Arquivos | setembro, 2008

O Sonho de Ícaro

21 set

Com uma alfinetada,
ele abriu os olhos.
Acordou de súbito,
sentindo, num susto,
correntes nos pés.

“Malditas correntes!
me prendem,
me impedem
de chegar ao sol.

Eu hei de voar
mais alto que as coisas,
pra longe do mundo.
No ar rosicler
da aurora macia,
eu vou comungar
com a poesia
brilhante que abriga-se
na plenitude.”

Outra alfinetada.
As nuvens nos olhos
dissiparam todas
e Ícaro acordou
de fato.

“Malditas correntes!
Mas… de onde vêm?”

Procurando, atento,
a origem da algema
achou, com espanto,
seu próprio poema.

“Esse brilho aqui embaixo,
esse tom rosicler
são os mesmos do sonho
que eu mesmo teci!”

O sol que dourava
os cabelos de Ícaro,
o sol que ficava
mais alto que o além,
o sol desejado
a ser atingido
era o sol que prendia
os seus pés no chão.

“Não…”

O sonho de Ícaro
lhe era corrente.

“Meu sol, meu destino,
é o que me prende.”

Nos olhos de Ícaro,
o tempo fechou.
Veio tempestade
de raio e trovão.

“Meu sonho querido
esse tempo todo
me puxou pra baixo.”

A chuva passou.
O tempo parou de passar
pra dar lugar à questão:

“Como partir a corrente?
Esqueço meu sonho
e ando pra frente?

Como partir a corrente?”

Foi quando o tempo parado
deu voz ao sonho que é astro.
O sol fervente e brilhoso
falou sua palavra a Ícaro:

“Não deves que esquecer de mim.
Não podes negar-te a ti mesmo.
Mas pára de olhar o teu sonho
e olha pro sol de verdade,
comunga a poesia verdade.
Assim, construirás no dentro
do teu próprio ser e à tua volta
a aurora rosicler e doce,
fazendo das coisas mais plenas.”

Ícaro, então, decidido,
obedeceu do sol o esquema:
soltou dos seus pés as correntes
e fez da realidade um poema.

Valha-me o samba!

11 set

Ao amigo Felipe Duque (o Valença!)

A tristeza
é senhora.
Bamba que é bamba
também chora.

Malandro molha a navalha
com sangue de nêgo besta,
suor de muito trabalho
e orvalho que cai dos olhos.

Valha-me o samba!
Que a tristeza não me vale
se não vira poesia.

Um nêgo de verde e rosa
me cravou no peito um espinho:
“Ouça me bem, amor,
o mundo é um moinho”.

A viola do Paulinho
me cantou um fim de amor.
Mas de repente “Portela!”
uma voz anunciou.

A dor no samba é assim:
Bate coração no surdo
Chora o couro da cuíca
Cavaquinho encanta a alma
e a tristeza se transmuta.

Encham-se os copos!
Pra dor, no samba, se sorri.
Dancem os corpos!
Deixem de lado o baixo astral!
Samba, morena…
que eu não vim só pra assistir.
Valha-me o samba!
Me fez da vida carnaval.

O que faz dos heróis heróicos.

5 set

Anoitece na metrópole.

As luzes da cidade
iluminam o caos instaurado.

Ladrões de bolsa de velhinha,
Ladrões de banco encapuzados,
Ladrões de beijo de mocinha,
Ladrões da calma da cidade.

Nosso herói suspira:
hora da lida outra vez.

O caso da noite
é dos mais difíceis:
ele vai de encontro
a um ladrão roubado.

Mira seu alvo
numa janela:

Linda.
Pele dourada e macia,
os olhos rasos d’água.

Ele vai até ela,
olha em seus olhos aguados
e usa seu poder:

cede a ela coragem
pra que possa, sozinha,
ir atrás do seu ladrão.

Vê então
nos olhos castanhos
a coragem heróica
que até então
tinha lhe faltado.

Ela vai,
seu ladrão à espera.

Ela tomará pra si
o coração do gatuno,
já que ele
lhe havia furtado
o seu próprio cárdio.

Ela vai,
e nosso herói fica.

Suspira
e observa ir embora
a ladra que vai roubar ladrão.

Uma ladra
da pior espécie,
porque despreza
o que roubou.
Grandioso tesouro,
valiosíssima carga:
o coração do herói,
mal-amado, amargo.

Nosso herói suspira:
ser heróico
cansa o sujeito…

Não temer, ser bravo,
quase sempre
implica perder.

Mas ele é herói,
e vai em frente!

Não temendo a morte,
vai temer solidão?

Não!

Ser herói
é endireitar o mundo.

Libertar
quem é preso.
Encorajar
onde há medo.
Nem que pra tal
seja preciso
findar o próprio sorriso
no processo.

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