Arquivos | dezembro, 2011

10 anos sem Cássia Eller

29 dez

Faz muito tempo que eu tenho vontade de escrever um texto sobre Cássia Eller. E hoje, quando me dei conta de que fazem 10 anos da morte dela, me veio tanta coisa na cabeça que a vontade emergiu com força suficiente pra transformar-se em um post. Cássia foi, pra mim, a grande perda artística da minha geração. Também tivemos a perda dos Mamonas Assassinas, que pra muitos pode ter sido mais significativa – pra mim também é bastante – , mas eu particularmente sinto um aperto muito grande no peito ao pensar em Cássia Eller.

Minha educação musical em casa se deu por duas frentes: minha mãe, com a MPB, e meu tio, com o rock ‘n roll. Cássia figurava nas coleções de discos dos dois. Meus pais se separaram quando eu ainda era bem pequena, e uma memória muito viva que tenho é de brincar com minhas bonecas enquanto minha mãe ouvia comigo seus discos de MPB. Leila Pinheiro, Marisa Monte, Ney Matogrosso, Chico, Caetano… e, é claro, Cássia. Eu, com meus 7 anos, sabia todas as letras de cor. É engraçado me imaginar com essa idade cantando distraída “Quem sabe ainda sou uma garotinha” enquanto arrumava minhas Barbies.

Depois, entrando na adolescência, todas aquelas letras profundamente poéticas foram sendo redescobertas por mim; até hoje ainda me surpreendo com a beleza de algumas canções que já são velhas conhecidas. Com todos os favoritos da minha mãe (que se tornaram os meus) foi assim, mas Cássia tem alguma coisa… especial. O timbre mágico que povoa minhas lembranças infantis e, porque não dizer, quase toda minha vida, a personalidade magnética e meio bicho do mato ao mesmo tempo… Acho que criei uma imagem de Cássia Eller que se entrelaçou na minha própria história. E quando ela se foi tão de repente, tudo que pude fazer foi guardá-la junto com Drummond e alguns outros no meu panteão pessoal.

Assim, quando a saudade dela aperta – sim, eu sinto saudade da Cássia Eller -, tenho um lugar dentro de mim para visitar.

2012: como se fosse o último.

27 dez

2012 ficou famoso como o ano em que o mundo acaba, segundo o calendário maia. Sobrevivemos a muitas ameaças de apocalipse ao longo do tempo e acredito que dessa vez não será diferente. Mas fica sempre essa atmosfera de fim do mundo, mesmo que de brincadeirinha. E é por isso que eu desejo que você viva 2012 como se fosse o último ano da sua vida. Só que a minha filosofia de carpe diem tem suas especificidades, então lá vou eu explicar.

O que você faria se só tivesse mais um ano de vida? Mais uma semana, um dia? Em geral, as respostas que brotam na cabeça diante desse tipo de pergunta são uma lista de tudo que você sempre quis fazer, mas ainda não fez. Uma correria, uma urgência de cumprir tudo o que você adiou até hoje, por preguiça ou por medo das consequências. Falar umas verdades pra aquele cara, beijar aquela menina, pular de bungee jumping, correr pelado na chuva cantando, aprender a tocar gaita, conhecer Macchu Picchu, pular de bungee jumping pelado na chuva em Macchu Picchu enquanto toca gaita…

Não que essas coisas todas não devam ser feitas, realizar sonhos é fundamental. Mas esse desespero que acompanha a urgência de cumprir obrigações, ter que dar tempo de fazer tudo antes do apocalipse, pode te fazer perder as coisas realmente importantes. “Obrigação” e “carpe diem” devem estar em campos semânticos diferentes. Aproveitar 2012 como se fosse o último não é correr. Pra isso já houve todos os outros anos, com suas obrigações e prazos. Viver um ano, um dia como se fosse o último é sorver cada gota do sabor de cada coisa. Apreciar o tempo livre de preguiça no sofá num dia chuvoso de domingo. Experimentar o gosto da hesitação, do medo, das vontades reprimidas… e então a delícia de seguir um impulso, ir lá e fazer.  É se arrepender também, por que não? Errar, ficar puto, aprender, tentar outra vez e se ferrar de novo, às vezes. Cada situação tem um gosto particular que deve ser apreciado. Inclusive a tristeza, a solidão, a inércia. Eu não quero viver meu último ano numa eterna rave, numa alegria vidrada, ação 24 horas por dia. Quero chorar olhando pela janela do ônibus, lembrando daquele dia. Sentir o gosto da lágrima na minha boca e esquecer da lembrança, porque a lágrima é salgada e me faz pensar sobre isso. Because the sky is blue, it makes me cry.

Viver 2012 como se fosse o último ano da sua vida não é viver com pressa. É viver com gosto, com gostos, lembrando que a vida é sabor tutti-fruti e, se agora tá com gosto de “eca”, daqui a pouco pode ter gosto de algodão doce, e vice-versa. Prove cada momento com a atenção que lhe é devida, porque se você optar pelo desespero de viver, cada segundo que você não estiver saltando de bungee jumping vai lhe parecer um desperdício de vida. E, nessa percepção, toda a vida que estiver ao seu redor num momento aparentemente ordinário, essa sim será desperdiçada. Aproveite os momentos calmos, os momentos de alegria extrema, os engraçados, os tristes e os tediosos. Isso se chama equilíbrio – conceito que pode parecer clichê, mas que vale evocar nessa nossa geração Rivotril.

Viva 2012 como se fosse o último. E, no mais, boa sorte, pra que os momentos doces superes os amargos. :)

Lalalaiá… laiá!

2 dez

Há um antigo provérbio chinês que assim professa: “Tédio? Lista é remédio“. Na verdade eu tenho um montão de coisa pra fazer, mas ói eu aqui de novo trazendo uma lista musical com 10 itens pra vocês! Isso se tornará um hábito? Se tornará uma categoria no Ou Barbárie? Só o futuro dirá. O fato é que hoje é o dia nacional do samba (e também aniversário do meu querido Colégio Pedro II, onde todo mundo é bamba) e eu resolvi montar uma lista com 10 sambas que contenham um dos maiores pilares constitutivos do nosso querido samba: o “laiá” (não confundir com “iaiá”, outro elemento fundamental). Ao que você pode retrucar: “Pô, TODOS os sambas, né, minha filha?”, mas eu selecionei aqui algumas canções cujo laiá tenha sido marcante e que… ah, que eu tenha conseguido lembrar (depois de pedir ajuda dos universitários, João Pedro e Larissa). Laiá laiá…

1. Meu laiá raiá – Arlindo Cruz

Abrimos com uma música em que o laiá já chega chegando no título, que beleza! O destaque merecido a um elemento tão fundamental.

2. Essa melodia – Jamelão (Marisa Monte)

Essa foi a canção responsável pela idéia de fazer a lista. Uma salva de palmas virtuais à ela por causa disso! *CLAP*. Marisa Monte e Velha Guarda da Portela juntos são luz, raio, estrela e luar, né? Lindo demais.

3.  Malandro – Jorge Aragão

Nessa “pesquisa” eu me dei conta que o Jorge Aragão talvez seja o sambista que mais utilizou o artifício do laiá em toda a história do samba. TODAS as músicas dele têm um seguimento de laiá, mas essa talvez seja uma das mais marcantes.

4. Vou festejar – Jorge Aragão (Beth Carvalho)

Em geral, eu tento evitar repetir nomes, mas dessa vez não deu. Esse samba é por demais histórico. Obrigatório em todo bloco de carnaval, em toda roda de samba, em toda forra por dor de corno e até pra xingar a torcida do time adversário, possui um dos laiás mais vibrantes de todos.

5. Martim Cererê – Zé Catimba (Zeca Pagodinho)

Eu juro que tem laiá nessa música, mesmo que o seu parente lauê seja predominante. Aqui tem um vídeo bem bacana do Zé Catimba contando pro LYMDO do Diogo Nogueira como o seu papis interferiu na composição. No vídeo a seguir só tem um trecho da música, mas só esse o youtube deixava incorporar (Dona Esponja já incorporou! ) . Se quiserem ouvir toda, no próprio youtube tem a versão integral.

6. Fogo de saudade – Sombrinha (Revelação)

Essa é em homenagem ao evento off do dia, o #pagoday! Adoro essa música e todo seu quê brega, sofredor e sofisticado ao mesmo tempo. E é graças a ela o grupo Revelação pôde figuram nesta bela lista!

7.  Silêncio, tamborim – Candeia

Essa foi contribuição do meu amigo candeiéte, o João. Eu nem conhecia essa coisa linda que vem pra sofisticar o nosso humilde top 10 (que não é top, porque não hierarquiza! hehe)

8. Minha festa – Nelson Cavaquinho (Clara Nunes)

Essa música é tão linda que eu quero parar a lista aqui. Mas não vou, porque as próximas são tão espetaculares quanto. Um trizilhão de gente já a gravou, mas mando essa versão da guerreira, porque… precisa explicação?

9. O show tem que continuar – Fundo de quintal

Esse é certamente um dos laiás mais famosos de todos, que a galera canta com os bracinhos pro alto naquele feeling sambista lindão. Aliás, é uma das músicas que não pode faltar em qualquer roda de samba que se preze.

10. Poder da Criação – João Nogueira e Paulo César Pinheiro (Diogo Nogueira)

“E o povo começa a cantar: la laiá la laiá” – eis o resumo do samba, eis a importância do laiá.

Com isso, ficamos por aqui. Quero ver todo mundo indo pra rua que não é sempre que o dia do samba cai numa sexta feira. Hoje é dia de laiá!

ADENDO

Acabei de publicar o post e o Fábio me lembrou de uma que eu quase me joguei da janela por ter esquecido. Não só é uma das minhas músicas preferidas, como é de lei nas melhores rodas de samba, conhecida como o samba das cabrochas nos ensaios do Escravos da Mauá E TEM ATÉ COREOGRAFIA. Por tantos e mais outros motivos nobres, nossa lista de dez itens ganha um item a mais!

11. Mas quem disse que eu te esqueço – Dona Ivone Lara

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