A memória da minha avó e os grossos lençóis da ditadura militar.

Hoje é aniversário de um golpe. Um acontecimento que freou um processo de ampliação da democracia no nosso país (a despeito do que alguns dizem). É difícil não pensar “Como seria se…?”.

Hoje tomei café da manhã com minha avó. Comentei algo sobre a exposição sobre os 50 anos do golpe que está rolando no CCBB-RJ e ela disse, como quem busca a resposta para uma pergunta, que gostaria de ir. Respondi que, pra ela, seria difícil; é muito tempo em pé (ela tem 84 anos e alguns problemas de saúde característicos da velhice que a impedem de fazer certas coisas). Ela lamentou, e se pôs a contar uma história.

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A culpa não é das mulheres. A culpa é sua.

“Eu não mereço ser estuprada”.

A frase apareceu nos últimos dias nas redes sociais, em postagens de mulheres horrorizadas com o resultado da pesquisa realizada pelo IPEA.

“Eu não mereço ser estuprada”.

Fotos com rostos sérios de mulheres; de uma seriedade doída e corajosa, condizente com o teor da frase.

Pensei se talvez eu devesse fazer o mesmo, me juntar ao protesto, fazer ecoar a resposta coletiva. Mas eu não quero só dizer “eu não mereço”.

a culpa não é das mulheres.

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Um drops de esperança:

“I believe in earning one’s own way
but I also believe in the unexpected gift.”

(Charles Bukowski)

Eu nunca gostei muito desse negócio de esperança. A esperança é a última que morre. Então, coitada, espera, espera, vê os amigos todos morrendo e acaba morrendo sozinha, de solidão, de esperar. Esperança é verde, é bonito, todos tem, todos recomendam, a esperança estampa camisas. Mas de esperar mesmo ninguém gosta. Pra mim esperar soa muito passivo, esperar soa como torcer pra que as coisas aconteçam sem de fato fazer nada pra isso.

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Eu nasci branca ou Me dijeron negra: um ensaio sobre interseccionalidade

Eu nasci branca.

Branca do cabelo enroladinho, de classe média, moradora do Grajaú e logo logo da Zona Sul do Rio, filha única com tevê só pra ela no quarto.

Minha mãe, uma morena dos cabelos cacheados longos, pretos, a boca pintada de vermelho e um sorriso sedutor. Meu pai era branco. Os pais dele também. Mas os pais dele não eram de classe média, eram pobres. Eu sabia pelas diferenças que eram bem claras pros olhos observadores de criança. A viagem pra casa deles era longa. A rua deles era de terra, o muro deles era daquele cimento espetado que sempre me arranhou muito. O cachorro deles comia comida de gente (o resto da nossa), arroz, feijão, legumes e carne. Não entrava em casa e não conhecia ração. Na casa dos meus avós paternos todo mundo andava descalço, os homens sem camisa e a gente podia subir em cima da casa pra soltar pipa. Num céu repleto delas.

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Guest Post: Racismo e legislação no Brasil

Blogagem Coletiva 21 março

Texto de Rael Fiszon Eugenio dos Santos*

Pela segunda vez a amiga Bárbara me convoca e cede espaço de seu Blog para algumas reflexões minhas sobre o racismo e as relações raciais no Brasil. A primeira foi no contexto do feriado nacional em respeito à “consciência negra”, 20 de novembro. Desta vez, estamos aqui para refletir sobre o racismo brasileiro graças ao Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, 21 de março.

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8 de março não é pra comemorar.

8 de março é o grande dia de luta para o movimento feminista. E, ao mesmo tempo, é o dia em que se materializa da maneira mais simplista e incômoda esse maldito binarismo contra o qual temos lutado historicamente: mulheres são de Vênus, homens são de Marte. Meninas gostam de rosa, meninos de azul. Meninas são delicadas, meninos são corajosos. E por aí vai.

O dia internacional da mulher é, majoritariamente, um dia feito para agradecer. Agradecer às mulheres da sua vida por serem mulheres. E “ser mulher”, nesse caso, é enfeitar os seus dias, embelezar seus caminhos, perfumar seu redor, cuidar de você, dar aquele temperinho à sua comida. Isso quando elas não estão na TPM, não é? Haha. Mas faz parte do charme delas, que graça quando ficam bravinhas. E dá-lhe incontáveis tons de rosa espalhados pelos anúncios publicitários. E distribuição de flores nas portas de lojas e de supermercados. E “feliz dia da mulher!”. Feliz?

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Nota sobre a eleição de Marco Feliciano (PSC) para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara

Como era de se esperar, o pastor racista e homofóbico Marco Feliciano foi eleito hoje presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias numa sessão fechada, depois do adiamento frente às manifestações populares de repúdio que impediram a realização da eleição ontem.
A eleição do pastor foi resultado de uma manobra política ardilosa da bancada evangélica (encabeçada pelo PSC e com apoio dos partidos de direita PP, PMDB e PSDB, que cederam suas vagas na comissão para o PSC) para IMPLODIR a comissão e garantir a continuidade da desigualdade, da opressão e da violência contra as minorias no Brasil.
Esse episódio, que se trata de apenas mais um em um universo muito maior, é particularmente preocupante porque revela como o conservadorismo se incorporou ao Estado, tomando conta dos meios institucionais. E quando o povo se levanta contra ele e protesta, recorrendo a esse direito tão básico que deveria ser garantido pela democracia, o Estado recorre a uma manobra ditatorial: a reunião com portas fechadas, com seguranças na porta para impedir que o povo entre no espaço onde supostamente é representado.
Os deputados contrários à eleição de Marco Feliciano se retiraram da sessão em protesto e prometem recorrer às instâncias possíveis. Mas sabemos mais do que nunca o quanto o Estado é conservador. Eles não nos representam. Perdemos hoje pra covardia, pra ditadura e pro fundamentalismo religioso. Mas a luta não pode em absoluto parar. A CDHM não é espaço nosso; pelo contrário: atuará contra nós. Nosso espaço são as ruas, nosso poder é a luta popular. Não passarão!