo. Esse violão da abertura, super intenso, já diz a que a música veio.

8. Deixa eu te amar – Diogo Nogueira

Aí você pode dizer “pô, Diogo Nogueira?! Mó juvena na lista super clássica!”. E eu te respondo: Essa música me dá calores. Em parte justamente porque é o Diogo Nogueira cantando. E, ah, vai, por mais homem hétero que você seja, não dá pra negar que essa música tem um belo (ai, meu coração!) de um apelo.

9. Disritmia – Martinho da Vila (aqui, com Casuarina)

Pra quem curte a voz bêbada do Martinho, desculpem. É que essa voz profunda do João mexe com meu coração leviano. Mas todos os méritos ao autor dessa letra incrível. Nem tem trecho a destacar, na boa. Deliciem-se.

10. Como dois animais – Alceu Valença

Juro que tô tentando pensar numa música brasileira mais sexy que essa e não tô conseguindo. Esse instrumental, essa letra, o fato de ser um forró… E o fato de ser uma música do Alceu Valença, com essa poesia louquinha característica dele, fazem o conjunto uma coisa fenomenal.

Dia dos professores.

15 out

Dia dos professores. Um dia para lembrarmos de todos os mestres que marcaram nossas vidas, aqueles que realmente fizeram a diferença na nossa formação. Pessoas incríveis, maravilhosas, questionadoras, pessoas que nos fazem refletir criticamente sobre coisas que jamais tínhamos pensado. Hoje é dia de agradecer, abraçar e prestar homenagens a esses professores, e também a categoria de professor, em geral. Afinal, a educação é talvez a coisa mais fundamental da nossa sociedade. É a educação que forma as gerações futuras, é através dela que se engendra a possibilidade de um futuro melhor do que esse presente que, convenhamos, não está nada bacana.

Dia do professor. Todo mundo concorda que a educação é a coisa mais importante do mundo. E o professor aparece como o grande protagonista nessa história. Você é professor? Parabéns. Parabéns pelos serviços fundamentais prestados à sociedade.

Ih… Peraí. Não entendi. Como é que pode ser consenso que a educação é a coisa mais importante, mais maravilhosa, mais fundamental dentre todas as coisas e, ao mesmo tempo, a educação ser tratada assim? Não entendi. Vai ver que o professor tem que ser um mártir. Professor tem que ser super-herói, afinal é ele que vai resgatar a nossa sociedade do caos com os super poderes da educação. E pra acrescentar ainda mais honra a essa equação, ele é um super herói marginalizado! Ele salva a vida e o mundo sem nenhum reconhecimento (além dos parabéns no dia 15 e das declarações no horário político de como educação é tudo), ganhando um salário irrisório, sem condições dignas de trabalho, sem infra-estrutura… E, é claro, sem respeito aos seus direitos políticos e – pasmem! - aos seus direitos humanos. Professor que quer condição digna de trabalho é agraciado com bomba de efeito moral. Professor que quer uma educação pública de qualidade e que, por isso, se nega a permitir a mercantilização da educação, é recompensado com perseguição política, violência psicológica e, se tiver sorte, violência física também.



Então, parabéns. Parabéns pra você que é professor e que luta. E não, professor não é pra ser mártir, não é pra ser super-herói, não é pra sacrificar sua vida em prol do Bem Maior. Professor é pra educar. E, numa sociedade em que a sua profissão representa uma ameaça direta ao sistema – e é por isso que eu a escolhi -, professor é pra lutar. Sim, porque ou você luta por mudanças, por condições dignas de trabalho e de vida, por uma educação que cumpra de fato seu papel social (e isso só é possível se ela for pública e de qualidade, na minha humilde opinião), ou você que muda de profissão. Ou ainda adota uma terceira via: se resignar, se amargurar com a sala de aula e se tornar essa sombra triste que tantos professores promissores acabaram condenados a ser.

E pra você que não é professor, fica o convite à reflexão e também – e principalmente – a ação. Professores sozinhos não fazem verão. A luta e a pressão tem que vir de toda a sociedade. Mas isso deveria ser fácil, se é consenso que a educação é a coisa mais importante do universo né? Deveria…

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