Arquivos | fevereiro, 2012

A Extraordinária Aventura

26 fev

Hoje farei algo que nunca fiz aqui: transcrever um poema. É um dos meus preferidos, e eu queria mandá-lo a um amigo, mas só encontro na internet a tradução dos irmãos Campos, que não gosto nada. A tradução que tenho aqui em casa é do Emilio Carrera Guerra, e tá numa antologia poética do Maiacovksi que é super difícil de encontrar. Então aí vai, especialmente pro Felipe e também pra utilidade poética pública, “A extraordinária aventura acontecida a Vladímir Maiacovski, certo verão, no campo”:

Liubliu - "Amo"

Liubliu ("Amo") - V. Maiakovski

Cem sóis flamejavam no horizonte.
O pleno verão se despejava em julho.
Um tremendo calor boiava no ar
e isto aconteceu no campo.
Puchkino tem às costas
a corcunda do Monte Akula
enquanto a seus pés
uma aldeia retorce a casaca enrugada
de seus telhados.
Atrás da aldeia havia
um buraco
onde todos os dias
lento e majestoso
o sol se escondia.
E a cada manhã
dali se levantava
rubro como sempre
para inundar o mundo.
Dia após dia
aquilo se repetia
até que acabou por me irritar
terrivelmente.
Enfim, num acesso de cólera
capaz de tudo abalar de medo,
gritei direto à cara do sol:
“Ei, tu! Desce daí!
Sai dessa cova piolhenta!”
Gritei-lhe nas bochechas:
“Tu, pedaço vagabundo
vive deitado num berço de nuvens
enquanto eu tenho que ficar
aqui sentado
seja inverno ou verão
a desenhar cartazes”.
Bradei-lhe nas barbas:
“Espera!
Escuta, seu carranca de ouro,
por que, em vez de flanar por aí,
não vens me fazer uma visitinha?”

Que fiz eu!
Agora estou frito!
Eis que
em minha direção
o sol em pessoa
avança.
Suas pernas de luz
a largos passos
marcham sobre os campos.
Fingindo nao estar assustado
ensaio a retirada.
Seus olhos agora
atingem o jardim.
Já o atravessam agora.
Através das janelas,
portas,
frestas,
penetra a massa solar.
E logo ao entrar,
recobrando o fôlego, diz
numa voz baixo-profundo:
“Pela primeira vez
desde a criação do mundo
suspendi minha função.
Tu me convidaste?
Pois então, poeta,
tomemos o chá.
E não dispenso a geléia!”
Olhos lacrimejantes -
eu estava louco de calor -
apontei-lhe o samovar:
“Bem, queira sentar-se
meu astro!”
Ah! Que diabo me fez soltar
aqueles insultos ao sol!
Encabulado
sentei-me na ponta da cadeira
com medo do que pudesse acontecer.
Mas do sol fluía uma estranha, serena luz
e dentro em pouco
já à vontade
os dois nos pusemos a conversar.
Falei-lhe de coisa e lousa
e de como a Rosta me arrasava.
Disse-me então o sol:
“Não te aflijas tanto.
Faze tudo o que te cabe.
Pensas, por acaso,
que para mim é fácil
isso de iluminar?
Experimenta e verás!
Mas, visto que assumi
o encargo de dar luz à terra,
pois então ilumino
o melhor que posso!”
E assim charlamos
até o escurecer…
perdão, até o momento
em que antes era noite.
Pois que espécie de escuridão
pode existir
quando o sol está presente?
Já agora, íntimos um do outro,
nos tuteamos familiarmente.
Já agora, amigavelmente,
dou-lhe palmadinhas nas costas.
Então disse o sol:
“Bem, cá estamos, meu velho.
Tu e eu formamos uma dupla.
Voemos, poeta,
à altura das águias.
Cantemos
para espantar as trevas do mundo.
Eu derramo luz
e tu outro tanto fazes
esparzindo teus versos”.
O muro das sombras,
prisão das noites,
tombou
ao impacto gêmeo
dos canhões solares.
Feixes de luz e versos,
brilhai quanto puderdes!
Se o outro fatiga,
e a noite pretende espichar
sua estúpida cabeça sonolenta
então compete a mim
erguer-me e brilhar
para que de novo ressoe
o carrilhão do dia.
Iluminar sempre
por toda parte,
até o último alento
iluminar!
O resto não importa.
Tal é o meu lema,
igual ao do sol.

Trans.

3 fev

Eu não sou uma grande fã de quadrinhos (essa provavelmente é uma maneira muito ruim de começar esse texto, mas vamos lá). Não sendo uma grande fã, não deveria fazer essa de comparação, já que nunca li e nem sei realmente do que se trata Watchmen, embora tenha visto o filme e tenha ouvido falar bastante bem da graphic novel.  Mas falo nela porque me veio à mente a alegoria de um super-herói invisível, uma espécie de personagem icônica que salva o dia, mas que o povo rejeita e acusa, por algum motivo.

Esse texto, com esse início desviante, pretende ser um texto sobre transgêneros e, mais particularmente, sobre uma pessoa que cruzou o meu caminho hoje. Eu tive que lidar diretamente, pela primeira vez, com o preconceito contra transgêneros, e senti isso profundamente – o nó no peito ainda está aqui. Há anos eu me apresento como feminista e militante do movimento LGBT, mas nunca tinha experimentado tão de perto a completa falta de aceitação e mesmo de entendimento das pessoas em relação a transgêneros. Homofobia e machismo é algo muito cotidiano pra mim, e mesmo sobre a questão trans eu já pensei bastante. Mas hoje eu percebi que a nossa sociedade confere aos transgêneros um poder especial: faz deles escandalosamente evidentes e, ao mesmo tempo, os invisibiliza. Ser um “homem vestido de mulher”, apresentar-se como mulher e mostrar um documento com nome masculino com a marca indelével do “sexo: M”, atrai olhares curiosos, questionadores, censores. Você passa e as pessoas riem, cochicham, apontam. As pessoas te humilham. Algumas pessoas até te assassinam. Só que, ao mesmo tempo, ninguém parece querer ver os transgêneros, encará-los de frente, reconhecer a sua existência no mundo e principalmente, a existência de seus direitos enquanto pessoas que fazem parte da sociedade.

Isso porque ser um transexual, pra maioria esmagadora das pessoas, é simplesmente anormal. E eu não tô falando só dos machistas xiitas militante, mas de gente “comum”, da moça da limpeza, do trocador de ônibus, do seu colega de trabalho. Eles simplesmente não conseguem olhar para um trans e ver uma pessoa, porque têm uma necessidade desesperada de classificá-lo sob o rótulo “homem” ou “mulher” (geralmente colocam sob “traveco” ou “viado”, que aparentemente não é nem uma coisa nem outra).

Hoje eu tive um grande problema porque uma trans se apresentou pra mim como mulher e, pra mim, isso basta. Me aconselharam a dizer que eu me enganei, que não percebi que “na verdade era homem”, que eu não vi o “sexo: M” no documento. Mas eu vi sim, e deixei que a pessoa fizesse tudo o que é permitido a uma mulher fazer. Porque pra mim, assim como pra ela, ela é, sim, mulher. Eu comprei uma briga perdida, porque não só pra aquelas pessoas “comuns”, mas também para o Sistema, o que importa no fim das contas é o “sexo: M”, a classificação biológica brutal. Recentemente a Argentina aprovou uma lei que permite a mudança da identidade de gênero nos documentos oficiais conforme a auto-identificação do indivíduo. No Brasil, ainda está em tramitação um projeto  de 2007, relativo à mudança de nome, mas não há nenhuma discussão substancial sobre identidade de gênero.

Enfim, o que parece é que ninguém tá realmente a fim de fazer uma discussão séria sobre transgêneros no Brasil, sobre possibilidades plurais de identidade de gênero, sobre nada disso. Mesmo na militância, o assunto é marginal. Na academia, o gênero tá lá confinado no seu guetinho, imagine se acrescido do prefixo trans-. Ninguém quer encarar, no sentindo de ficar cara a cara, olho no olho, com uma pessoa trans (uma pessoa, poxa, esqueçam o prefixo!). Encarar frente a frente ninguém quer, mas fazer piadas pelas costas é um prato cheio. Tô de saco cheio dessa história de medo do “diferente”, de transformar esse medo em risinhos, escárnio, humilhação. Vocês não percebem a falácia? O “diferente” é gente, é humano, o diferente é igual!

Para saber mais:

- Dia 29 de janeiro foi Dia da Visibilidade Trans. As Blogueiras Feministas organizaram uma blogagem coletiva sobre o tema, vale a conferida.

- Meu crossdresser e cartunista preferido, Laerte Coutinho (ou Sônia Cateruni), fala sobre o episódio em que foi impedido de usar o banheiro feminino num restaurante no Rio.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.