Com uma alfinetada,
ele abriu os olhos.
Acordou de súbito,
sentindo, num susto,
correntes nos pés.
“Malditas correntes!
me prendem,
me impedem
de chegar ao sol.
Eu hei de voar
mais alto que as coisas,
pra longe do mundo.
No ar rosicler
da aurora macia,
eu vou comungar
com a poesia
brilhante que abriga-se
na plenitude.”
Outra alfinetada.
As nuvens nos olhos
dissiparam todas
e Ícaro acordou
de fato.
“Malditas correntes!
Mas… de onde vêm?”
Procurando, atento,
a origem da algema
achou, com espanto,
seu próprio poema.
“Esse brilho aqui embaixo,
esse tom rosicler
são os mesmos do sonho
que eu mesmo teci!”
O sol que dourava
os cabelos de Ícaro,
o sol que ficava
mais alto que o além,
o sol desejado
a ser atingido
era o sol que prendia
os seus pés no chão.
“Não…”
O sonho de Ícaro
lhe era corrente.
“Meu sol, meu destino,
é o que me prende.”
Nos olhos de Ícaro,
o tempo fechou.
Veio tempestade
de raio e trovão.
“Meu sonho querido
esse tempo todo
me puxou pra baixo.”
A chuva passou.
O tempo parou de passar
pra dar lugar à questão:
“Como partir a corrente?
Esqueço meu sonho
e ando pra frente?
Como partir a corrente?”
Foi quando o tempo parado
deu voz ao sonho que é astro.
O sol fervente e brilhoso
falou sua palavra a Ícaro:
“Não deves que esquecer de mim.
Não podes negar-te a ti mesmo.
Mas pára de olhar o teu sonho
e olha pro sol de verdade,
comunga a poesia verdade.
Assim, construirás no dentro
do teu próprio ser e à tua volta
a aurora rosicler e doce,
fazendo das coisas mais plenas.”
Ícaro, então, decidido,
obedeceu do sol o esquema:
soltou dos seus pés as correntes
e fez da realidade um poema.


Andaram dizendo: