“As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.”
(Arte de amar, Manuel Bandeira)
Manuel estava errado.
E nós também temos estado.
É liberdade pôr-se a conversar
com tantos corpos quantos desejar.
É liberdade manter-se uno,
não dividir-se em mais ninguém,
trilhar o destino próprio,
não compartido,
confiando fundamentalmente na força
das suas própria pernas,
malhadas pelos tropeços,
desilusões, os percalços.
É liberdade manter-se próprio.
Os corpos conversam,
cremo-nos livres.
Mas cativo,
trancafiado no peito
permanece o coração.
Nós temos tido medo.
Medo de perder uma pretensa liberdade
que recusa ao próprio cárdio água,
comida, banhos de sol.
Raios de luz dos outros,
que nos podem tocar a pele,
mas jamais ultrapassá-la.
Temos sido capatazes cruéis.
Somos capazes de olhar
no olho do outro sem ver,
fugindo do contato,
da relação humana.
Medo por quê?
Medo de sofrer?
De comprometer-se, doar-se,
privar-se da possibilidade de conversar
com tantos corpos quantos desejar?
Não sei.
Me parece que viver só tem graça no encontro.
De corpos, sim,
mas de almas, também.
Liberdade é manter-se próprio,
trilhar destino próprio,
saber-se só na própria estrada.
Mas liberdade também é asa.
Poder caminhar lado a lado,
mergulhar no olho do outro,*
e saber se despedir,
quando houver bifurcação.
Abre a cadeia do seu coração.
Só por um pouco, pra arejar.
Olha dentro do olho do outro
e abre o peito pra ventilar.
Pra que essas pernas fortes,
esse couro duro,
a bagagem pesada,
se não pra se arriscar?
—
* “Amor é mergulho, queda-livre no olho do outro.” é verso de um poema da Romã Neptune, Descoberta.
Ver também: Ser romântico é ser heróico.


Me arrisco a comentar, simploriamente: lindo.