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Manuel estava errado.

1 mar

“As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.”

(Arte de amar, Manuel Bandeira)

Manuel estava errado.

E nós também temos estado.

É liberdade pôr-se a conversar
com tantos corpos quantos desejar.
É liberdade manter-se uno,
não dividir-se em mais ninguém,
trilhar o destino próprio,
não compartido,
confiando fundamentalmente na força
das suas própria pernas,
malhadas pelos tropeços,
desilusões, os percalços.

É liberdade manter-se próprio.

Os corpos conversam,
cremo-nos livres.
Mas cativo,
trancafiado no peito
permanece o coração.

Nós temos tido medo.

Medo de perder uma pretensa liberdade
que recusa ao próprio cárdio água,
comida, banhos de sol.
Raios de luz dos outros,
que nos podem tocar a pele,
mas jamais ultrapassá-la.

Temos sido capatazes cruéis.
Somos capazes de olhar
no olho do outro sem ver,
fugindo do contato,
da relação humana.

Medo por quê?
Medo de sofrer?
De comprometer-se, doar-se,
privar-se da possibilidade de conversar
com tantos corpos quantos desejar?

Não sei.
Me parece que viver só tem graça no encontro.
De corpos, sim,
mas de almas, também.

Liberdade é manter-se próprio,
trilhar destino próprio,
saber-se só na própria estrada.

Mas liberdade também é asa.

Poder caminhar lado a lado,
mergulhar no olho do outro,*
e saber se despedir,
quando houver bifurcação.

Abre a cadeia do seu coração.
Só por um pouco, pra arejar.
Olha dentro do olho do outro
e abre o peito pra ventilar.

Pra que essas pernas fortes,
esse couro duro,
a bagagem pesada,
se não pra se arriscar?

* “Amor é mergulho, queda-livre no olho do outro.” é verso de um poema da Romã Neptune, Descoberta.

Ver também: Ser romântico é ser heróico.

A Extraordinária Aventura

26 fev

Hoje farei algo que nunca fiz aqui: transcrever um poema. É um dos meus preferidos, e eu queria mandá-lo a um amigo, mas só encontro na internet a tradução dos irmãos Campos, que não gosto nada. A tradução que tenho aqui em casa é do Emilio Carrera Guerra, e tá numa antologia poética do Maiacovksi que é super difícil de encontrar. Então aí vai, especialmente pro Felipe e também pra utilidade poética pública, “A extraordinária aventura acontecida a Vladímir Maiacovski, certo verão, no campo”:

Liubliu - "Amo"

Liubliu ("Amo") - V. Maiakovski

Cem sóis flamejavam no horizonte.
O pleno verão se despejava em julho.
Um tremendo calor boiava no ar
e isto aconteceu no campo.
Puchkino tem às costas
a corcunda do Monte Akula
enquanto a seus pés
uma aldeia retorce a casaca enrugada
de seus telhados.
Atrás da aldeia havia
um buraco
onde todos os dias
lento e majestoso
o sol se escondia.
E a cada manhã
dali se levantava
rubro como sempre
para inundar o mundo.
Dia após dia
aquilo se repetia
até que acabou por me irritar
terrivelmente.
Enfim, num acesso de cólera
capaz de tudo abalar de medo,
gritei direto à cara do sol:
“Ei, tu! Desce daí!
Sai dessa cova piolhenta!”
Gritei-lhe nas bochechas:
“Tu, pedaço vagabundo
vive deitado num berço de nuvens
enquanto eu tenho que ficar
aqui sentado
seja inverno ou verão
a desenhar cartazes”.
Bradei-lhe nas barbas:
“Espera!
Escuta, seu carranca de ouro,
por que, em vez de flanar por aí,
não vens me fazer uma visitinha?”

Que fiz eu!
Agora estou frito!
Eis que
em minha direção
o sol em pessoa
avança.
Suas pernas de luz
a largos passos
marcham sobre os campos.
Fingindo nao estar assustado
ensaio a retirada.
Seus olhos agora
atingem o jardim.
Já o atravessam agora.
Através das janelas,
portas,
frestas,
penetra a massa solar.
E logo ao entrar,
recobrando o fôlego, diz
numa voz baixo-profundo:
“Pela primeira vez
desde a criação do mundo
suspendi minha função.
Tu me convidaste?
Pois então, poeta,
tomemos o chá.
E não dispenso a geléia!”
Olhos lacrimejantes -
eu estava louco de calor -
apontei-lhe o samovar:
“Bem, queira sentar-se
meu astro!”
Ah! Que diabo me fez soltar
aqueles insultos ao sol!
Encabulado
sentei-me na ponta da cadeira
com medo do que pudesse acontecer.
Mas do sol fluía uma estranha, serena luz
e dentro em pouco
já à vontade
os dois nos pusemos a conversar.
Falei-lhe de coisa e lousa
e de como a Rosta me arrasava.
Disse-me então o sol:
“Não te aflijas tanto.
Faze tudo o que te cabe.
Pensas, por acaso,
que para mim é fácil
isso de iluminar?
Experimenta e verás!
Mas, visto que assumi
o encargo de dar luz à terra,
pois então ilumino
o melhor que posso!”
E assim charlamos
até o escurecer…
perdão, até o momento
em que antes era noite.
Pois que espécie de escuridão
pode existir
quando o sol está presente?
Já agora, íntimos um do outro,
nos tuteamos familiarmente.
Já agora, amigavelmente,
dou-lhe palmadinhas nas costas.
Então disse o sol:
“Bem, cá estamos, meu velho.
Tu e eu formamos uma dupla.
Voemos, poeta,
à altura das águias.
Cantemos
para espantar as trevas do mundo.
Eu derramo luz
e tu outro tanto fazes
esparzindo teus versos”.
O muro das sombras,
prisão das noites,
tombou
ao impacto gêmeo
dos canhões solares.
Feixes de luz e versos,
brilhai quanto puderdes!
Se o outro fatiga,
e a noite pretende espichar
sua estúpida cabeça sonolenta
então compete a mim
erguer-me e brilhar
para que de novo ressoe
o carrilhão do dia.
Iluminar sempre
por toda parte,
até o último alento
iluminar!
O resto não importa.
Tal é o meu lema,
igual ao do sol.

Ser romântico é ser heróico.

11 nov

Ser romântico é ser heróico.

É heróico porque é um risco.
E deus sabe que ninguém mais quer correr risco nesse mundo.

Ninguém mais é heróico.

Ninguém mais “se declara”.
Na época da escola todo mundo se declarava.
- Ele se declarou pra ela hoje!
Ela mandou uma carta.

É coisa de criança, dizem,
sair assim, falando verdades profundas
e tão simples.

- Oi, você é bonito. Vamos dançar? Toma uma flor.

Dança, pega a flor,
Se quiser dá um beijo, se quiser fica mais.
Não quiser, vai embora, segue em frente.
Há outros beijos, outras flores a serem dançadas.

As pessoas crescem e esquecem de ser heróicas.
Não sei se por medo
ou se porque aprenderam a calcular.

Calculam risco, passos, olhares
Calculam lucro, ganho, resultado

Eu, que não sei matemática, fico perdida
e só sei o que aprendi na infância:
flor, dança
e sinceridade: objetiva e desmedida.

Se bem que ter crescido me ensinou
a tomar uns copos de coragem pra ajudar.
Porque eu cresci eu também tenho medo
- não mais aquele medo gostosinho
de quando que cê vai se declarar –
medo do cálculo, do resultado,
de quebrar a cara, medo do risco.

E deus sabe que ninguém mais quer correr risco nesse mundo.
E é por isso que é heróico arriscar.

 

Poema recuperado de uma noite já disforme

8 nov

Esse gosto tão gostoso de achar um poema antigo perdido num caderno velho. Na época, não dei nada pelos rabiscos; hoje dei uma ajeitadinha neles e lá vai:

Enquanto espero o sono
nessa noite só e quente
eu me sento na platéia
frente à tela da minha mente
e assisto ao nosso sexo.

Não me reconheço
na mulher que morde os lábios.

Te procuro no homem afoito
e só te encontro no carinho
dos meus dedos no seu cabelo.

Há uma mulher que morde os lábios
na sua cama.
Me procuro na lascívia dela
e só me encontro no desespero.

Os corpos afoitos se abraçam
como pra se engolir um ao outro
como pra se perder um no outro
pra se desfalecer pelo outro.

É o desespero o que tempera
essa noite de lua nova.
É o que molda os músculos,
o que alimenta o fogo:

o desepero de vida
o desepero de vida

Pós-modernismo

4 nov

Fila da alfândega, território internacional
(que só não é terra de ninguém
porque é reino do capital,
com o perdão da rima fácil)

Minha vida está em curso
Self em trânsito
Alma em [(re)des]construção

Na fluidez dessa jornada,
Abandono um passado triste
E se o presente é ansiedade aflitiva,
O futuro são possibilidades a que me agarro

Na fluidez dessa jornada,
Me agarro no que ainda não chegou
E entrego o corpo a um precipício suposto

Fila da alfândega, free shop
Que eu atravesso pra chegar ao meu destino

Apreensão da alfândega: apreenderem-me
Mas eu não tenho nada, não trouxe nada
Eles não podem me prender
Na transição dessa jornada

Trânsito
Curso
Transição

- meu Deus, cadê a materialidade?

Desgosto

5 out

Desgosto é uma palavra imprecisa.
Esse prefixo está errado, desgosto não é o reverso do gosto.
Desgosto tem sabor e é amargo.

“Eu nunca superei realmente nenhum dos meus relacionamentos”, disse Julie Delpy em Antes do pôr-do-sol. Ou alguma coisa por aí. Eu sei que, ao que parece, cada vez mais vai ficando difícil de acreditar realmente no amor. Eu ouço as canções de amor e acho-as ingênuas. E é triste, é triste isso de achar amar ingênuo. No sentido de “bobinho, mal sabe ele da realidade das coisas”.

