Meninos, eu vi.

15 abr

Eu hesitei bastante quanto a assistir ao show do Criolo ontem, na Fundição Progresso, e acabei comprando ingressos já num lote mais caro, depois de ouvir o Nó na Orelha com cuidado e perceber que valia muito trocar outras programações pra ver, ao vivo, qual era a desse cara afinal. E fui muito bem recompensada pela decisão positiva.

A noite começou bem com B-Negão e os seletores de frequência, enquanto ouvia-se o rumor de que o show do Emicida, que rolou na mesma noite na casa de show ao lado, o Circo Voador, só começaria por volta das 3h da manhã, quando o Criolo acabasse a apresentação. Fraternidade do hip hop em tempos de competição de egos no showbizz.

Por volta de 1:30h o cara entrou no palco. Uma figura de calça social e camisa brancas, com um lenço amarelo amarrado no pescoço, que depois se revelou ser uma camisa de São Jorge, me impressionou pela força da performance. Eu esperava um rapper como outros, não um Freddie Mercury da umbanda ou algo do tipo. Outra coisa absolutamente impressionante era a beleza do homem. Valham-me todos deuses, perto do Criolo todos outros homens viram moleques. Mas enfim, calores a parte, o fato é que uma energia muito poderosa tinha posse do corpo do cara. Ficamos nos perguntando porque ele estaria tão alterado, se era performance, algum tipo de energia religiosa, drogas ou emoção, pura e simples. Lançando a real: o Criolo é mesmo Doido.

A percepção de que eu tava vivendo um momento histórico “do caralho”, como repetiu o B-Negão várias vezes no show de abertura, ficou clara quando o Emicida surgiu no palco. Outro gigante da nova geração do rap que vem conquistando um espaço importante na mídia. Chato foi quando o som da Fundição, que já não era grande coisa desde o começo, desandou de vez e nós, platéia, tivemos que sinalizar pra galera do palco que não estávamos escutando nada. Criolo e banda ficaram bolados, com toda a razão, mas quando os problemas técnicos pareceram ter se acertado, o show seguiu. E seguiu pra coisa mais bonita, mais marcante, mais mágica: o surgimento de Caetano Veloso, convidado pra cantar Não existe amor em SP. Eu estava muito perto do palco, na linha de frente do microfone. Eu tava muito perto do Caetano. Aí a emoção que se acumulava no peito transbordou, me fez parar de dançar e me deixou boquiaberta, boba. Meninos, eu vi. Caetano Veloso a poucos metros de mim, velhinho, uma graça, reclamando do seu microfone que tava super baixo. Muito desrespeito, Fundição Progresso, muita irresponsabilidade. Mas, ah, que se dane, eu vi Caetano.

A platéia era uma mistura engraçada e jovem de uma galera hip hop com a usual galera cult alternativa dos meios que frequento e a média de classe era classe média. Eu fiquei achando “do caralho” ver toda aquela gente cantando apaixonadamente odes ao cabelo, ao nariz e à cor do corpo negro, cantando a vitória da favela, sampleando atitudes de amor e de igualdade, como propõe nas suas canções o Criolo. Eu fiquei pensando: isso é disputa de hegemonia. Enquanto a gente é soterrado todos os dias pela cultura hegemônica da classe dominante opressora, naquele momento essa classe média intelectualizada tava cantando a beleza e o poder dos oprimidos, dos pretos, dos favelados. Isso é ação política, ninguém coloca na minha cabeça o contrário.

Ver todo mundo levantando o punho na saudação black power e cantando os versos “não baixe a guarda, a luta não acabou” foi demais. Lindo, histórico, “do caralho”. E fundamentalmente político. Criolo, assim como toda comunidade hip hop, que parece ser um dos principais veículo cultural do movimento negro e da periferia hoje, tá de parabéns.

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7 Respostas para “Meninos, eu vi.”

  1. Belinha 15/04/2012 às 15:03 #

    Sim! Ele eé um intelectual em Gramsci! srsrrs

  2. flaviavianna3hist 15/04/2012 às 16:54 #

    E eu pensava que só eu achava esse homem lindo…

  3. Laíza 23/04/2012 às 22:52 #

    Olá Bárbara, tudo bem?
    Você poderia me passar o seu email pra eu lhe enviar uma proposta do meu fanzine.

    Abraços.
    cinisca@gmail.com

    Laíza

  4. Bruna Fernandez 04/05/2012 às 17:25 #

    “Do caralho” é muito pouco. Esse cara é algo indiscritivel. E sim, qualquer homem aos pés dele é um “muleque”.

    • Vadio 02/06/2012 às 20:22 #

      A “Marcha das Vadias”, comentada, através de um conto, baseado em fatos reais, pelo ângulo masculino de quem foi nela, pelos motivos errados: obrigadopelavisita.blogspot.com

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  1. Gramsci, Portelli e Criolo: uma anedota sobre intelectuais e pobreza « …ou barbárie. - 10/12/2012

    [...] verdade, quem gosta de miséria é intelectual, e falou disso pro velho Gramsci.[3] O que espantou Criolo foi que o velho afirmou, com um sorriso doce estampado, que todo mundo ali naquele bar era [...]

  2. Gal « …ou barbárie. - 27/01/2013

    [...] aqueles muito mais que ídolos, que estão numa categoria à parte: Paul McCartney, Chico Buarque, Caetano Veloso, Alanis Morissette. Mas ontem… ontem eu vi a maior. Aquela cuja voz encarna a essência do [...]

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