Nossa senhora do Rosário
Oi, Saravá São Benedito
Nossa senhora do Rosário, aê!
(Jongo de Abertura)
Nos últimos três dias (de sexta a domingo), eu fui a um lugar mágico, onde o tempo passa de um jeito diferente. Chama-se Quilombo São José da Serra, e o motivo da viagem foi um projeto do curso de História Oral que eu tô fazendo esse semestre na UFF. A UFF, aliás, tem uma relação interessante com o Quilombo; muito trabalho de pesquisa é feito lá, então eles já nos conhecem bem. O Quilombo, aliás, fica cada dia mais pop, e o número de visitantes aumenta a cada festa realizada na comunidade.

O Quilombo São José fica no distrito de Santa Izabel, em Valença, no Rio. Pra quem não sabe, essa região é conhecida como Vale do Paraíba, uma das principais regiões cafeeiras do Brasil escravista, onde até hoje predominam grandes propriedades que cercam o Quilombo São José, numa história de conflito de terras bem complicada. Felizmente, a titulação da terra, garantida pela lei de 1988, que prevê isso para de comunidades remanescentes de quilombos, está aprovada e deve ser assinada pelo Governo Federal até o fim do ano.
Eu fui lá pela primeira vez, embora boa parte da turma já tivesse ido na festa do 13 de maio desse ano, data na qual eu fiquei doente e em casa, emburrada da vida por não poder ir. Mas dessa vez a situação foi muito diferente. A turma preparou um projeto de pesquisa de História Oral e a idéia era que cada um de nós entrevistasse uma pessoa, a partir dos mesmo
objetivos, para depois analisarmos conjuntamente as entrevistas e as comparássemos. Assim, fomos lá num fim de semana comum da vida da comunidade, sem festa, sem protocolo, só cotidiano. E outra: fomos lá pra mais do que “oi! entrevista! tchau!”, como parece ser o mais comum. A gente conheceu o pessoal da comunidade, dançou, fofocou, tomou cachaça, jogou bola, zoou junto. Eles mesmo sentiram essa diferença de qualidade na relação, e comentaram com a gente.
Uma das coisas que mais me preocupava nessa visita – e nessa pesquisa – era essa coisa do pessoal ser sempre “objeto de estudo”. Imagina que a sua comunidade, e mais, a sua casa, é ponto turístico pra antropólogo e historiador. E há uma certa cultura de tradição, que tem que ser
constantemente reafirmada. Imagino que nem sempre o pessoal esteja na pilha de dançar jongo, por exemplo. Será que isso não se transforma numa espécie de obrigação? Será que todo mundo ama o jongo? Essa é uma questão que vamos tentar responder a partir da análise das entrevistas.
Com isso na cabeça, eu fiquei meio sem jeito no começo, pensando toda hora se nós não estávamos invadindo um pouco a intimidade das pessoas. E como no primeiro dia tinha pouca gente no Quilombo, porque os adultos estava pra cidade trabalhando, ficou um clima meio que de corrida por um entrevistado, o que me deixou desconfortável e um pouco nervosa. Mas o engraçado foi que, a despeito de todo o meu incômodo, o pessoal do Quilombo não parecia nem um pouco incomodados, muito pelo contrário. Eles estavam tranquilos e alegres,
nervosa era só eu. Fiquei pensando se isso era só porque eles já estavam acostumados com visitas. Talvez sim, mas só costume era muito pouca explicação pra tanta leveza. Afinal, eu posso estar aconstumada a encherem meu saco, mas não vou ficar sorrindo pelos cantos enquanto fazem isso.
No sábado, fizemos uma trilha até o Jequitibá, árvore que o pessoal diz ser o “pai” da comunidade, um símbolo, porque os fazendeiros já tentaram
derrubá-lo de tudo que foi jeito e ele continua lá, lindão, fortão e fazendo uma espécie de caverna com os galhos entrelaçados, o que faz dele também um lugar espiritual. No caminho pro Jequitibá, passamos na casa da Mãe Tetê, uma senhorinha que é hoje a líder espiritual da comunidade. Ela é irmã do seu Toninho Canecão, a principal liderança da comunidade e presidente da Associação dos Moradores. Aliás, ele foi o meu entrevistado, o que vai me dar um trabalho sinistro pra estudar, porque vai ter um discurso político bem articulado assim não sei onde!
Pois bem, Mãe Tetê nos levou pra conhecer o terreiro dela, que fica atrás da casa. Termino esse post com um trecho do meu caderno de campo, falando sobre essa visita, que deu resposta à minha dúvida sobre o incômodo que poderíamos estar causando.