Desgosto. É a palavra mais precisa pra definir o que eu sinto
e é uma palavra imprecisa.

Ele vai e volta enquanto a gente se distrai. A grande distração é se apaixonar de novo. Eu não me apaixonei, só há pequenas distrações. E aquelas velhas referências de sentido – de sentidos: tato, cheiro, gosto.

Desgosto.

Vinte anos

4 set

Hoje eu era capaz de fazer tudo!
Até de escrever um poema.

***

Quando se tem vinte anos,
não é pra se ter amargura.

Se feriu, pula no mar que logo sara
Deixa os peixes nadarem perto
Deixa o sal fazer seu trabalho

(sempre surpreende
ver peixinho em praia urbana.
Uma vez
eu me queimei com saco plástico.
Era água-viva,
que eu não tive fé que fosse)

Quando se tem vinte anos
A vida é promessa
E não há que se ter pressa de viver.

Há, sim, que se viver
Que respirar a luz do sol até o cárdio
Que refletir o azul do céu pelas retinas
E desfazer os bolinhos
de areia com os dedos
E manter sorriso e olhos bem abertos.

Sorri, que aos vinte anos
Tudo é pra ser afeto.

Recado

15 jun

Manda avisar que vou estar lá
Que eu não vou deixar de ir
Que eu não deixei de viver, não

Avisa lá que a mágoa é grande
Mas num é maior que a minha coragem
Que eu bato no peito, ó
Meu braço é forte!

Avisa a ele que pode chegar
Que eu vou esperar
Que num há fugir de mim, não

Manda avisar que a mágoa é muita
Mas num é maior que a minha raiva
Essa energia na minha veia, ó

Pode falar que eu mandei dizer
Que é desafio, ó, que eu quero ver
Ele me encarar com aquele olhar de vergonha

Manda avisar que sou sujeito homem
Que a minha saia esconde
Faca de ponta, ó

Quero ver ele aparecer
Quero ver é sangue
Quero arrancar couro

E já te digo que ele num é de nada, ó,
que me largar é fácil
o difícil
é ganhar de mim no braço.

O retorno e os demônios

17 mai

Um vento cortante
atravessa o meu corpo
e posso ver com mais clareza
os meus demônios.

Ao passo que o tempo passa,
eles crescem
em quantidade, profundeza e vigor.

A olhos desavisados
parece que me assombram,
quando de fato me protegem fiéis,
muitos, sóbrios.

Há também alguns mais novos,
sempre mais arredios,
querendo me tomar os sentidos
e desordenar tudo,
como é comum às criaturas indomadas.

Eu andava grave pelas ruas da cidade
quando a brisa fria virou uivo gelado
e revelou-me os demônios e as lágrimas.

São uma força, eu repito,
são uma força.
A raiva é uma força
e meus desgostos calejarão a minha alma.
Não há de tornar-se insensível; antes
suportará  sem sangrar novas pancadas.

Rezo,
peço aos demônios converterem-se em coragem
já que mesmo apertando os olhos e forçando bem a vista
inda não posso enxergar algum futuro de leveza.

Deve existir,
pois a vida confirmou mais uma vez ser
irritantemente cíclica.

Vou girando nos ciclos,
Colecionando demônios
E espero
E rezo
E temo
E desdenho de mim mesma ao pensar
que a ilusão vai voltar

E eu calejada,
colecionadora,
vivida
Vou embarcar mais outra vez

Mais outra vez.

morrendo um pouco

12 abr

preciso te dar um soco
ou então voltar no tempo

sendo impossível,
vou então morrer um pouco

desfalecendo em pedaços
dilacerando até o osso

quero dormir e acordar
só em agosto

não quero outro,
um novo,
não quero tempo.

quero morrer,
ressuscitar só em setembro.

quero beber,
me embriagar,
ver os ladrilhos dançando

eu quero a vida líquida
quero o meu rosto rubro

quero beber,
encaretar só em outubro

enquanto durmo,
eu bebo,
eu já nem lembro

o importante é não estar
enquanto a dor passar

eu quero sono sem sonhos,
quero vida sem desengano

janela aberta,
com flor…
quem sabe no próximo ano.

 

preciso te dar um soco

ou então voltar no tempo

 

sendo impossível,

vou então morrer um pouco

 

desfalecendo em pedaços

dilacerando até o osso

 

quero dormir e acordar

só em agosto

 

não quero outro,

um novo,

não quero tempo.

 

quero morrer,

ressuscitar só em setembro.

 

quero beber,

me embriagar,

ver os ladrilhos dançando

 

eu quero a vida líquida

quero o meu rosto rubro

 

quero beber,

encaretar só em outubro

 

enquanto durmo,

eu bebo,

eu já nem lembro

 

o importante é não estar

enquanto a dor passar

 

eu quero sono sem sonhos,

quero vida sem desengano

 

janela aberta,

com flor…

quem sabe no próximo ano.

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