Da casa da Mãe Tetê fomos pro terreiro. Era uma casinha de barro e pau-a-pique com um anexozinho de tijolo, que é novo. Era muito bonito por dentro. O teto estava repleto de bandeirinhas coloridas pra festa de São Cosme e São Damião. Era pequetitinho, não deve ser tanta gente por cerimônia, não dá espaço. Os banquinhos eram todos baixos, e um adeles tinha uma bengala de madeira do lado. Dona Tetê chamou atenção de que não poderíamos sentar naquele, e eu concluí que ali era o lugar do Preto Velho. Ela nos falou sobre o terreiro e outras coisas, contou que Mãe Zeferina [mãe da Dona Tetê e grande líder espiritual da comunidade] mandava recados pra ela, e que noite passada havia sonhado com um vestido de noiva que se desfazia em sangue, o que significava que alguém noivo corria perigo. Disse també que Mãe Zeferina tinha dito que éramos todos boas pessoas, que éramos de bem. Naquele momento eu acho que entendi o problema do incômodo. Não era questão de costume com pesquisadores e turistas, a questão é que ela sabia que éramos de bem e que poderia confiar em nós. Assim, não há incômodo, não há desconfiança. É religião, é verdade.
Há grandes chances dos próximos posts serem sobre a experiência em São José. Vivi muita coisa bonita, ainda há muito o que contar. E muitas fotos pra receber, já que minha máquina quebrou no início da viagem… Mas deu tempo de gravar isso:
finalmente Up. Acho que não vai ficar mais muitas semanas em cartaz, inclusive porque tá estreando muita coisa lontante (=que lota) ultimamente, dentre as quais alguns filmes de animação 3D.
comprido, que entra pelo peito do espectador, puxa lá de dentro sentimentos improváveis para o instante em que ele vive e faz com que emerjam de uma forma muito limpa, muito clara. Foi assim na primeira cena de Bastardos Inglórios, longa, tensa, de tal modo que eu saí de dentro do universo do filme pra notar que meu coração batia tanto que parecia estar a ponto de pular pela minha garganta. E foi assim com Up. Uma das primeiras cenas, em que o Senhor Friederickson se assusta com a sua própria rabugisse e se esconde dentro de casa, lá foi a mão-cinematográfica dentro do meu peito puxar um nó na garganta que se desfez em lágrimas. Isso porque eu me relaciono terrivelmente com aquela cena – acho que muita gente se relaciona – e não esperava algo assim de um cartum. Ok, o velhinho e o menino, balões e aventura, mas não uma análise tão profunda e ao mesmo tempo límpida de questões humanas como aquela.
“Emocionante” é uma palavra maxi-batida, mas é ela que melhor verbaliza o que eu achei do filme. Grandes questões sobre as relações humanas, resolvidas da forma mais poética possível: no céu, penduradas por um fio… a balões. É uma constante no filme inteiro o perigo de cair e morrer, achei engraçado sentir uma tensão como essa numa animação. E, pensando agora, faz o todo o sentido, numa metáfora genial, encoberta de filme-de-criança:
na berlinda no filme, tanto pro Senhor Friederickson, principalmente, quanto para o Russel, o cachorro Doug e até pro explorador-do-zeppelin. Enfrentar seus fantasmas de frente têm encargos: a sensação de suspensão, de perigo, o medo constante de cair, a necessidade de coragem e de simplesmente não olhar pra baixo. 
é o Paulo Freire. Tem umas coisas que parece que a gente já nasceu sabendo. Eu não me lembro em que momento ouvi esse nome pela primeira vez, de quando associei o nome à pessoa e à obra. Parece que eu sempre soube que Paulo Freire foi um educador crítico brasileiro, vários livros, várias Pedagogia do(a) __. Paulo Freire é uma unanimidade na sociedade brasileira, ou melhor, é um consenso. Eu fico imaginando que nos gabinetes de professores das faculdades de Educação do país inteiro está lá, uma fotinho dele, uma citação dele pregada no mural, um livrinho, alguma coisa. Consenso e onipresente. Tô falando besteira, tá? Tô falando de uma impressão.
asce das relações justas, sérias, humildes, generosas, em que a autoridade docente e as liberdades dos alunos se assumem eticamente, autentica o caráter formador do espaço pedagógico” – ahm… não, é absolutamente impossível que certos professores meus tenham lido isso. Não leram! Se leram, riram, viraram a página, fecharam o livro, jogaram no lixo. E eu não estou falando de professores exautos com as péssimas condições de trabalho a que são submetidos, a quem não se pode culpar pela falta de vigor nas aulas. Tô falando de galera com doutorado, professor de faculdade, cheio de “flozô”, como diria minha avó.
Esse livro é lindo. E tem uma questão interessante pelo contexto histórico em que foi escrito – o Francisco Weffort (que escreve uma introdução maravilhosa) e o Paulo estão animadíssimos, em plena luta contra a ditadura. “O mundo não está, o mundo está sendo”; um contexto de mudanças profundas estava armado. Esse livro eu li por indicação de um professor meu, também com pós-doc, mas não tão afetado pelo “flozô”, hehe.
Ira Shor, um professor universitário norte-americano mais novinho que ele, mas muito preocupado com as reivindicações contra a desigualdade que estavam em alta nesse momento (e ainda estão) – gênero, raça, cultura. É muito legal mesmo, leve de ler por ser uma conversa, mas muito inteligente e bem feito. Também é um livro lindo, cheio de questões práticas, mas também cheio de teor ideológico, revolucionário. “O sonho é um sonho possível ou não? Se é menos possível, trata-se, para nós, de saber como torná-lo mais possível”.


Andaram dizendo: